Passo a passo
Que remédio, a saudade.
Cura o reumatismo dos meus dias? Põe a funda de cinta no estilingue, corta a
tripa de mico ajustada ao Y do galho. E faz mais? Faz a pedra fugir dos
passarinhos, nos dias de lá.
Lá, onde? Partindo das
costas do Laurinda, o colégio fundamental, passa a estradinha, vai pela
pinguela, adensa a mata. O marca passo entre Lava-pés e Capim Azedo? Um pulinho
no sítio dos padres, pro copo de leite e pra broa de milho dali mesmo.
Ainda era lá? Pego a pensar
no São Paulo contra o Corinthians, e falamos, falamos. Quê? O passa fora da
indignação carola das seis; o passa dentro pro sermão da sacristia. Lourencinho,
o cura dessa vez, passa um pito em nós outros, esses coroinhas do barulho.
Cá entre nós, ficar lá pra
perder a coisa toda d’agora?
Cá estou, no dia 12 de
novembro e no teatro do SESC de Santos. Só que vou do Burkina Faso do palco pra
Ibiúna da infância; só que volto na marcha. Juntos, diz o bebê de uns dois
aninhos que vai no passo. Oba! Vamos! François Moise Bamba, o contador de
histórias desta vez, leva a ouvir na sua fala o que preciso fazer para escutar.
Daí é que tomo mais siso
do mundo no qual transito.
Ô imaginação. Ponte do
presente pro passado, num vice-versa em que a realidade arde nas ansiedades? Sem
asas nem plumas azuis, vou indo pelo meio do mundo. Com o fogo que me sustenta,
construo o viaduto prestes a desabar, e isso vem desde que me dou por gente.
Em outras palavras? Não
faltam palavras pra dizer o que não digo. Talvez isso explique o que não
entendo. Com quanto grito se alcança o silêncio? Desde quando ontem deixa o
amanhã vir a se tornar hoje? Se respondo, há pergunta? Pra responder, pergunto.
Sei que duvido um pouco.
Que remédio, a desconfiança.
Mas justo agora?
Quando percebo, o ponto
já foi. As cinzas caindo, há queimadas pela vida adentro. O insustentável se
liquefaz? A memória crescendo estalactites. O pertencimento quer abraços? Mas há
estalagmites que mordem. Que a raiva late; a loucura espuma pela boca; o coração
faz furor na razão? Há fogo que mata.
Vou pelas entrelinhas.
Se me pede pra dizer o que digo? A serviço do texto, vou pelo sentido do bem
posto quando bem ouvido. Isso é bem relativo? Entre uma linha e outra, valha o
escrito do que penso a quem vou escrevendo. Haja amor a nos unir: eu que me leio
quando escrevo a quem se escreve quando lê.
Como assim, melhor não
fica?
E vem o vendedor de
bilhetes. Ele cego dá a ver que a sorte é pra quem tem, e não tenho tido. Ô
azar, que não faço essa aposta.
A realidade não para nem
por um instante. Todavia, se renova?
Não é por acaso que
aquele ajudante, Elcimar Moreira da Silva, que ergueu o prédio da faculdade há dez anos, agora
entra ali pra estudar. Sabe pelo suor que o campus da UFF tem nome: Santo
Antônio de Pádua. Ele cruza 14 km pra chegar às raízes da Física, e vai indo.
O salutar disso tudo?
Via de mão dupla ― saudade
boa não lima o limo.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de novembro de
2019.
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