A
prosa do mundo
O acaso
me destinou a oportunidade de mudar inteiro o dia de ontem. Explico, ou tentarei.
Caso a memória me falhe, e ela tem-me traído como quem assobia uma valsa pensando
em outra, pois à falta de elementos, antes que me perca, emendo a quadra, certo
de arrematar o soneto sem negar ao ouro a sua chave.
Ignorante
da origem das palavras e das frases idiomáticas, ganho, de vez em quando, algum
conhecimento sem que me veja obrigado ao esforço. Cai-me no colo, por assim
dizer.
Vou em
frente, embora haja quem questione a utilidade do lugar comum, da frase feita, colocado
no meio do texto que a gente escreve. Nada disso, porém, tira a graça do
encontro do pé com o buraco. Da queda do outro, claro, que a nossa motiva
impropérios que estavam empoeirados no estoque.
Como,
aqui, se trata de encadear os fatos fortuitos que vou lembrando sem atinar para
o natural da conexão do bálsamo com as quaresmeiras em flor, passo ao que ponho
interesse.
Na
passada da ideia, engole-me com voracidade o buraco que o madeirite encobre,
mal o piso. Mas, ligeiro feito cão às voltas com o laço da carrocinha, bato das
costas a dor da pancada no concreto do passeio. Agradeço a quem me ampara o
riso contido, de gente constrangida à solidariedade, apesar do ridículo do baque
às três horas. E com o noroeste aceso, eu suava ─ de caminhar sob o sol; e pela
cena, de raiva.
Refeito
do patético, todavia, retomei a meada. O fio já rompido, pouco importa se
inútil, o acaso deu-me outro para puxar. Em comércio com a vida, dou o troco
sem pressa.
Me
sinto um zero à esquerda?
Avante!
Esqueça-se do zero à esquerda. Vamos, esqueça o zero à direita. Fuja da
comiseração. Procure ver o que está na cara. O que vê? Ora, se tem um zero para
lá e outro para cá, a separá-los? A vírgula. Isso faz toda a diferença.
Entre o
falso do pé e o chão da pancada, o buraco.
E foi por
acidente que posso agora pensar o que antes nem alentava. Com palavras, dou
corpo ao pensamento. Tranço-as. Aperto ou afrouxo, vou ensaiando os sentidos. Faz-se
visível o que quero comunicar. Para avançar, volto. Releio, reescrevo. Enquanto
escrevo, refaço-me pelo texto.
É
processo que não para e me ultrapassa. Começa em mim, mas em mim não se esgota.
Posso imaginar algo além, o texto pronto. Posso transcender o que tenho em mãos
ao criar o que nem sei o que está vindo à tona pelas palavras que uso para
expressar o que quero dizer. Até que venha o ponto final.
Em
outras palavras, faço-me o buraco que preciso para cair na rede das possibilidades
do engenho. A crônica que alcanço com a imaginação vem da fatalidade, do azar
de ter cruzado com a pegadinha do destino.
Quando
a gente tenta dizer o que sente dá nisso, em motivo de riso. Diante dos causos com
que a vida nos conta, a pessoa ri do que quer porque tombo algum é maior do que
a perna.
E na
danada da máquina do mundo, ninguém dá ponto sem nó.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 01 de setembro de
2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário