terça-feira, 30 de julho de 2019

Adeus às ilusões


Adeus às ilusões

Corro. O mundo melhor não depende de mim. A vida nova foge do que faço. A realidade mais justa morre com o idealista indo ao banheiro de madrugada. O copo d’água a mais não vira sopa de batata. De cenho fechado, o real passa que nem olha para trás. O romântico conta as moedas. Vai, pensador, vai a pé ao Sarau no Sebo Café. Minha autoestima anda tão rasteira que até as baratas me fazem cafuné. O meu amor próprio está em cima do carrinho de pastel, e a Utopia está distante a uma olhada. Não faço, mas posso colocar em ordem alfabética as firmas de cobrança na minha caixa de e-mail. Nem a dúvida corre apagar a luz queimada do quarto. Não é uma pulga que me faz cócegas na barriga. Ouço quieto quem passa sermão, pois sabe com quem está lidando. De agora em diante, meu orgulho vai mancar, por ter pisado a latinha que fiz questão de não ver. Vítima da rede intermitente ou da recarga por fazer, não carrego página alguma. E celular que não dorme vive para comer pelas beiradas o que só é beirada. A razão me pede um antiácido, uma vez que o sangue ferve desde o julho de 2013. O coração comovido pede mais um turno ao pleito de 2018. Na boca, a minha língua serve apenas como isca para fantasmas surdos. Latindo no peito, as ansiedades do perplexo pululam. As contradições revolucionárias denunciam meus garranchos sem garrafa. O perfume noctívago do olíbano dos desejos mais indômitos está evaporado. Miragens de shopping abarrotado assombram o cartão já abatido pelo crédito. Nem me imagino engolindo a porção de fritas que recende a óleo rançoso. Finjo, rancoroso, não invejar a tulipa balançando por mais um chope. Os becos sem saída da calada da noite dão apagão na Itaipu das minhas sinapses tão lerdinhas. O sofá que me recolhe é o mesmo que entorta o meu sono. Ó poodle a unhar o cercado que o barra na sacada do apartamento. Ó gatinho taciturno que mantém a curiosidade além da porta. Ó frenética serra elétrica cortando o ferro para fundear a nave que trará Valhalla ao outro lado da rua. A rua, esta rua leva o nome de alguém de carne e osso, tributo a quem de complexada mente complexa, preito à pessoa que devia ter as finanças em dia. Cadê vacina a quem perdulário? Tenho dois dedos de café esfriando, pois não paro para pensar nem penso em parar para pensar. Stop! O meu lápis humorista traz o Drummond, o Carlos de Itabira, sabe? Sei, fui informado. Sei que o Louco não é o Rolo. Sei do mosquitinho miserável que inocula os labirintos da febre com uma picadinha. Sei, é preciso mais médicos, mais professores, e arroz com frango, sem brócolis. Sei, o Quincas Borba vive latindo da estante. Sei, e dou todas as letras: os aviões que pousam em Congonhas decolam; e em Congonhas a pedra sabão traduz o engenho do Aleijadinho. E pelo que sei, até onde sei ou acho que sei ─ faço questão de saber.
Por que tudo isso? Agosto está vindo aí.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de julho de 2019.


domingo, 28 de julho de 2019

Um cabra


Um cabra

Porreta é quando o texto anda, seja lido na popa ou na proa. Depois de escrito, a lanterna que o ilumina não está nas mãos de quem escreve, nem o alcance da luz. Acaso na borrasca o texto funciona como um farol? Que seja tomado por útil. Se por uma razão obscura o mesmíssimo texto torna improvável atinar com o porto? Sirva de bússola a quem joga os salva-vidas ao mar. Eis o ponto: cabe a quem lê dizer o que o texto lhe diz. Na leitura está a chave do escrito. Cuidado. O mapa em mãos, às vezes, dá a febre da exegese desmedida, o vírus da minúcia semântica exagerada, a mosca da superinterpretação, tamanha iluminação acaba cegando.
Tem nevoeiro na enseada, então, o importante é não perder o rijo da corrente da âncora. Que gostoso ficar à deriva...
Ô moléstia!
O cabra da peste do Jean Cocteau corisca este pensamento no livro A dificuldade de ser: Escrever é um ato de amor.
Cabe o aviso aos navegantes que sigo a carta náutica que a minha cabeça vai propondo, para além dos búzios.
Então, é deliberado o ato de dar vento às palavras, fazê-las circular por aí sem doutrinação consciente, disseminá-las pelo mundo ao publicá-las, e que o acaso providencie o solo em que se abrirão os esporos, venham a germinar raízes, se fortaleça o caule, vicejem as folhas e, no esplendor da sua potência, que prosperem como encantamento suas flores. Quem sabe haverá beleza? Ou a necessidade de sentir que há beleza no texto que floresceu. O ápice do sublime, para além do jasmim.
E a rapadura põe seu afeto na minha boca. Sim, as palavras têm história, vivem porque carregadas de memórias, tradutoras das semânticas circunstanciadas, dado o uso de quem as fala. E de tal jeito que a gostosura do baião de dois, texto e quem lê, faz a gente assobiar que a língua que as pessoas palpitam é uma só, una, unificada, a que se fala. Na visão do falante é o que ocorre. Então, a língua de todas as pessoas que a falam pode parecer uma, isso é sereia cantando.
Não ponho cera nos ouvidos nem levanto âncora.
E diz o homem: Planto mandioca, tenho mãos calejadas e a pele manchada de tanto sol, moro em Cachoeira do Sul, a um dia e meio a pé estou no Uruguay, pois vou na temporada dos curimbatás. E diz a moça: Como minha macaxeira com bacon na praça de alimentação do Shopping Manaira, estou arretada estreando meus dreadlocks com as miçangas coloridas, ainda que presa no tailleur que a loja obriga a usar, isso serve para destacar a minha pele, de bisneta de malês escravizados.
Ou seja, o vernáculo existe para ser usado com moderação. A moderação da lucidez, com autonomia. Assim, dizer que um fato que aconteceu não aconteceu é mentir. Menosprezar uma pessoa pela cor da sua pele é racismo. Fazer piada por conta da situação econômica de alguém é preconceito. Agredir uma pessoa por causa da sua religião é crime.
Palavras, palavras, palavras. O resto é embromação.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de julho de 2019.


