Gentilezas
Numa boa, entro no carro de uma amiga,
iremos visitar uma convalescente, acamada por uma gripe feroz. Vamos porque ela
melhorou. O suficiente para não sermos inconvenientes.
Chegamos num pé, também o papo foi
agradável. Nada de Vaza-Jato, nada de Lava-Jato, muito de lava-prato. Ou seja,
o pé no chão permite voarmos o caminho sem prestidigitação.
Entramos no quarto. A doente não
precisa simular o sorriso que, a nossos olhos, a faz simpática e amicíssima das
gentes em geral. De fato, ela é, ao natural, uma pessoa admirada por sua empatia
e sua simplicidade, que a singularizam.
À cabeceira da enferma recuperada, já
passadas a febre e as dores do corpo, um desenho. Do seu neto, avisa-nos a avó.
“Que linda fadinha!”
Aciono o interruptor, mas a lâmpada
logo queima.
É uma borboleta.
“Obra de veterano, hein.”
Uso o farolete, as pilhas pifam de
pronto.
Nem tem um mês que o garoto está
aprendendo desenho.
“Parece fotografia de tão perfeita.”
O fósforo acende a vela, só que o
vento apaga o pavio.
O próprio autor da borboleta
desenhada: Não é o grafite HB Nº 2 que
orienta os olhos para a leitura do que está no papel. São precisamente os
espaços, os respiros, o branco da folha que dão suporte à mancha preta que abro
com os traços.
Quero a gentileza, sem subserviência é
claro. Com pigarro.
“Você copiou de foto ou modelo vivo?”
Quero respirar sem uso de aparelho e sem
inalação. Acho.
Nada disso, pois o ar fica carregado.
Sinto que entro mais e mais nas trevas do que não sei dizer o que seja. Não
entendo.
Resta a tocha providencial, mas pouco dura
a combustão.
Tomo mais uma lição do rapaz: O barato está em desenhar sem ter uma ideia
orientando a mão. Sem buscar o registro da realidade a partir da fantasia.
“Entendi... Você domina o instinto em
nome da arte, né?”
No escuro, conto com a realidade que
me ilumina.
Ele diz que tem ainda de se controlar,
porque num desenho à mão livre sempre tem o risco de deixar tosca a arte final
pelo traço muito pesado.
De minha parte, digo que tenho muito
que aprender. Grato por compartilhar o que aprendeu em pouco tempo, menino.
A amiga sorri, eu retribuo. Nada como
a simpatia.
A visita já deu. Não queremos
incomodar. Então, vamos?
Abraços sinceros. Beijos amáveis. Até
a próxima, querida.
Que quarto abafado, mortiço. Espero
não pegar aquilo.
Sem outros comentários, tento me
ajeitar. Entro no carro. E dou tchau, sorrindo. Sou todo sorrisos.
Putz!
Mas que aperto aqui atrás. E isso? É
um tal de vai e não vai. Como tem sinal na Kennedy. E a Vaza-Jato, hein?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2019.
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