quinta-feira, 27 de junho de 2019

Artimanhas


Artimanhas

Na topografia do meu corpo, aprendi a localizar o Calcanhar de Aquiles. Porque em mim o tal latejou, endureceu, e doeu. Nem precisei calcular o tamanho nem apurar a profundidade da mordedura. Obrigado à convalescença, com anti-inflamatórios, senti os caninos do desassossego, a minha própria peçonha.
Daí ter-me afastado da caminhada na beira-mar.
Pus de molho o gostoso de ir conversando com o mar, indo pela areia. Poxa, mal raiava a manhã. De quando em quando, ir deixando os pés serem lambidos pelas ondas. Com algumas onomatopeias tirando da invisibilidade o meu arrepio. Na nuca, pela medula, em descarrego das podridões.
Dia sim, outro também. Uns quatro anos, indo e vindo; uns cinco quilômetros, do Forte à Aviação. Sol e chuva; calorão e frio; névoa, neblina, e fumaça; alegria, tristeza, e melancolia.
Vamos lá! Fui. E fui até quando foi possível, e suportável.
Com a disposição de me recuperar das crises de ansiedade e da apatia em que me meti, deprimido. Medicado e orientado à disciplina de uma atividade física, aeróbica e mental.
Na dosagem psiquiátrica, prescrita.
Para o corpo deixar de padecer aquele curto-circuito. Com a irregularidade manifestada, como sintoma, de estafa, estresse, esgotamento. Colapso generalizado. O pane na máquina. Pois. E não se mente à mente, sente-se. Dado a músculos, nervos...
A folhinha foi virada. A prosa atlântica, retomada.
De volta. Circulando. Circulante. De novo.
Que me permite a amplidão do horizonte? Eis um esquisito, na figura: as mãos na cintura; o chapéu de palha de aba larga, um sombrero; os gritos dirigidos a... Ninguém ─ pelo que vejo; como posso ver. Nítido, pelo claro do subjetivo.
Na caminhada, percebo amiúde. Grita ao mar. Contra o mar. Pisoteia as ondas que se espraiam. A cada patada, solta seus impropérios. Desamarra do peito um ódio quando agride. Pede explicações, não poluiu a barreira de coral. Chama na chincha, custa manter as braçadas de humor, então gargalha de raiva. Endereça a revolta, questiona aquela ilusória calmaria. É certo, não se aceita naufragado, afogado, vencido. Faz-se entender. A água a machucar, agredir, desfazer a escultura. A sua!
Olho. Apenas dou uma olhada. De amador, amante. É uma beleza. A areia manuseada tem encantos, até harmonia.
Quem me dera tomar pulso à pulsação.
Como explicar ao mar que a obra precisa ficar de pé? O oceano conhece a linguagem da arte? A maré compreende a expressão estética do artista?
Mostro-me em todo meu apreço, sorrindo minhas garatujas.
Não domino regras. Não formulo perspectivas. À avaliação, eu gosto. Ponto. E zelo por meu direito ao raso da apreciação: o gosto. Nem palpito alguns lugares batidos. Cá, o artista; lá, o deus d’água. Incomunicáveis?
Não sendo nenhum Netuno para me fazer de surdo, trato de andar. Tenho um tendão para tensionar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de junho de 2019.


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