Por
minuto
O fantasma preso aos ossos acorda
outra vez. A carne nem ignora o friozinho da manhã. Sentada diante do
computador, a esperança apega-se a dois dedos, para catar milho. Tremendo, a dúvida
derrama café na camiseta. A assombração tem seus associados. Uma vizinha, ou
uma lembrança, vem sorridente e vence as paredes, certa de que o
abaixo-assinado servirá para evitar que tirem a capa do mito que cospe no
próprio pé. A tela pisca. Ligado ao seu tempo, o fantasma endossa.
Passa um minuto.
O celular, avião, envia sinais
magnéticos, e telegramáticos. Os abismos tecnológicos prosperam. A TV julga,
sem significar o que entende por isso. A cabeça entulhada. Há tanta areia no ar.
O dia a mil. É preciso unir as partes, mantê-las carregadas.
De alguma forma, o minuto pode ser
útil. Muito útil.
É uma pena que o poeta tenha ido
embora, pois o catador poderia tornar a canjica menos doce. Poderia a carne
seca, a manhã mais amena. Falta sal? Ninguém chora por ele, nem se pergunta
pela cotação do quilo da areia. Poeta, e útil.
O minuto que passa fica enroscado no
próximo.
É necessário equilíbrio quando a noite
fica presa na palavra que pisca na tela. Não há portal para o próximo abismo
nem há queda sem perdão. Destra e sinistra trabalham em conjunto.
O minuto abre o peito do instante. Inútil,
o suor escorre.
Quando o fantasma sorri, escancara-se
a sua solidão. Nada é dito sobre o sofrimento. A angústia vem da maré. A maré não
surfa sacolas plásticas. Existe alguma razão para que sejam aproximadas as ondas
e a lua? O estado mental. A vertigem é de lambujem. O lunático pesa a água. Afoga-se
no travesseiro.
O futuro? Outro minuto. Pérola no céu.
O fantasma escreve um poema. O poeta
faria melhor.
Assim, a menina não larga a mão da
mãe. A mãe não tira o olho da calçada. A calçada sofre com a deterioração do
uso. O abuso da falta de conservação implora pelo IPTU. Então, existe a cidade.
Há cidadãos interpondo a lei entre o sono da criança indo estudar e os afazeres
da mulher sem registro.
O minuto sabe usar do medo. Cava
fundo. Beneficia-se.
O bicho geográfico mora na pegada. Com
a coceira e o pus da infecção, a vida segue bela. E cômoda, de tão decantada. O
silêncio não telefona, faz questão. O capoeira quer falar com alguém menos
bêbado. Há quem recuse a chamada. O medo põe anúncios. As letras leem o medo com
facilidade. Há avisos de perigo onde mais se fundamenta a dose. Solto no
terreno, o minuto pula na cerca e mostra os dentes. Dizem: a cerca firme; no
lugar. Mas ali faltam braços. Sobram os corações; pipocam as mentes. Sem que se
perceba, o meio-dia late na aorta.
Para que bilhetes suicidas se o
instante é analfabeto?
Sem direito ao esquecimento, o minuto pode
o fogo. Que as veias suportem a cachola a 40º C. Palavra na palavra, a fricção
do momento. Feita de sucatas, e sem minuta. Há de estralar a crônica.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2019.
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