quinta-feira, 25 de julho de 2019

O Coiso

O Coiso

Esta oração que não é uma oração foi-me ditada por minha mente narcotizada. Por isso, os meus agradecimentos públicos ao doutor Atanásio Baptista e à sua assistente Marineide que a colocaram no estado de declarações incontroladas pelo censor que há em mim, pelo hábito da proximidade. Uma convivência comigo há mais de 50 anos emperra a espontaneidade, né?
Em outras palavras, para dirimir quaisquer imprecisões: as certezas cegam; os arautos da certeza ensurdecem; os acólitos dos arautos tagarelam. Assim, os erros disciplinam a mente de uma pessoa. A minha, sim. Com a presunção de que sei como sou, posto que me arrisco a dizer categoricamente quem sou. A audácia da afirmação, mais antidepressivos, ansiolíticos e os analgésicos, claro, ou estaria blefando.
Falei da mente, e só da mente. Uma vez que o corpo segue indomável, insurgente, contrário aos ditames da boa mesa, das maneiras de berço, dos talheres adequados à tainha na telha.
Muito bem, é um caminho. Mas a mente julga adestráveis as nádegas na sela. Todavia, é preciso combinar com o pangaré que a hípica aceita saltos estrambóticos, disciplinadamente de equipe. Nada de solo fora de hora, refugos inconsequentes, os coices apologéticos. Se não for assim, desgrama!, o parágrafo estará perdido.
Pois bem, penso no calhambeque do circo. É que vem junto a trupe dos palhaços. A graça é resistir pelo riso, esperando o carro ser detonado, vê-lo em pedaços. Depois, há o espetáculo a seguir, da próxima sessão, e já tem fila no guichê. O bicho? A máquina estará inteirinha, afinal, eba!, não se destrói o que vai ao chão. E o que seria da alegria das crianças se os palhaços viessem a pé? Continuariam alegres, seguiriam crianças. Isso.
Portanto, o parágrafo acima não serve.
Portanto, direto ao útil: a ladainha do tempo canta por ciclos; os ciclotímicos correm para ir a lugar nenhum; e os ciclotímidos valem-se do luar para a fotossíntese da melancolia que sentem quando o circo está na cidade, quando ele está indo embora e quando nem dá as caras por anos.
O angu?
Que coisa a gente ter de conviver com a gente mesma, sem a opção da recusa ou do mútuo entendimento. A mente faz das suas, leva o corpo à insônia com a alvorada dos infernos. Haja notícias do Mundão. Prefiro nem me aprofundar em Ormuz. Por favor, cabeça, dá um jeito nisso daí. E vou andando, tento, mas está complicado. O balanço agudo ora joga contra a parede, ora me atira contra as cordas. Cadê a joça do gongo? Nem sei se estou vindo da popa ou indo para ela. Aliás, onde é a popa? Vixe! Os rins têm pedras, tem pedras a vesícula, e nem tenho estômago para digerir tanta pedrada que tomo da moringa.
Para os urubus na corrente do meu ventre?
Água, água, água. Sim, e também peço água.
Passo à palavra de uma das minhas neuras que não picam a mula do picadeiro, o Isaías 45:7... E a opinião do Maioral?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de julho de 2019.


terça-feira, 23 de julho de 2019

A insônia da vez


A insônia da vez

Por ironia da história do Brasil, só pode ser por ironia e não por alguma geringonça enraizada, lendo crônica alheia tomei consciência da relevante utilidade do tal botão da liberdade, o popular foda-se. O problema, a meu ver, está no uso massivo, como se cabível o seu uso em todas as situações, sintoma do quão tosco é quem o faz de modo tão sistemático.
Quer-me parecer que, em voga nestes dias de correntezas acachapantes, a truculência foi alçada ao posto de resolutor universal de adversidades. Uma bobagem. A liberdade, desde que Buda era Gautama, passa pela mente se situar no meio do rio, sem exagerar o balanço da canoa e sem minimizar a força da água. Mantenho o pescoço fora da lama. Então experimento a chuva, vivencio o toró, avalio-me o grau da tempestade. Não sei se terei a serenidade para ir à margem. Sei apenas que, a cada circunstância, o manual é inútil, porque não existe. Que bom, assim posso escolher ou, como me ocorre muitas vezes, deixar que minhas experiências tracem o caminho para mim. Sou quem sou porque, bem ou mal, venho decidindo em meu nome, fruto da cultura com a qual fui alimentado, agasalhado, acolhido, e até expulso. E não me dou asa porque não voo.
Mas deixar de ver as nuvens? Depois do verão, o outono.
A liberdade está no sim e no não. A todo instante.
É que o mundo dá voltas, não para quieto. O corpo também. A cabeça mais ainda, em constante movimento, bicho que não me aquieta. Daí a sensação, a percepção, a intuição. Pois não se entra no mesmo apartamento duas, três, oito, sei lá quantas vezes no dia. Nenhuma entrada está precedida por uma saída que lhe seja originária. Precede-a, sim, mas não a condiciona emocional ou materialmente. Saio um, outro volta.
O corpo conhece quando sente; sabe quando a noite presa nas roupas do dia anterior forja o despiste; entende o que nem olhos nem a língua querem dissonante, o mutismo que ignora o próprio alcance. Em silêncio, a cabeça ganha o rebolado na dança das horas. Ao pesar os momentos da vigília, a lucidez limpa o olhar, na descoberta do presente. E sem dizer que sete da noite é três da tarde, ou mesmo dizendo. Bufão.
Apesar de todo o meu esforço no sentido contrário, também conto com o fracasso para orientar as minhas maledicências. Sentido, direção; sul, norte; horizontal, vertical; patati, patatá. O ramerrão são truques, prestidigitações. Cartola, coelho, mãos e olhos. Há mecanismos variados: para mágicos de churrasco, o baralho; para os de palco italiano, nem camisa de força.
Se Parmênides ou Hamlet? O mundo e o sonho do mundo, que o corpo dá forma ao colchão mesmo flutuando.
Putz! Há 300 carreiras na nomenclatura do funcionalismo público. Discutível é a velocidade da ascensão e a pessoa receber auxílios moradia, transporte, alimentação.
Da cartola, a insônia: de quantos burocratas precisamos?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de julho de 2019.

