Mundo
velho
O mundo
e os seus acontecimentos. A vida não para. E os cronistas observam, buscam
relações, estabelecem conexões que gostariam de tornar visíveis. Nem sempre contam
com a solidariedade dos leitores, já pela abordagem, já pelo assunto. Bem ou
mal, a partir de alguns eventos, os cronistas registram o que pensam e há as
interações pela leitura. E assim é desde que a escrita passou a nos fotografar,
pela observação textual de quem se dispõe a dizer em que pé anda a realidade.
Claro, com binóculo ou lupa, isso fica pela curiosidade elementar do
comentarista.
O
comentarista, diga-se, ou é mulher ou é homem. O leitor, saliente-se, é feminino
ou masculino. Quem escreve e quem lê, ressalte-se, cada qual traz a sua etnia, a
sua quantidade de melanina na pele, a sua religião ou a sua falta de fé. Com ou
sem dinheiro; de riso expansivo ou de seriedade introspectiva; lendo o texto no
papel ou nas nuvens. Afora que todas e todos vamos pelo mundão adentro.
O autor
(ou autora) e a leitora (ou leitor) da crônica vivem no tempo em que lhes cabe
viver. Porém, isso não os coloca no mesmo espaço de tempo. Uma crônica do Rubem
Braga pode ter sido lida ou ter sido ignorada por uma pessoa que estava viva
com o cronista vivíssimo. Assim como, agorinha mesmo, esta crônica está sendo
lida por alguém que acabou de pegá-la para ler no dia 25 de agosto de 2169 ─
posso e especulo.
Em
outras palavras, quanto mais eu leio, mais expando as fronteiras do
desconhecido. Por exemplo, as crônicas de Ivan Lessa, postas em livro ou vindas
de um computador, muito me servem para o permanente aprendizado. Quer me parecer
que, hoje, a mente quer refresco ou uma baladinha de louco, só que não paro de
pensar. Até quando paro para pensar.
Como
funciona a cabeça, não sei. Como é que a crônica faz andar a roda dos
neurônios, isso é o que me trouxe até aqui. E passando por este ponto, assim
como vim e assim como vou seguir, é por minha conta. Se for o caso, aposto.
Afinal,
faço parte do jogo. E jogador, enquanto escrevo, vou fazendo as minhas ilações.
Arrisco-me a perguntar se escolho o tema ou se procuro o assunto. Nem um, nem
outro. Às vezes, nem sempre. Quando me encontram, já estou sentado e com o
lápis afinado ─ mesmo indo à farmácia para apaziguar as chamas gástricas.
Corro o
risco porque não me boicoto, dando uma de lesado ou de arlequim de ressaquinha.
Entendo que um boicote é ato político, e tolero qualquer posicionamento
ideológico. Contudo, o que não aceito é a passividade quando o urgente é a
ação.
Aliás,
fica fácil mostrar-se hábil com os holofotes. Mas a prevenção vem de outras
luzes.
Como o
cronista pouco entende de química, meto o bedelho na fornalha alheia. Para que
o domingo semeie a paz, chego à florada sem turbulências e precipitações de
acidez agravadas, negando água à sede da criança:
─ Biarritz,
mamã, tá no Velho Mundo?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 25 de agosto de
2019.
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