domingo, 25 de agosto de 2019

Mundo velho


Mundo velho

O mundo e os seus acontecimentos. A vida não para. E os cronistas observam, buscam relações, estabelecem conexões que gostariam de tornar visíveis. Nem sempre contam com a solidariedade dos leitores, já pela abordagem, já pelo assunto. Bem ou mal, a partir de alguns eventos, os cronistas registram o que pensam e há as interações pela leitura. E assim é desde que a escrita passou a nos fotografar, pela observação textual de quem se dispõe a dizer em que pé anda a realidade. Claro, com binóculo ou lupa, isso fica pela curiosidade elementar do comentarista.
O comentarista, diga-se, ou é mulher ou é homem. O leitor, saliente-se, é feminino ou masculino. Quem escreve e quem lê, ressalte-se, cada qual traz a sua etnia, a sua quantidade de melanina na pele, a sua religião ou a sua falta de fé. Com ou sem dinheiro; de riso expansivo ou de seriedade introspectiva; lendo o texto no papel ou nas nuvens. Afora que todas e todos vamos pelo mundão adentro.
O autor (ou autora) e a leitora (ou leitor) da crônica vivem no tempo em que lhes cabe viver. Porém, isso não os coloca no mesmo espaço de tempo. Uma crônica do Rubem Braga pode ter sido lida ou ter sido ignorada por uma pessoa que estava viva com o cronista vivíssimo. Assim como, agorinha mesmo, esta crônica está sendo lida por alguém que acabou de pegá-la para ler no dia 25 de agosto de 2169 ─ posso e especulo.
Em outras palavras, quanto mais eu leio, mais expando as fronteiras do desconhecido. Por exemplo, as crônicas de Ivan Lessa, postas em livro ou vindas de um computador, muito me servem para o permanente aprendizado. Quer me parecer que, hoje, a mente quer refresco ou uma baladinha de louco, só que não paro de pensar. Até quando paro para pensar.
Como funciona a cabeça, não sei. Como é que a crônica faz andar a roda dos neurônios, isso é o que me trouxe até aqui. E passando por este ponto, assim como vim e assim como vou seguir, é por minha conta. Se for o caso, aposto.
Afinal, faço parte do jogo. E jogador, enquanto escrevo, vou fazendo as minhas ilações. Arrisco-me a perguntar se escolho o tema ou se procuro o assunto. Nem um, nem outro. Às vezes, nem sempre. Quando me encontram, já estou sentado e com o lápis afinado ─ mesmo indo à farmácia para apaziguar as chamas gástricas.
Corro o risco porque não me boicoto, dando uma de lesado ou de arlequim de ressaquinha. Entendo que um boicote é ato político, e tolero qualquer posicionamento ideológico. Contudo, o que não aceito é a passividade quando o urgente é a ação.
Aliás, fica fácil mostrar-se hábil com os holofotes. Mas a prevenção vem de outras luzes.
Como o cronista pouco entende de química, meto o bedelho na fornalha alheia. Para que o domingo semeie a paz, chego à florada sem turbulências e precipitações de acidez agravadas, negando água à sede da criança:
─ Biarritz, mamã, tá no Velho Mundo?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de agosto de 2019.

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