domingo, 21 de julho de 2019

Às voltas com o mundo


Às voltas com o mundo

Com uma montanha-russa perturbadora, indo de trinta e três a quarenta graus numa sequência de loopings; com um céu carregado de paroxismos a adensar o turbilhão mental; com a saliva acre a temperar o fim do mundo. Ou seja, estive para poucos amigos à noite. Vou logo avisando, esta crônica não é suave, não é bonita, não passa os nossos dias pela lente da bonança. Afinal, o tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
Há a embaixada em Washington; há governadores que só reclamam; há árvores abatidas dadas como vicejantes; há uns filmes de mulher pelada; há a cotação do dólar atrelada a tudo isto. Ó Umberto Eco, onde está que não responde?
A realidade é uma maçaroca de informações úteis e inúteis, alegres e tristes, velhas e novas, uma mistureba que o fígado nem dá conta de digerir, sobrando para a vesícula.
A dita cuja que em mim engendra um bicho atroz que me acaricia só raspando as garras. Num único ponto. Senti que a noite seria de aguda percepção do caos do mundo. Não tinha como fugir, já que o monstro é minha cria.
Tomei o medicamento para cólica biliar. Opa! Tinha alguma coisa errada. A reação emética veio de imediato. Como assim? No soro, lá no Pronto Socorro, o paliativo não me aliviara a dor? Desta vez, eis as ramificações da natureza.
O estômago estava com uma massa gordurosa enorme, daquelas que só pululam em aniversários ou em restaurante com torresmo e feijoada completa. No caso, a metade de um bolo de chocolate com cobertura e, para ter a Surfistinha inteira, a outra metade de uma baguete recheada de queijo e presunto. Maravilha!
Então, como me livrar do Minotauro se ele ia comigo para a sala e vinha junto para o quarto? Virou maratona? Indo e vindo, sem me ajeitar em decúbito dorsal nem espalhado no sofá, me cobrindo e repelindo as cobertas. O frio da madrugada era o escárnio do planeta. E o bloco de gelo ambulante tinha minha cara, não era o retrato do fantasma na amurada de Elsinore.
Sem dormir, vagando de um lado para o outro, com febre e a vista esquerda a me dizer que iria desmaiar ─ primeiro baça e depois obscurecida. Acelerei em desespero. Que lunático!
A apoplexia era tamanha. Tomava água, corria ao vaso.
Até que, horas depois do início do meu número solitário, a alvorada trouxe a cantoria dos pássaros. A vizinhança ocupava os seus postos. As notícias, ufa!, ficaram congeladas na curva improvável do espaço/tempo fora dos meus sensores.
Morfeu quis dar as caras. O Minotauro foi saindo de fininho.
Olhei no espelho quem me condena.
Agora, no abraço em que nos saudamos, a cordialidade me informa que, pelo que sinto, o pico da leitura está a trinta e seis graus, com a pressão em 12/8. As nuvens foram despachadas para o Atlântico; no porto de Paranaguá estão parados navios iranianos; temos mais de 5 milhões de pessoas passando fome no Brasil; e isso de saber viver...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de julho de 2019.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Goles da alegria


Goles da alegria

Diante do goleiro, o atacante escolhe o canto e capricha no toque na bola, mas chuta para fora. De imediato, o que pensa o jogador? Posso arriscar. Seu coração na boca numa descarga de adrenalina. Ou seja, na próxima, não poderá desperdiçar. O jogo segue. As torcidas a favor e contra, ambas não perdoam o marrento, tiram onda quando pega na bola. O coração entende, as pernas pesam, pela espinha passa o futuro próximo. É tal o espírito que os gracejos alimentam-no intempestivo, porque ele não sabe fingir indiferença. É do tipo que apalpa o tornozelo e sente o pé na areia, imaginando a dancinha para o alambrado.
Teria como evitar o entendimento que tem de si? Vibram as notas do desespero quando o cavaco canta a solidão? Goza.
O goleiro desempenha o seu papel, fica sério ao simular a devolução da bola. Olha... Olha... É evidente que busca irritar o artilheiro que falhou, conta com a sua desestabilização, sabe que o vencerá pelos nervos. Não vai gozar, gozador?
Por excesso de preciosismo, por apostar em si contra o azar e por sua confiança inabalável na habilidade de dominar a bola e colocá-la onde bem quiser, eis que uma nova oportunidade é construída pela equipe...
A alegria de viver pode prevalecer, e outras jogadas irão ser construídas. Bolas na rede ou perdidas, isso faz parte do jogo.
É alegria de viver e não felicidade, pois nem sei dizer o que vem a ser a tal felicidade. Sempre que me vejo feliz, topo com uma pedra e tomo um capote daqueles, que estou habilitado a seguir perna de pau diante dos desafios da vida. Nem quando a preparação é intensa, com muita leitura, escrita concentrada e um tanto de reescrita, nada de finalizar com êxito merecedor de um reconhecimento duradouro. É como tomar uma garapa e achar que aquela sensação de prazer irá durar. Tomou, acabou e, nem dois passos depois, já era.
A alegria que me pega pelo riso, pelo olho no olho que não provoca conformismo nem constrangimento, é esta alegria que me leva adiante, me quer indo avante e me faz querer que os amigos avancem, não fiquem presos à beira do abismo. Como me fazem falta pessoas cuja alegria impulsiona, transforma e cria outra realidade ─ menos egoísta e mais de grupo ─ que congrega e emociona, sem os arrebatamentos dos efêmeros, sem as volatilidades torpes dos que só emulam ódio e rancor.
A alegria deseja o que o coração entende e quer, e também deseja o que a razão elabora e quer, simultaneamente, porque coração e razão amalgamados são uma coisa só.
O fim do suspense? O matador não fez gol algum.
Tomando meu chopinho, comendo umas coxinhas, dou uma de Casagrande, apenas para gozar o amigo que se imagina um Gabriel Jesus mas foi capaz de perder um caminhão de tentos na pelada das sextas. Se o grito fica fazendo cócegas entre o pulmão e a boca, é só lembrar: semana que vem tem mais.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de julho de 2019.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Subir para cima


