terça-feira, 3 de setembro de 2019

Canção da primavera


Canção da primavera

Desta vez será diferente, não há de pegar-me desprevenido. Como a senhora que, encantadora repreensão, cobra de mim a regularidade da publicação das crônicas.
Quando vier, e virá porque está por vir, não me pegará mais em descompasso, numa espera sem fim. Que não é em nada infinita, incerta ou imprevisível. Assim, estarei atento. Sentinela do tempo, a saudá-la no certo do momento.
Não malharei a reforma, mesmo com a restrição aos produtos que me faltam, que a lista volta inteira comigo. Só alface e umas bananas, e fora do rol dos itens discriminados.
Rezingo, achando-me discreto. A senhora que passeia o cão, porém, recrimina a boca suja, que não entredisse o calão de modo ininteligível. Deselegante, nem me desculpo. Continuo a arrastar-me ranzinza, e desbocado.
Qual o quê!
Da próxima, olharei para os dois lados ao atravessar uma via pública, que há bicicletas que passam a mil. Vai indo salvar a Amazônia? Então, que siga pela Paris.
Ora, mesmo observado, o cronista observa a vida. Nisto não ponho reparo, e frutifica o assunto escondido em algum recanto do meu cérebro. Semeio e colho.
Por que haveria eu de reclamar do progresso?
Nada tenho a obstar as melhorias que as mudanças possam vir a trazer a esta parte do planeta. Nem mesmo quando as transformações abrem valetas para entubar as águas pluvial e encanada, além do esgoto. O saneamento é básico da nossa civilização, desde que ousamos distribuir torneiras e sanitários a quem tem sede e digere bem o que come, quando come. Vê-se pela mão de obra o quanto elas são fundamentais para o andamento da nossa vida assaz contemporânea, saudemos bicas e bacias.
Não divago, nem o cinismo.
Desta vez será diferente, reafirmo com todas as letras.
Não, o amanhã não tem que ficar para um amanhã que não brota nunca. Será infame o fruto do que se furta às vontades? Famigerada, tenho fome de mordê-la. Maçã, a que não me é negada nem subtraída, apenas está a caminho. Bem sei que vem.
Sei de cor a canção que ainda não aprendi. Cantam-na as pessoas que não a compreendem, atravessam-na. Para maior alegria de quem o instrui, o garoto de pernas curtas canta a lua encoberta. Canta ao eco da mania, o caduco que a entende glória à verdade.
Até por mim, nesta toada, agora sei a travessia para o que posso, devo e preciso, no caminho da sabedoria. Embora longo. Indo por aí é que irei, hei de sair do inverno da noite intragável para aconchegar-me ao sol aprazível do dia novo.
Por aí, quero rir.
Longe de mim a nostalgia da areia, a tristeza da onda na praia e a melancolia das pegadas que me querem apagar.
E por quê? Também quero rir.
Astuto o bastante para rir junto, rio.
Cioso de sua chegada, sem alarde, setembro veio que nem vi. Por isso, primavera, trato de lembrar que as distrações que divertem vão passando. E é para logo a canção que me afina o passo em flor.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de setembro de 2019.

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