segunda-feira, 8 de julho de 2019

Papa figo


Papa figo

Estava numa lotérica da Costa e Silva quando fui abordado por uma pessoa simpática, dessas que sabe muito bem como puxar conversa sem importunar o desconhecido em pé na fila. Embora o sistema tenha caído havia já uns quarenta minutos, a paciência seguia intacta. Assim é que, pouco dogmático para ter moucos os ouvidos nessas circunstâncias, e tão logo a TV ligada trouxe o presidente falando sobre trabalho infantil, ouvi a história que transcrevo conforme me foi contada pelo cego.
“João Gilberto era a raspa do tacho do coronel. Foi então, lá pelas tantas, que o Queiroz, o mandachuva, deu ordem para o menino ir olhar se o trem vinha pelo sul da propriedade. Daí o rapagão montou na sua motoca, num instante galgou a colina e passou pelo rádio que o bicho punha mais do que a cara para além da curva.
O coronel nem entabulou as contas. Em dez minutos o trem ia parar no portão à beira dos trilhos. E ali, sem plataforma de estação e sem a rampa que era para o gado, a multidão teria de pular dos vagões. Para não ser atirada, ela pulava de vez.
Pulavam e iam para os galpões que os jagunços apontavam com a espingarda. Homens, mulheres e crianças separados. Já que a criançada era em maior número, a Eldorado dos Carajás tinha dois galpões só para ela. Para machos e fêmeas, cada qual bastava um celeiro.
Celeiro é modo de dizer, porque nem capim tinha lá dentro. Eram quatro paredes de tábua e o teto para cortar a ilusão das estrelas. E nem bica de água. Dormiam no chão, se pregavam no sono antes das quatro horas da alvorada.
Mas o importante é o João Gilberto. E nessa altura da vida, ele tinha dez anos. E não precisava trazer na cabeça o balaio de açaí, como um dia fez o pai. Nos idos da meninice, o velho tivera de descarregá-los a cada meia hora. Vinha da mata dos fundos onde o trem para e ia aonde ficam amontoados aqueles mortos de fome.
O progresso chegou à custa de muito sacrifício, de uma luta virulenta contra os carajás que viviam em pé de guerra. Já que eles eram insuflados por umas freiras que nem falavam direito a língua da gente. Era como se fosse da parte de Deus querer aquela guerra. E como tinha fígado para os cães do coronel.
Mas a vitória da civilização permitiu armazéns, capelinha e escola. Veja quanto espaço andava desperdiçado com o mato: a soja cresce rápido, antes das chuvaradas; com as injeções o gado fica no ponto em dois tempos; o ipê, o jatobá, a sucupira e outras madeiras viram euros para a garantia da vida plena.
E pensar que tudo começou com o Queiroz, aluno atencioso da escola da vida, logo o rapazola que nem tinha dez anos e já vivia correndo de lá para cá com um trabuco na cinta e o olho na esperança das melhorias que dão o lustro do renome.
Pois é, meu amigo, só dá valor ao trabalho quem começa na idade certa. Ou o safado acaba se encostando no Governo.”
A meio quarteirão dali, ao pé de um poste, vomitei.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2019.

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