quinta-feira, 11 de julho de 2019

Num instante


Num instante

A crônica era outra, mas virou esta, num instante.
Foi num instante, e nem percebi. Mas, é tarde demais. Para arrependimento, então, nada disso. Para ter-me dado conta de que tinha me bandeado para esta história, menos ainda. Entre o instante que foi e o instante da constatação do perdido, não entra nenhuma culpa. Inútil querer dizer à consciência que em mim o arrependido alega-se inocente. Se o instante foi, já foi. Percebo que estou condenado a sentir o que sinto, ou julgo andar me sentindo assim, meio a me embromar. Embora possa atribuir à falta momentânea de juízo a tese que sustento, que o passo se acerta com as pernas, fisicamente, não por metáfora. Sem dar motivo a angústias, atribulações, confusão mental.
O instante não consome a realidade brasileira. Há homens que matam mulheres por elas serem mulheres. Há milhões de pessoas desempregadas. O Neymar a caminho do Camp Nou.
O instante não entra pelo cano nem vai pelo ralo. A pressa é minha, a bobeira também. Perco, deixo ir ou nem noto, sei lá. Tenho a percepção da minha perplexidade. Me pacificaria se a atribuição tirasse o concreto do tempo ou revelasse abstrata a minha sensação do esvaído?
Decisiva é a realidade. O instante não vira a página. E eu?
Depois do feriado do Nove de Julho, vou pagar contas. Fico na fila, o instante anda comigo. O acaso me põe atento ao meu entorno, e noto o calendário com o mês de junho virado para o público. Os dias úteis marcados pela funcionária com coração.
Sensacional? Não a marca, a atitude. Sua marca no pouco que pode tomar para si, já que o uniforme é da empresa para a qual vende seu tempo, já que o sorriso dá expediente pelas horas em que é mal paga. O que me importa dizer, contudo, é que a cabine tem a sua cara, até onde lhe é permitido.
Portanto, viva o instante em que pus o olho naquele objeto. O dinheiro segue o fluxo, pois paguei minhas contas. O sorriso com logo me deseja um bom dia. Nenhum de nós terá um dia bom. Mas não vou ficar ranzinza, resmungando ao vento. Que seja. Por um instante menos cínico, mesmo breve como a vida, que haja um bom dia. Sem esperança, também digo bom dia.
Mas o instante... Que pode um instante?
Um instante: Estou indo. Tire a mão da campainha, saco.
Um instante: Nem vi de onde veio a bicicleta que me pegou.
Um instante: Fale de novo porque perdi o fio da meada.
Assim, até parece que o mundo não tira o olho.
Num instante, entro em parafuso, desabo na entrelinha que me suga para dentro do texto. Por que tinha a consciência de tomar posse de mim deste jeito? Que falta de humor.
Ô azar! Nem dá para jogar a culpa na fragilidade humana. É só se distrair um instante e a gente quebra a perna porque não viu a merda no passeio. Ô vida! Ainda bem que o gesso virgem aceita corações e demais mensagens realmente positivas.
Dona crônica, por favor, dá para respirar um instante?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de julho de 2019.

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