Subir para cima

Então, eis que me vejo precisado de tomar posição diante, por exemplo, da calma dos mansos, da inocência dos puros e da presunção dos soberbos?
Há quem afirme que não houve coisa nenhuma mudança no clima, que tudo não passa de conversa para boi dormir. Aí, fico a me perguntar: boi dorme quando ouve papo furado?
Fui ler sobre o clima e o tempo. E descobri que o primeiro conceito leva em conta observações diárias e cálculos complexos para que se elabore um modelo em escala global, projetando temperatura e regime de chuvas para daqui a 20, 50, 100 anos. Já o tempo, veja como o céu se apresenta no momento ou saiba qual a previsão para amanhã ou depois.
Durante anos, o homem do tempo da rádio Jovem Pan AM, Narciso Vernizzi, era quem passava a sua previsão a partir do posto de observação que tinha em São Roque. Porém, nunca soube se ele, na hora de fixar os seus boletins meteorológicos, levava em consideração a altitude. Puxa! Não ouço a rádio faz tempo, parei antes mesmo da morte do jornalista, em 2005.
Além da emergência climática...
A inocência do mundo é a limpeza do puro? Isto é subir para cima, agora que sei o que significa mundo. Sim, tratei de ir ao dicionário para aprender que imundo é antônimo de mundo.
Sonho, logo penso que me lembro. O quanto de lembrança? O tanto que me permite o meu inconsciente. Mas não é daí que posso contar, é daqui, da realidade, do universo, do planeta.
O planeta...
E a ONU informa que, em 2018, mais de 821 milhões de pessoas passaram fome na Terra. Com tuítes, Trump atacou, com racismo e xenofobia, quatro deputadas estadunidenses que lutam pelo fim do Serviço de Imigração e Alfândega. E o Bolsonaro quer detonar o Parque Nacional Marinho, que fica em Fernando de Noronha, pondo fim aos recursos cobrados de turistas para a preservação do meio ambiente ─ com a coleta de lixo, a coleta e o tratamento do esgoto, a oferta de água potável.
O que isto me diz?
Turistas viajam e gastam. Imigrantes fogem de guerras e da fome. Pessoas vivem na Terra. Que haja uma redistribuição de renda pelo planeta todo, uma vez que a sociedade humana é global, planetária.
Pois então. A Inglaterra terá a efígie de Alan Turing na nota de 50 libras. O pai da Ciência da Computação e da Inteligência Artificial foi quem decifrou o Enigma, o código utilizado pelos nazistas em sua comunicação durante a 2ª Guerra.
Faço referência a este cientista, pois alguém com tal calibre intelectual possa me explicar a seguinte estatística:
─ 47% não entendem por que não sabem explicar a opinião que têm;
─ 44 % entendem por que não explicam a opinião que têm sobre o que não sabem.
Como palhaçada não faz o palhaço, nem em Washington, é preciso decifrar o que pensam as brasileiras e os brasileiros. Daí, talvez, seja possível localizar o Brasil no presente da América e do planeta, para que haja o futuro da Terra.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de julho de 2019.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

A noite escura


A noite escura

Já tinha anoitecido. Bem antes, à tarde, puxei as cortinas da sala devido à luz do sol, que me incomoda.
Gosto do breu, nele o mundo ganha outros contornos, acho que fica informe. Assim, liberto das amarras da perspectiva, das leis da física e da geometria lógica, posso soltar as velas e navegar por aí, sem referências.
Mas, noto de passagem, isso não significa que detenho as forças da natureza. O vento, por exemplo, para de soprar e o barco perde velocidade, fazer o quê, uma vez sem motor...
Então, como não fiz curso de navegação, deixei de orientar as velas para mais bem aproveitar a força do vento, deixei-as já que estavam bojudas, acelerando a nau que me transportava mar adentro.
Resultado?
Sem conhecimento das regras naturais, mesmo ali no sono, o aviso dizia que o mundo não estava contra mim, eu é que marquei bobeira e me deixei levar pela mágica do momento. O pano das velas a mil, no embalo, que ilusão...
O pior é que o vento estava diminuindo, dando sinais de que iria cessar, mas, distraído, fiquei viajando no doce abismo de uma mulher, com suas seduções, carícias, e encantamentos.
Não me ajustei às necessidades do instante porque não fiz a leitura do que me ocorria, e com o barco parado, preso a uma postura única e prolongada, uma dor de cabeça soou o alarme.
Acordei sem barco e sem musa.
Mas era tarde, muito tarde.
Sem dinheiro para ter sequer um rádio a bordo, por quê? A grana torrei com caixas de cerveja, umas latas de sardinha e o macarrão para a travessia noturna.
No mesmo lugar, no sofá da sala, fui despertado.
Conferi minha coluna, era aí que o bicho pegava para valer e me resgatou do pesadelo. Havia mesmo me embriagado com a minha saliva, até parece um vício. Apego-me fácil aos vícios.
Por isso, já fui me acomodando outra vez no sofá, com as pernas esticadas, com uma colcha para me aquecer e com as costas ajustadas às almofadas.
Insensatez? Talvez.
Mas quem sabe, nesta nova viagem, não haja barco nem mulheres. A cerveja? Não quero que me falte, gosto de molhar o bico para cantar à vontade, à solta.
Que tipo de pássaro canta por mim quando anoiteço?
Não colho raminhos da terra firme porque nem me arrisco a ir longe, é que o conforto do ninho me reconforta.
A minha situação, afinal?
A escuridão era a mesma, ainda. Lembrei que me bastariam dois passos de onde estava para acender a lâmpada. Preferi ficar no escuro, deixando que o sono me embalasse ladeira abaixo, boiando no aquário dos sonhos.
À flor da miséria desta condição, sonhando outra crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de julho de 2019.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Num instante


