Duplo
sentido
Os
sinos vêm da sala. Do relógio, a perseguir o silêncio. Come os segundos, os
distraídos. Queria ficar sentado no sofá. Tentando achar erro nas notícias que
foram preparadas. Cena a cena, com o ensaio do improviso. Falam sem parar.
Tá na cara
que é truque, segredou. Ao piano.
Sim, ali
tinha um piano. De calda, tinha de ser ou seria um cenário de filmeco, um
faroeste vagabundo com uns mexicanos fazendo as vezes do índio.
Oia, os
caídos de relógio. Tudo muito falso. Tenha dó!
Nem
tinha reparado na fumaça dos canos, sem som de tiro nem sangue na roupa. E as
badaladas quebraram o encanto. Seis horas, disseram os sinos do relógio da sala.
Embora todos tivessem pulsos.
Que coisa
mais brega este Big Ben. Matraca de papagaio.
Os sons
gravados na memória. O treco tinha bateria. Tinha cérebro, uma placa. Era um
simulacro, não era analógico, que a imagem digital pantomimava o relógio das
antigas. Com números romanos, tinha que, em vez de um pauzinho e um vê
maiúsculos, o algarismo quatro era quatro pauzinhos.
Por que
a senhora mantém o troço na sala, não basta o monstro que ninguém dedilha? E o
asno vive acelerado. Haja!
Prevendo
a catástrofe, fui para o canto. Fiz a cortina para o rosto. Fiz com as mãos. Só
não quis contar até dez. Foi o peixe que comeu a minha língua. A noite prefere cantar
a escuridão. Nem lembro em que tom aquela voz quebrou o sigilo. Tem gente que
faz a confusão do propósito. Diz no jeito torto ao falar com a gente. Quer
saber qual animal tem o saber de voar de noite.
Tem faro
de leão, olhar de lince e presas de tubarão.
Foi
batata.
Acorda!
É águia na cabeça, seu burraldo.
Aconteceu
como já era esperado. Isso é assim desde que a buzina veio com tudo. Veio e criou
raízes.
Que
bicho mais sem noção. Badalar as seis horas quando já se espera a repetição do
esperado. Deveria ser proibido um Big Ben de mentira. Uma imitação feita por aí,
no Mandaqui ou na Manchúria. Uma batatada tudo isso.
Por
isso, na dose certa de paciência da vontade, encolhi no lugar. Ele foi, tirou
da parede pro tapete. Foi, escorou o piano no canto das paredes. Levantou o
trono com o macaco grande de levantar carro, um jacaré de pesado. Fez.
É macaquice.
E só para saudar a rainha. Ter o cronômetro programado. O sotaque pega na
gente. Ô raiva.
A vitória
foi tremenda. Adeus, hora marcada. Adeus, música agendada. Foi quando a mulher
entrou, viu. Ela não disse uma palavra. Sentada no chão, resignada de lenta, juntando
os cacos. O que ainda prestava do amigão foi pro lixo. O arrepio do ridículo foi
ela cantarolar a música que tinha o Denzel, a do tempo ao seu lado.
Você
podia disfarçar, sussurrou o refazedor.
Fiquei
passado, parado.
Sem
frescurite, a mulher de branco trouxe o quê?
Era estreito
em cima e em baixo; o lado de lá e o de cá mais largos; a pele de prata corria brilhante.
No
livro rubro do caos, quem vê o aquário vê o gato?
Ai!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 27 de agosto de
2019.
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