Adeus
às ilusões
Corro. O mundo melhor não depende de mim.
A vida nova foge do que faço. A realidade mais justa morre com o idealista indo
ao banheiro de madrugada. O copo d’água a mais não vira sopa de batata. De
cenho fechado, o real passa que nem olha para trás. O romântico conta as moedas.
Vai, pensador, vai a pé ao Sarau no Sebo Café. Minha autoestima anda tão
rasteira que até as baratas me fazem cafuné. O meu amor próprio está em cima do
carrinho de pastel, e a Utopia está distante a uma olhada. Não faço, mas posso
colocar em ordem alfabética as firmas de cobrança na minha caixa de e-mail. Nem
a dúvida corre apagar a luz queimada do quarto. Não é uma pulga que me faz
cócegas na barriga. Ouço quieto quem passa sermão, pois sabe com quem está
lidando. De agora em diante, meu orgulho vai mancar, por ter pisado a latinha
que fiz questão de não ver. Vítima da rede intermitente ou da recarga por fazer,
não carrego página alguma. E celular que não dorme vive para comer pelas
beiradas o que só é beirada. A razão me pede um antiácido, uma vez que o sangue
ferve desde o julho de 2013. O coração comovido pede mais um turno ao pleito de
2018. Na boca, a minha língua serve apenas como isca para fantasmas surdos. Latindo
no peito, as ansiedades do perplexo pululam. As contradições revolucionárias denunciam
meus garranchos sem garrafa. O perfume noctívago do olíbano dos desejos mais
indômitos está evaporado. Miragens de shopping abarrotado assombram o cartão já
abatido pelo crédito. Nem me imagino engolindo a porção de fritas que recende a
óleo rançoso. Finjo, rancoroso, não invejar a tulipa balançando por mais um
chope. Os becos sem saída da calada da noite dão apagão na Itaipu das minhas
sinapses tão lerdinhas. O sofá que me recolhe é o mesmo que entorta o meu sono.
Ó poodle a unhar o cercado que o barra na sacada do apartamento. Ó gatinho taciturno
que mantém a curiosidade além da porta. Ó frenética serra elétrica cortando o
ferro para fundear a nave que trará Valhalla ao outro lado da rua. A rua, esta
rua leva o nome de alguém de carne e osso, tributo a quem de complexada mente
complexa, preito à pessoa que devia ter as finanças em dia. Cadê vacina a quem
perdulário? Tenho dois dedos de café esfriando, pois não paro para pensar nem
penso em parar para pensar. Stop! O meu lápis humorista traz o Drummond, o
Carlos de Itabira, sabe? Sei, fui informado. Sei que o Louco não é o Rolo. Sei
do mosquitinho miserável que inocula os labirintos da febre com uma picadinha.
Sei, é preciso mais médicos, mais professores, e arroz com frango, sem brócolis.
Sei, o Quincas Borba vive latindo da estante. Sei, e dou todas as letras: os
aviões que pousam em Congonhas decolam; e em Congonhas a pedra sabão traduz o
engenho do Aleijadinho. E pelo que sei, até onde sei ou acho que sei ─ faço questão
de saber.
Por que tudo isso? Agosto está vindo
aí.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de julho de 2019.