Num instante

A crônica era outra, mas virou esta, num instante.
Foi num instante, e nem percebi. Mas, é tarde demais. Para arrependimento, então, nada disso. Para ter-me dado conta de que tinha me bandeado para esta história, menos ainda. Entre o instante que foi e o instante da constatação do perdido, não entra nenhuma culpa. Inútil querer dizer à consciência que em mim o arrependido alega-se inocente. Se o instante foi, já foi. Percebo que estou condenado a sentir o que sinto, ou julgo andar me sentindo assim, meio a me embromar. Embora possa atribuir à falta momentânea de juízo a tese que sustento, que o passo se acerta com as pernas, fisicamente, não por metáfora. Sem dar motivo a angústias, atribulações, confusão mental.
O instante não consome a realidade brasileira. Há homens que matam mulheres por elas serem mulheres. Há milhões de pessoas desempregadas. O Neymar a caminho do Camp Nou.
O instante não entra pelo cano nem vai pelo ralo. A pressa é minha, a bobeira também. Perco, deixo ir ou nem noto, sei lá. Tenho a percepção da minha perplexidade. Me pacificaria se a atribuição tirasse o concreto do tempo ou revelasse abstrata a minha sensação do esvaído?
Decisiva é a realidade. O instante não vira a página. E eu?
Depois do feriado do Nove de Julho, vou pagar contas. Fico na fila, o instante anda comigo. O acaso me põe atento ao meu entorno, e noto o calendário com o mês de junho virado para o público. Os dias úteis marcados pela funcionária com coração.
Sensacional? Não a marca, a atitude. Sua marca no pouco que pode tomar para si, já que o uniforme é da empresa para a qual vende seu tempo, já que o sorriso dá expediente pelas horas em que é mal paga. O que me importa dizer, contudo, é que a cabine tem a sua cara, até onde lhe é permitido.
Portanto, viva o instante em que pus o olho naquele objeto. O dinheiro segue o fluxo, pois paguei minhas contas. O sorriso com logo me deseja um bom dia. Nenhum de nós terá um dia bom. Mas não vou ficar ranzinza, resmungando ao vento. Que seja. Por um instante menos cínico, mesmo breve como a vida, que haja um bom dia. Sem esperança, também digo bom dia.
Mas o instante... Que pode um instante?
Um instante: Estou indo. Tire a mão da campainha, saco.
Um instante: Nem vi de onde veio a bicicleta que me pegou.
Um instante: Fale de novo porque perdi o fio da meada.
Assim, até parece que o mundo não tira o olho.
Num instante, entro em parafuso, desabo na entrelinha que me suga para dentro do texto. Por que tinha a consciência de tomar posse de mim deste jeito? Que falta de humor.
Ô azar! Nem dá para jogar a culpa na fragilidade humana. É só se distrair um instante e a gente quebra a perna porque não viu a merda no passeio. Ô vida! Ainda bem que o gesso virgem aceita corações e demais mensagens realmente positivas.
Dona crônica, por favor, dá para respirar um instante?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de julho de 2019.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Gentilezas


Gentilezas

Numa boa, entro no carro de uma amiga, iremos visitar uma convalescente, acamada por uma gripe feroz. Vamos porque ela melhorou. O suficiente para não sermos inconvenientes.
Chegamos num pé, também o papo foi agradável. Nada de Vaza-Jato, nada de Lava-Jato, muito de lava-prato. Ou seja, o pé no chão permite voarmos o caminho sem prestidigitação.
Entramos no quarto. A doente não precisa simular o sorriso que, a nossos olhos, a faz simpática e amicíssima das gentes em geral. De fato, ela é, ao natural, uma pessoa admirada por sua empatia e sua simplicidade, que a singularizam.
À cabeceira da enferma recuperada, já passadas a febre e as dores do corpo, um desenho. Do seu neto, avisa-nos a avó.
“Que linda fadinha!”
Aciono o interruptor, mas a lâmpada logo queima.
É uma borboleta.
“Obra de veterano, hein.”
Uso o farolete, as pilhas pifam de pronto.
Nem tem um mês que o garoto está aprendendo desenho.
“Parece fotografia de tão perfeita.”
O fósforo acende a vela, só que o vento apaga o pavio.
O próprio autor da borboleta desenhada: Não é o grafite HB Nº 2 que orienta os olhos para a leitura do que está no papel. São precisamente os espaços, os respiros, o branco da folha que dão suporte à mancha preta que abro com os traços.
Quero a gentileza, sem subserviência é claro. Com pigarro.
“Você copiou de foto ou modelo vivo?”
Quero respirar sem uso de aparelho e sem inalação. Acho.
Nada disso, pois o ar fica carregado. Sinto que entro mais e mais nas trevas do que não sei dizer o que seja. Não entendo.
Resta a tocha providencial, mas pouco dura a combustão.
Tomo mais uma lição do rapaz: O barato está em desenhar sem ter uma ideia orientando a mão. Sem buscar o registro da realidade a partir da fantasia.
“Entendi... Você domina o instinto em nome da arte, né?”
No escuro, conto com a realidade que me ilumina.
Ele diz que tem ainda de se controlar, porque num desenho à mão livre sempre tem o risco de deixar tosca a arte final pelo traço muito pesado.
De minha parte, digo que tenho muito que aprender. Grato por compartilhar o que aprendeu em pouco tempo, menino.
A amiga sorri, eu retribuo. Nada como a simpatia.
A visita já deu. Não queremos incomodar. Então, vamos?
Abraços sinceros. Beijos amáveis. Até a próxima, querida.
Que quarto abafado, mortiço. Espero não pegar aquilo.
Sem outros comentários, tento me ajeitar. Entro no carro. E dou tchau, sorrindo. Sou todo sorrisos.
Putz!
Mas que aperto aqui atrás. E isso? É um tal de vai e não vai. Como tem sinal na Kennedy. E a Vaza-Jato, hein?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2019.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Papa figo


