sexta-feira, 30 de agosto de 2019

No ponto


No ponto

Caramba, não consegui mandar um material por e-mail. Era para ontem, e não tive tempo. Minha nossa, como a vida está corrida. Nem dá para dar conta do que é preciso fazer com o tempo que a gente tem. Sessenta segundos parecem menos, em torno de vinte ou quinze, de tão veloz que anda a marcha do mundo.
A realidade vigora independentemente dessa cronometragem. Ela segue as leis físicas de seus atributos. Passo a passo, instante a instante. Me parece que está na hora de pegar um atalho, para ganhar tempo. Isso ia quebrar um galhão. Não me conformo com o mundo preso à velocidade do momento.
E o apartamento está mesmo precisando de uma limpeza daquelas. De arrastar móveis, bater as cortinas, passar escova nos rejuntes do banheiro. Uma faxina caprichada. Mas, quede tempo?
Preciso encontrar um tempinho para mim.
Sei como, e dou um jeito nisso. Entro no primeiro ônibus que passa. Vou sentar num dos bancos que ficam acima dos pneus. Por serem mais altos, posso passar a impressão de que estou só de olho na vida fora do veículo.
Curioso, a barulheira toda me faz pisar no freio. Ou melhor, para não me atropelar, tiro o pé do acelerador. Aos poucos, tudo vai se ajeitando e atinjo uma velocidade que me permite a observação de quem é mais um na balbúrdia.
Nada mais urbano.
E vejo as pessoas atarefadas, de zap em zap. O rapaz que engole a batatinha quase consegue mastigá-la duas vezes. A mulher que reclama da cobrança do cartão nunca ouviu falar em Altamira, o que dirá ter R$ 1.068,00 para torrar na janta.
Como o motorista do ônibus, porém, é obrigado a respeitar os semáforos, ele não vai na maciota. Aos trancos e barrancos, vai parando de ponto em ponto feito um alucinado. Como se o mundo fosse acabar num instante.
Interessado nas pessoas, queria exercitar a minha escuta em paz. Vim para esfriar a cabeça, alimentá-la com histórias. Só que o motorista está por demais acelerado. Nem bem sentei e já estou uma pilha, louco para descer.
Contrariado, caio fora da barca. Meu barco é outro.
Não faço caso, volto para casa. A pé. Vou devagar, sem a febre dos condenados que comem os segundos achando que a vida tem prazo de validade. A curtição do momento é viver como se cada segundo fosse um instante a mais e não um a menos. Aprecio o caminho, tantas novidades e redescobertas.
O corre-corre do mundo deixa a gente meio perdida; aliás, bem confusa. Mantendo a calma, com o foco no que faço, não troco os pés pelas mãos nem compro gato por lebre.
Resistindo aos desembestados, aumento a pressão.
Pra já, meto a colher, examino o grude, reconheço o paio e a linguiça. É chegado o tempo de não levar tudo em banho-maria.
Pra encurtar o papo.
Já que agora sou todo pressa em não deixar pra lá que nem casca grossa esconde com quanta bosta se faz um banana, ratifico este osso duro de roer: são perversos os homens que tornam sombrios os dias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de agosto de 2019.

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