Artimanhas
Na topografia do meu corpo, aprendi a
localizar o Calcanhar de Aquiles. Porque em mim o tal latejou, endureceu, e doeu.
Nem precisei calcular o tamanho nem apurar a profundidade da mordedura. Obrigado
à convalescença, com anti-inflamatórios, senti os caninos do desassossego, a
minha própria peçonha.
Daí ter-me afastado da caminhada na
beira-mar.
Pus de molho o gostoso de ir
conversando com o mar, indo pela areia. Poxa, mal raiava a manhã. De quando em
quando, ir deixando os pés serem lambidos pelas ondas. Com algumas onomatopeias
tirando da invisibilidade o meu arrepio. Na nuca, pela medula, em descarrego
das podridões.
Dia sim, outro também. Uns quatro
anos, indo e vindo; uns cinco quilômetros, do Forte à Aviação. Sol e chuva;
calorão e frio; névoa, neblina, e fumaça; alegria, tristeza, e melancolia.
Vamos lá! Fui. E fui até quando foi
possível, e suportável.
Com a disposição de me recuperar das
crises de ansiedade e da apatia em que me meti, deprimido. Medicado e orientado
à disciplina de uma atividade física, aeróbica e mental.
Na dosagem psiquiátrica, prescrita.
Para o corpo deixar de padecer aquele
curto-circuito. Com a irregularidade manifestada, como sintoma, de estafa,
estresse, esgotamento. Colapso generalizado. O pane na máquina. Pois. E não se
mente à mente, sente-se. Dado a músculos, nervos...
A folhinha foi virada. A prosa
atlântica, retomada.
De volta. Circulando. Circulante. De
novo.
Que me permite a amplidão do
horizonte? Eis um esquisito, na figura: as mãos na cintura; o chapéu de palha
de aba larga, um sombrero; os gritos
dirigidos a... Ninguém ─ pelo que vejo; como posso ver. Nítido, pelo claro do
subjetivo.
Na caminhada, percebo amiúde. Grita ao
mar. Contra o mar. Pisoteia as ondas que se espraiam. A cada patada, solta seus
impropérios. Desamarra do peito um ódio quando agride. Pede explicações, não
poluiu a barreira de coral. Chama na chincha, custa manter as braçadas de
humor, então gargalha de raiva. Endereça a revolta, questiona aquela ilusória
calmaria. É certo, não se aceita naufragado, afogado, vencido. Faz-se entender.
A água a machucar, agredir, desfazer a escultura. A sua!
Olho. Apenas dou uma olhada. De
amador, amante. É uma beleza. A areia manuseada tem encantos, até harmonia.
Quem me dera tomar pulso à pulsação.
Como explicar ao mar que a obra
precisa ficar de pé? O oceano conhece a linguagem da arte? A maré compreende a expressão
estética do artista?
Mostro-me em todo meu apreço, sorrindo
minhas garatujas.
Não domino regras. Não formulo perspectivas.
À avaliação, eu gosto. Ponto. E zelo por meu direito ao raso da apreciação: o
gosto. Nem palpito alguns lugares batidos. Cá, o artista; lá, o deus d’água. Incomunicáveis?
Não sendo nenhum Netuno para me fazer
de surdo, trato de andar. Tenho um tendão para tensionar.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 27 de junho de 2019.
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