Papa figo

Estava numa lotérica da Costa e Silva quando fui abordado por uma pessoa simpática, dessas que sabe muito bem como puxar conversa sem importunar o desconhecido em pé na fila. Embora o sistema tenha caído havia já uns quarenta minutos, a paciência seguia intacta. Assim é que, pouco dogmático para ter moucos os ouvidos nessas circunstâncias, e tão logo a TV ligada trouxe o presidente falando sobre trabalho infantil, ouvi a história que transcrevo conforme me foi contada pelo cego.
“João Gilberto era a raspa do tacho do coronel. Foi então, lá pelas tantas, que o Queiroz, o mandachuva, deu ordem para o menino ir olhar se o trem vinha pelo sul da propriedade. Daí o rapagão montou na sua motoca, num instante galgou a colina e passou pelo rádio que o bicho punha mais do que a cara para além da curva.
O coronel nem entabulou as contas. Em dez minutos o trem ia parar no portão à beira dos trilhos. E ali, sem plataforma de estação e sem a rampa que era para o gado, a multidão teria de pular dos vagões. Para não ser atirada, ela pulava de vez.
Pulavam e iam para os galpões que os jagunços apontavam com a espingarda. Homens, mulheres e crianças separados. Já que a criançada era em maior número, a Eldorado dos Carajás tinha dois galpões só para ela. Para machos e fêmeas, cada qual bastava um celeiro.
Celeiro é modo de dizer, porque nem capim tinha lá dentro. Eram quatro paredes de tábua e o teto para cortar a ilusão das estrelas. E nem bica de água. Dormiam no chão, se pregavam no sono antes das quatro horas da alvorada.
Mas o importante é o João Gilberto. E nessa altura da vida, ele tinha dez anos. E não precisava trazer na cabeça o balaio de açaí, como um dia fez o pai. Nos idos da meninice, o velho tivera de descarregá-los a cada meia hora. Vinha da mata dos fundos onde o trem para e ia aonde ficam amontoados aqueles mortos de fome.
O progresso chegou à custa de muito sacrifício, de uma luta virulenta contra os carajás que viviam em pé de guerra. Já que eles eram insuflados por umas freiras que nem falavam direito a língua da gente. Era como se fosse da parte de Deus querer aquela guerra. E como tinha fígado para os cães do coronel.
Mas a vitória da civilização permitiu armazéns, capelinha e escola. Veja quanto espaço andava desperdiçado com o mato: a soja cresce rápido, antes das chuvaradas; com as injeções o gado fica no ponto em dois tempos; o ipê, o jatobá, a sucupira e outras madeiras viram euros para a garantia da vida plena.
E pensar que tudo começou com o Queiroz, aluno atencioso da escola da vida, logo o rapazola que nem tinha dez anos e já vivia correndo de lá para cá com um trabuco na cinta e o olho na esperança das melhorias que dão o lustro do renome.
Pois é, meu amigo, só dá valor ao trabalho quem começa na idade certa. Ou o safado acaba se encostando no Governo.”
A meio quarteirão dali, ao pé de um poste, vomitei.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2019.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Caro Doutor Máquina


Caro Doutor Máquina,

Chapinhar os caminhos com os pés rumorejantes afetará a coluna se o fizermos de cócoras. Relida, a poeta ainda me diz: o que ficou, ficou. Os pés no chão podem murmurar as águas, as passadas pela peneira da memória. Entenda, o amanhã que pende da teia do porvir aquece o nariz de quem diz a verdade, tanto quanto as orelhas de quem a subverte. Se veio, veio de onde proveio. Fez subir o calor do esperma no testículo? Fez subir o sangue no ovário? Até onde me é possível a separação, há construção histórica. Com o fio da cultura, o tapete. Na fonte da saúde, o pleno do abraço entre irmãos, amigos, humanos. Os irmãos que podem ser irmãs, amigas, humanas. Também o são, ainda que o sejam apenas homens e apenas mulheres. A língua falha ao dizer o que pode ser dito quando não o diz. Mas quem espera da palavra a alegria da promessa, erra. A palavra que nomeia é a que invisibiliza. A substância com que me faço. Me fabrico com tempo e lugar. O resíduo do assíduo não faz o indivíduo. Tento me ligar, e mesmo se não posso. Ponte. Corro minhas águas. Rios do efêmero, corredeiras do inesperado, em queda. Pedra sobre pétalas. Aroma apagado na pegada. Pelas trilhas que me ajuntam, e me bifurcam. Falanges de falantes. Falha a fala quando calha de não me calar. O calo da calma. A lama do que falo. A flama da chama que me chama pelo nome. Palavra pega palavra. Mão pega na mão. Bruxa que não broxa. Broto sem alarido e estampido. Mas estampado. Bruto da brita. Espero, separo. Íntimo. Intimidado. Perdido. Achado. Rachado. Partido. É o vaso. Selo. Silo. Sal de cebolas. Céu de sementes. Mel de cidra. Mal do molar. Mol de molhos. Mil folhas. Coruja, caramujo. Prima pelo prisma. Lesma. Resma. Cisma. Sismo. O abalo badala. A sina do sino da madrugada. Crisma da crise. Célula de luz. Cédula na rua. Reino do feliz. O amaro. Runa da peste. Ruína do pedestre. Rumos. Rumores. Voa, táctil. Voeja, frágil. Rumoreja, dúctil. A sorte, o norte. Tem o mote da morte, a forte. Como um qualquer, tente o que sente. Desinvente-se. Dê porto ao torto. Poste. Aposte. Comporte-se. Boçal. Postal. Portal de si. Pulsa a repulsa. Impulsiona pressões. Impressiona ladeira acima. Ladeira abaixo? Sem as facilidades da felicidade que não se busca. Brusca, a freada. Tosca, a fritada. Pense, serpente. Fabrique-se, serpeje. Vida, chave sem porta. A vida que fede, fodida. A que se mede, desmedida. Cálculo. Quando há, e porque há, que haja. A poesia que falta. A poesia do que falha. A hora da mágoa. O ouro da água. Baba, de bobo. Terra. Terror. O aterrado. No solo, sob o sol. A pé. Vai rindo. Lindo, vem vindo. Vazão. Desvão. Desrazão. Consoada. Consonante. Constipada. Local, no rim. Focal, chinfrim. Bocal, enfim. Assim, o assado. Eco do lesado. O pesado do oco. Hepático. Linfático. Enfático. O empático. Um simpático.
Outrossim, outro sim. Sim,

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de julho de 2019.

