Canção
da primavera
Desta
vez será diferente, não há de pegar-me desprevenido. Como a senhora que, encantadora
repreensão, cobra de mim a regularidade da publicação das crônicas.
Quando
vier, e virá porque está por vir, não me pegará mais em descompasso, numa
espera sem fim. Que não é em nada infinita, incerta ou imprevisível. Assim,
estarei atento. Sentinela do tempo, a saudá-la no certo do momento.
Não malharei
a reforma, mesmo com a restrição aos produtos que me faltam, que a lista volta
inteira comigo. Só alface e umas bananas, e fora do rol dos itens discriminados.
Rezingo,
achando-me discreto. A senhora que passeia o cão, porém, recrimina a boca suja,
que não entredisse o calão de modo ininteligível. Deselegante, nem me desculpo.
Continuo a arrastar-me ranzinza, e desbocado.
Qual o
quê!
Da
próxima, olharei para os dois lados ao atravessar uma via pública, que há
bicicletas que passam a mil. Vai indo salvar a Amazônia? Então, que siga pela
Paris.
Ora, mesmo
observado, o cronista observa a vida. Nisto não ponho reparo, e frutifica o
assunto escondido em algum recanto do meu cérebro. Semeio e colho.
Por que
haveria eu de reclamar do progresso?
Nada
tenho a obstar as melhorias que as mudanças possam vir a trazer a esta parte do
planeta. Nem mesmo quando as transformações abrem valetas para entubar as águas
pluvial e encanada, além do esgoto. O saneamento é básico da nossa civilização,
desde que ousamos distribuir torneiras e sanitários a quem tem sede e digere
bem o que come, quando come. Vê-se pela mão de obra o quanto elas são
fundamentais para o andamento da nossa vida assaz contemporânea, saudemos bicas
e bacias.
Não divago,
nem o cinismo.
Desta
vez será diferente, reafirmo com todas as letras.
Não, o
amanhã não tem que ficar para um amanhã que não brota nunca. Será infame o fruto
do que se furta às vontades? Famigerada, tenho fome de mordê-la. Maçã, a que não
me é negada nem subtraída, apenas está a caminho. Bem sei que vem.
Sei de
cor a canção que ainda não aprendi. Cantam-na as pessoas que não a compreendem,
atravessam-na. Para maior alegria de quem o instrui, o garoto de pernas curtas
canta a lua encoberta. Canta ao eco da mania, o caduco que a entende glória à verdade.
Até por
mim, nesta toada, agora sei a travessia para o que posso, devo e preciso, no
caminho da sabedoria. Embora longo. Indo por aí é que irei, hei de sair do
inverno da noite intragável para aconchegar-me ao sol aprazível do dia novo.
Por aí,
quero rir.
Longe
de mim a nostalgia da areia, a tristeza da onda na praia e a melancolia das
pegadas que me querem apagar.
E por
quê? Também quero rir.
Astuto
o bastante para rir junto, rio.
Cioso
de sua chegada, sem alarde, setembro veio que nem vi. Por isso, primavera, trato
de lembrar que as distrações que divertem vão passando. E é para logo a canção
que me afina o passo em flor.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 03 de setembro de
2019.