Num
instante
A crônica era outra, mas virou esta,
num instante.
Foi num instante, e nem percebi. Mas, é
tarde demais. Para arrependimento, então, nada disso. Para ter-me dado conta de
que tinha me bandeado para esta história, menos ainda. Entre o instante que foi
e o instante da constatação do perdido, não entra nenhuma culpa. Inútil querer
dizer à consciência que em mim o arrependido alega-se inocente. Se o instante
foi, já foi. Percebo que estou condenado a sentir o que sinto, ou julgo andar me
sentindo assim, meio a me embromar. Embora possa atribuir à falta momentânea de
juízo a tese que sustento, que o passo se acerta com as pernas, fisicamente,
não por metáfora. Sem dar motivo a angústias, atribulações, confusão mental.
O instante não consome a realidade
brasileira. Há homens que matam mulheres por elas serem mulheres. Há milhões de
pessoas desempregadas. O Neymar a caminho do Camp Nou.
O instante não entra pelo cano nem vai
pelo ralo. A pressa é minha, a bobeira também. Perco, deixo ir ou nem noto, sei
lá. Tenho a percepção da minha perplexidade. Me pacificaria se a atribuição tirasse
o concreto do tempo ou revelasse abstrata a minha sensação do esvaído?
Decisiva é a realidade. O instante não
vira a página. E eu?
Depois do feriado do Nove de Julho,
vou pagar contas. Fico na fila, o instante anda comigo. O acaso me põe atento
ao meu entorno, e noto o calendário com o mês de junho virado para o público.
Os dias úteis marcados pela funcionária com coração.
Sensacional? Não a marca, a atitude.
Sua marca no pouco que pode tomar para si, já que o uniforme é da empresa para
a qual vende seu tempo, já que o sorriso dá expediente pelas horas em que é mal
paga. O que me importa dizer, contudo, é que a cabine tem a sua cara, até onde
lhe é permitido.
Portanto, viva o instante em que pus o
olho naquele objeto. O dinheiro segue o fluxo, pois paguei minhas contas. O
sorriso com logo me deseja um bom dia. Nenhum de nós terá um dia bom. Mas não
vou ficar ranzinza, resmungando ao vento. Que seja. Por um instante menos
cínico, mesmo breve como a vida, que haja um bom dia. Sem esperança, também digo
bom dia.
Mas o instante... Que pode um
instante?
Um instante: Estou indo. Tire a mão da
campainha, saco.
Um instante: Nem vi de onde veio a
bicicleta que me pegou.
Um instante: Fale de novo porque perdi
o fio da meada.
Assim, até parece que o mundo não tira
o olho.
Num instante, entro em parafuso, desabo
na entrelinha que me suga para dentro do texto. Por que tinha a consciência de
tomar posse de mim deste jeito? Que falta de humor.
Ô azar! Nem dá para jogar a culpa na fragilidade
humana. É só se distrair um instante e a gente quebra a perna porque não viu a
merda no passeio. Ô vida! Ainda bem que o gesso virgem aceita corações e demais
mensagens realmente positivas.
Dona crônica, por favor, dá para
respirar um instante?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 11 de julho de 2019.
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