domingo, 30 de junho de 2019

Contos do fado


Contos do fado

Com a crise instalada em tudo quanto é parte, resta tomar umas cachacinhas. Tomá-las, pois bebericá-las é para quando boca e copo farejam-se gaguejantes. Então, urgente é encher a lata para ficar escorado no balcão, o braço feito âncora. Daí, sem dar ouvido a lorotas, o negócio é sacar no bar o que a rua anda tramando. Sobre o destino da nação. Logo, do Flamengo. Uma vez que o rubro-negro pulsa no coração, do Oiapoque ao Chuí. Vide o impávido do urubu ao lado do caixa. Olhai...
O botequim fica em famigerada quadra. Afamada pelo taco, que a sinuca de bico vara os dias. Quando há dias para serem varados, de galo a galo. O salário inteiro. Noves fora e pé na tábua, que a espelunca foi eleita o reino da alegria. E dele fica exilada uma gente que finge que malandras, rufiões e parasitas não têm direito à prosa furada. Vetados guerreiros e bruxas, geralmente caudatários do prolixo da lábia. Sem prova alguma.
Até o poeta recolhe sua verve de sete cordas na algibeira da embriaguez. Capaz dos malabares com os copos, jamais com as garrafas, mesmo as esvaziadas. Pena nem arriscar alguns poemas de honradez entre vencidos e derrotados.
O bebum que sabe de cor as sete cores do arco-íris quer o rapé inflamável que some fácil. Serve para revelar as sombras bailadoras que não cantam nem aplaudem as vítimas da falta de amor, da escassa ambição. É plausível que o enxerido dê a face para escolher a próxima.
O passado vomita as contas que vencem... amanhã.
Com a teima do pudor, nego o amor ao próximo. E limpando as unhas, faço-me sorumbático. As antenas alinhadas. Então, a bandeira está a meio pau. Cujo nome ninguém diz. Cabe não o pronunciar, afinal certos ouvidos andam ciscando.
O meu sorriso vem da fumaça do puro. Tenho traçada nos lábios a obra das volutas, ensaiadas de véspera. Assim, quero manter o fosso que separo da impostura. Sinto escancarado o espaço para uma milonga. Daí o aço chora vermelho? Que é a cor mais sentida da afronta corrigida. Está no olhar vidrado.
Alheio ao destino, amanheço a valsar... Dócil.
O corpo seco de emoções. Figura de Picasso com ângulos a insistir para que sejam mantidos os dois palmos de distância. Pelo cálculo, espaço bastante para sua canção. A adaga canta sua vontade, a sua fome de morte. A milonga inclui o bilhete do merecido, então o esqueleto acaba colhido na sentença.
A alvorada afaga a madrugada noutra dose?
Nas contas do fado, o lápis assenta a aposta do rancor. Eita! O bicho é na cabeça, o duque, o milhar. Encabeça. Houvera de resultar nula a soma das criptas, mas em nada diminui o porte do mel. Falam que está beirando a oitocentos mil o corte do frágil. Com lendas e parlendas, zombam de ogros e lobisomens. Que nem aberrações.
Tal a arenga do inacabado?
Como a fábula grassa pela realidade incógnita, a linha do luar esconde o labirinto onde vampiros peitam o sol.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2019.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Artimanhas


Artimanhas

Na topografia do meu corpo, aprendi a localizar o Calcanhar de Aquiles. Porque em mim o tal latejou, endureceu, e doeu. Nem precisei calcular o tamanho nem apurar a profundidade da mordedura. Obrigado à convalescença, com anti-inflamatórios, senti os caninos do desassossego, a minha própria peçonha.
Daí ter-me afastado da caminhada na beira-mar.
Pus de molho o gostoso de ir conversando com o mar, indo pela areia. Poxa, mal raiava a manhã. De quando em quando, ir deixando os pés serem lambidos pelas ondas. Com algumas onomatopeias tirando da invisibilidade o meu arrepio. Na nuca, pela medula, em descarrego das podridões.
Dia sim, outro também. Uns quatro anos, indo e vindo; uns cinco quilômetros, do Forte à Aviação. Sol e chuva; calorão e frio; névoa, neblina, e fumaça; alegria, tristeza, e melancolia.
Vamos lá! Fui. E fui até quando foi possível, e suportável.
Com a disposição de me recuperar das crises de ansiedade e da apatia em que me meti, deprimido. Medicado e orientado à disciplina de uma atividade física, aeróbica e mental.
Na dosagem psiquiátrica, prescrita.
Para o corpo deixar de padecer aquele curto-circuito. Com a irregularidade manifestada, como sintoma, de estafa, estresse, esgotamento. Colapso generalizado. O pane na máquina. Pois. E não se mente à mente, sente-se. Dado a músculos, nervos...
A folhinha foi virada. A prosa atlântica, retomada.
De volta. Circulando. Circulante. De novo.
Que me permite a amplidão do horizonte? Eis um esquisito, na figura: as mãos na cintura; o chapéu de palha de aba larga, um sombrero; os gritos dirigidos a... Ninguém ─ pelo que vejo; como posso ver. Nítido, pelo claro do subjetivo.
Na caminhada, percebo amiúde. Grita ao mar. Contra o mar. Pisoteia as ondas que se espraiam. A cada patada, solta seus impropérios. Desamarra do peito um ódio quando agride. Pede explicações, não poluiu a barreira de coral. Chama na chincha, custa manter as braçadas de humor, então gargalha de raiva. Endereça a revolta, questiona aquela ilusória calmaria. É certo, não se aceita naufragado, afogado, vencido. Faz-se entender. A água a machucar, agredir, desfazer a escultura. A sua!
Olho. Apenas dou uma olhada. De amador, amante. É uma beleza. A areia manuseada tem encantos, até harmonia.
Quem me dera tomar pulso à pulsação.
Como explicar ao mar que a obra precisa ficar de pé? O oceano conhece a linguagem da arte? A maré compreende a expressão estética do artista?
Mostro-me em todo meu apreço, sorrindo minhas garatujas.
Não domino regras. Não formulo perspectivas. À avaliação, eu gosto. Ponto. E zelo por meu direito ao raso da apreciação: o gosto. Nem palpito alguns lugares batidos. Cá, o artista; lá, o deus d’água. Incomunicáveis?
Não sendo nenhum Netuno para me fazer de surdo, trato de andar. Tenho um tendão para tensionar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de junho de 2019.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Por minuto


