terça-feira, 27 de agosto de 2019

Duplo sentido


Duplo sentido

Os sinos vêm da sala. Do relógio, a perseguir o silêncio. Come os segundos, os distraídos. Queria ficar sentado no sofá. Tentando achar erro nas notícias que foram preparadas. Cena a cena, com o ensaio do improviso. Falam sem parar.
Tá na cara que é truque, segredou. Ao piano.
Sim, ali tinha um piano. De calda, tinha de ser ou seria um cenário de filmeco, um faroeste vagabundo com uns mexicanos fazendo as vezes do índio.
Oia, os caídos de relógio. Tudo muito falso. Tenha dó!
Nem tinha reparado na fumaça dos canos, sem som de tiro nem sangue na roupa. E as badaladas quebraram o encanto. Seis horas, disseram os sinos do relógio da sala. Embora todos tivessem pulsos.
Que coisa mais brega este Big Ben. Matraca de papagaio.
Os sons gravados na memória. O treco tinha bateria. Tinha cérebro, uma placa. Era um simulacro, não era analógico, que a imagem digital pantomimava o relógio das antigas. Com números romanos, tinha que, em vez de um pauzinho e um vê maiúsculos, o algarismo quatro era quatro pauzinhos.
Por que a senhora mantém o troço na sala, não basta o monstro que ninguém dedilha? E o asno vive acelerado. Haja!
Prevendo a catástrofe, fui para o canto. Fiz a cortina para o rosto. Fiz com as mãos. Só não quis contar até dez. Foi o peixe que comeu a minha língua. A noite prefere cantar a escuridão. Nem lembro em que tom aquela voz quebrou o sigilo. Tem gente que faz a confusão do propósito. Diz no jeito torto ao falar com a gente. Quer saber qual animal tem o saber de voar de noite.
Tem faro de leão, olhar de lince e presas de tubarão.
Foi batata.
Acorda! É águia na cabeça, seu burraldo.
Aconteceu como já era esperado. Isso é assim desde que a buzina veio com tudo. Veio e criou raízes.
Que bicho mais sem noção. Badalar as seis horas quando já se espera a repetição do esperado. Deveria ser proibido um Big Ben de mentira. Uma imitação feita por aí, no Mandaqui ou na Manchúria. Uma batatada tudo isso.
Por isso, na dose certa de paciência da vontade, encolhi no lugar. Ele foi, tirou da parede pro tapete. Foi, escorou o piano no canto das paredes. Levantou o trono com o macaco grande de levantar carro, um jacaré de pesado. Fez.
É macaquice. E só para saudar a rainha. Ter o cronômetro programado. O sotaque pega na gente. Ô raiva.
A vitória foi tremenda. Adeus, hora marcada. Adeus, música agendada. Foi quando a mulher entrou, viu. Ela não disse uma palavra. Sentada no chão, resignada de lenta, juntando os cacos. O que ainda prestava do amigão foi pro lixo. O arrepio do ridículo foi ela cantarolar a música que tinha o Denzel, a do tempo ao seu lado.
Você podia disfarçar, sussurrou o refazedor.
Fiquei passado, parado.
Sem frescurite, a mulher de branco trouxe o quê?
Era estreito em cima e em baixo; o lado de lá e o de cá mais largos; a pele de prata corria brilhante.
No livro rubro do caos, quem vê o aquário vê o gato?
Ai!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de agosto de 2019.

Nenhum comentário:

Postar um comentário