Papa figo
Estava numa lotérica da Costa e Silva
quando fui abordado por uma pessoa simpática, dessas que sabe muito bem como
puxar conversa sem importunar o desconhecido em pé na fila. Embora o sistema
tenha caído havia já uns quarenta minutos, a paciência seguia intacta. Assim é
que, pouco dogmático para ter moucos os ouvidos nessas circunstâncias, e tão
logo a TV ligada trouxe o presidente falando sobre trabalho infantil, ouvi a
história que transcrevo conforme me foi contada pelo cego.
“João Gilberto era a raspa do tacho do
coronel. Foi então, lá pelas tantas, que o Queiroz, o mandachuva, deu ordem
para o menino ir olhar se o trem vinha pelo sul da propriedade. Daí o rapagão
montou na sua motoca, num instante galgou a colina e passou pelo rádio que o
bicho punha mais do que a cara para além da curva.
O coronel nem entabulou as contas. Em
dez minutos o trem ia parar no portão à beira dos trilhos. E ali, sem
plataforma de estação e sem a rampa que era para o gado, a multidão teria de
pular dos vagões. Para não ser atirada, ela pulava de vez.
Pulavam e iam para os galpões que os
jagunços apontavam com a espingarda. Homens, mulheres e crianças separados. Já
que a criançada era em maior número, a Eldorado dos Carajás tinha dois galpões
só para ela. Para machos e fêmeas, cada qual bastava um celeiro.
Celeiro é modo de dizer, porque nem
capim tinha lá dentro. Eram quatro paredes de tábua e o teto para cortar a
ilusão das estrelas. E nem bica de água. Dormiam no chão, se pregavam no sono
antes das quatro horas da alvorada.
Mas o importante é o João Gilberto. E
nessa altura da vida, ele tinha dez anos. E não precisava trazer na cabeça o
balaio de açaí, como um dia fez o pai. Nos idos da meninice, o velho tivera de
descarregá-los a cada meia hora. Vinha da mata dos fundos onde o trem para e ia
aonde ficam amontoados aqueles mortos de fome.
O progresso chegou à custa de muito
sacrifício, de uma luta virulenta contra os carajás que viviam em pé de guerra. Já que eles eram insuflados por umas freiras que nem falavam direito a língua
da gente. Era como se fosse da parte de Deus querer aquela guerra. E como tinha
fígado para os cães do coronel.
Mas a vitória da civilização permitiu
armazéns, capelinha e escola. Veja quanto espaço andava desperdiçado com o
mato: a soja cresce rápido, antes das chuvaradas; com as injeções o gado fica
no ponto em dois tempos; o ipê, o jatobá, a sucupira e outras madeiras viram
euros para a garantia da vida plena.
E pensar que tudo começou com o
Queiroz, aluno atencioso da escola da vida, logo o rapazola que nem tinha dez
anos e já vivia correndo de lá para cá com um trabuco na cinta e o olho na
esperança das melhorias que dão o lustro do renome.
Pois é, meu amigo, só dá valor ao
trabalho quem começa na idade certa. Ou o safado acaba se encostando no Governo.”
A meio quarteirão dali, ao pé de um
poste, vomitei.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2019.
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