Por minuto

O fantasma preso aos ossos acorda outra vez. A carne nem ignora o friozinho da manhã. Sentada diante do computador, a esperança apega-se a dois dedos, para catar milho. Tremendo, a dúvida derrama café na camiseta. A assombração tem seus associados. Uma vizinha, ou uma lembrança, vem sorridente e vence as paredes, certa de que o abaixo-assinado servirá para evitar que tirem a capa do mito que cospe no próprio pé. A tela pisca. Ligado ao seu tempo, o fantasma endossa.
Passa um minuto.
O celular, avião, envia sinais magnéticos, e telegramáticos. Os abismos tecnológicos prosperam. A TV julga, sem significar o que entende por isso. A cabeça entulhada. Há tanta areia no ar. O dia a mil. É preciso unir as partes, mantê-las carregadas.
De alguma forma, o minuto pode ser útil. Muito útil.
É uma pena que o poeta tenha ido embora, pois o catador poderia tornar a canjica menos doce. Poderia a carne seca, a manhã mais amena. Falta sal? Ninguém chora por ele, nem se pergunta pela cotação do quilo da areia. Poeta, e útil.
O minuto que passa fica enroscado no próximo.
É necessário equilíbrio quando a noite fica presa na palavra que pisca na tela. Não há portal para o próximo abismo nem há queda sem perdão. Destra e sinistra trabalham em conjunto.
O minuto abre o peito do instante. Inútil, o suor escorre.
Quando o fantasma sorri, escancara-se a sua solidão. Nada é dito sobre o sofrimento. A angústia vem da maré. A maré não surfa sacolas plásticas. Existe alguma razão para que sejam aproximadas as ondas e a lua? O estado mental. A vertigem é de lambujem. O lunático pesa a água. Afoga-se no travesseiro.
O futuro? Outro minuto. Pérola no céu.
O fantasma escreve um poema. O poeta faria melhor.
Assim, a menina não larga a mão da mãe. A mãe não tira o olho da calçada. A calçada sofre com a deterioração do uso. O abuso da falta de conservação implora pelo IPTU. Então, existe a cidade. Há cidadãos interpondo a lei entre o sono da criança indo estudar e os afazeres da mulher sem registro.
O minuto sabe usar do medo. Cava fundo. Beneficia-se.
O bicho geográfico mora na pegada. Com a coceira e o pus da infecção, a vida segue bela. E cômoda, de tão decantada. O silêncio não telefona, faz questão. O capoeira quer falar com alguém menos bêbado. Há quem recuse a chamada. O medo põe anúncios. As letras leem o medo com facilidade. Há avisos de perigo onde mais se fundamenta a dose. Solto no terreno, o minuto pula na cerca e mostra os dentes. Dizem: a cerca firme; no lugar. Mas ali faltam braços. Sobram os corações; pipocam as mentes. Sem que se perceba, o meio-dia late na aorta.
Para que bilhetes suicidas se o instante é analfabeto?
Sem direito ao esquecimento, o minuto pode o fogo. Que as veias suportem a cachola a 40º C. Palavra na palavra, a fricção do momento. Feita de sucatas, e sem minuta. Há de estralar a crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2019.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Um dia qualquer


Um dia qualquer

Sábado é para sair por aí para o que vier. Sabe aquilo da casa para o trabalho? Não é dia disso. Vale mesmo é saborear a diversão dos descobrimentos. Vendo-a sem os vícios do dia a dia, a cidade revela o que nunca escondeu a quem a vê no que tem de urbano. Mesmo sendo a mesma, é outra.
Vou-me pela avenida. Cheia de pessoas que anunciam que vendem o que não compram. Na esquina, com a minha cara de quem diz para onde?, nem marco passo nessa toada. Achega-se de mim uma mulher que me desconcerta, a manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda engoliu o mamparra...
Sem saber o que responder, sorrio. Mamparra?
Sigo caminho. Um automóvel freia brusco. O motorista mete a mão na buzina. Volto para o meio da rua, certo do erro de achar que a velocidade da luz me protege contra o enigma. Quiçá até o Murilo Mendes me chamasse nefelibata.
Já estou na Praça Luís de Camões. Nunca antes na minha história de navegador citadino tinha vindo cá.
Cadê o Poeta? Não gosto disso. Não o encontro. Ajeito os óculos para o olhar de águia, lince, coruja. Ufa! Que safado... Atrás da horta? Da folhagem do jardim. E de pés serrados. E sem a cabeça. O que fizeram com vossa mercê...
De óculos escuros, bermudão e sandália de couro, na maior intimidade, pegando-me pelo braço:
Julga-me a gente toda por perdido, vendo-me, tão entregue a meu cuidado, andar sempre dos homens apartado, e de humanos comércios esquecido.
O idoso ficou olhando para mim, carente da interação. E eu? Me faço de bobo, dando bobeira mesmo. Não gaguejo, porque sinto uma bolha, de ar e saliva, que me vem à garganta. Só me restar sorrir e acenar-lhe.
Quem será?
No momento, quero mais é sentar. Para ganhar um ar.
No calçadão, sento. Uma senhora mirrada também faz o mesmo, e sem pressa. Seu cachorrinho olha para os demais que saracoteiam para todo lado. Ela não o põe no chão. Sem mais, solta que há o estar da pedra, há o estar do corpo, há peso e forma: os frutos apodrecem. Me deseja um bom-dia e vai-se embora.
Para onde?
Mudo de lado no banco. O Atlântico está convidativo. Mas a areia... A criançada correndo... Os vendedores... Melhor ficar.
Chupando sorvete, as mãos lambuzadas, eis que me chega um homem intimidante. O bigode intacto parece afiançar e enfatizar que dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Na nuca, sou picado por um bicho que não sei de onde veio. Foi embora. Dói. Coço. O inseto que me observa não sabe o que vê. Planeja coisas para mim que não são do meu conhecimento.
De quem são tais palavras? Sem o celular, em casa vou procurar. Se não me esquecer, vou procurar. Palavras picam?
Que sábado é esse?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2019.