quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Passo a passo


Passo a passo

Que remédio, a saudade. Cura o reumatismo dos meus dias? Põe a funda de cinta no estilingue, corta a tripa de mico ajustada ao Y do galho. E faz mais? Faz a pedra fugir dos passarinhos, nos dias de lá.
Lá, onde? Partindo das costas do Laurinda, o colégio fundamental, passa a estradinha, vai pela pinguela, adensa a mata. O marca passo entre Lava-pés e Capim Azedo? Um pulinho no sítio dos padres, pro copo de leite e pra broa de milho dali mesmo.
Ainda era lá? Pego a pensar no São Paulo contra o Corinthians, e falamos, falamos. Quê? O passa fora da indignação carola das seis; o passa dentro pro sermão da sacristia. Lourencinho, o cura dessa vez, passa um pito em nós outros, esses coroinhas do barulho.
Cá entre nós, ficar lá pra perder a coisa toda d’agora?
Cá estou, no dia 12 de novembro e no teatro do SESC de Santos. Só que vou do Burkina Faso do palco pra Ibiúna da infância; só que volto na marcha. Juntos, diz o bebê de uns dois aninhos que vai no passo. Oba! Vamos! François Moise Bamba, o contador de histórias desta vez, leva a ouvir na sua fala o que preciso fazer para escutar.
Daí é que tomo mais siso do mundo no qual transito.
Ô imaginação. Ponte do presente pro passado, num vice-versa em que a realidade arde nas ansiedades? Sem asas nem plumas azuis, vou indo pelo meio do mundo. Com o fogo que me sustenta, construo o viaduto prestes a desabar, e isso vem desde que me dou por gente.
Em outras palavras? Não faltam palavras pra dizer o que não digo. Talvez isso explique o que não entendo. Com quanto grito se alcança o silêncio? Desde quando ontem deixa o amanhã vir a se tornar hoje? Se respondo, há pergunta? Pra responder, pergunto.
Sei que duvido um pouco. Que remédio, a desconfiança.
Mas justo agora?
Quando percebo, o ponto já foi. As cinzas caindo, há queimadas pela vida adentro. O insustentável se liquefaz? A memória crescendo estalactites. O pertencimento quer abraços? Mas há estalagmites que mordem. Que a raiva late; a loucura espuma pela boca; o coração faz furor na razão? Há fogo que mata.
Vou pelas entrelinhas. Se me pede pra dizer o que digo? A serviço do texto, vou pelo sentido do bem posto quando bem ouvido. Isso é bem relativo? Entre uma linha e outra, valha o escrito do que penso a quem vou escrevendo. Haja amor a nos unir: eu que me leio quando escrevo a quem se escreve quando lê.
Como assim, melhor não fica?
E vem o vendedor de bilhetes. Ele cego dá a ver que a sorte é pra quem tem, e não tenho tido. Ô azar, que não faço essa aposta.
A realidade não para nem por um instante. Todavia, se renova?
Não é por acaso que aquele ajudante, Elcimar Moreira da Silva, que ergueu o prédio da faculdade há dez anos, agora entra ali pra estudar. Sabe pelo suor que o campus da UFF tem nome: Santo Antônio de Pádua. Ele cruza 14 km pra chegar às raízes da Física, e vai indo.
O salutar disso tudo?
Via de mão dupla ― saudade boa não lima o limo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de novembro de 2019.

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