Contos
do fado
Com a crise instalada em tudo quanto é
parte, resta tomar umas cachacinhas. Tomá-las, pois bebericá-las é para quando
boca e copo farejam-se gaguejantes. Então, urgente é encher a lata para ficar
escorado no balcão, o braço feito âncora. Daí, sem dar ouvido a lorotas, o
negócio é sacar no bar o que a rua anda tramando. Sobre o destino da nação. Logo,
do Flamengo. Uma vez que o rubro-negro pulsa no coração, do Oiapoque ao Chuí. Vide
o impávido do urubu ao lado do caixa. Olhai...
O botequim fica em famigerada quadra.
Afamada pelo taco, que a sinuca de bico vara os dias. Quando há dias para serem
varados, de galo a galo. O salário inteiro. Noves fora e pé na tábua, que a
espelunca foi eleita o reino da alegria. E dele fica exilada uma gente que
finge que malandras, rufiões e parasitas não têm direito à prosa furada. Vetados
guerreiros e bruxas, geralmente caudatários do prolixo da lábia. Sem prova
alguma.
Até o poeta recolhe sua verve de sete
cordas na algibeira da embriaguez. Capaz dos malabares com os copos, jamais com
as garrafas, mesmo as esvaziadas. Pena nem arriscar alguns poemas de honradez entre
vencidos e derrotados.
O bebum que sabe de cor as sete cores
do arco-íris quer o rapé inflamável que some fácil. Serve para revelar as sombras
bailadoras que não cantam nem aplaudem as vítimas da falta de amor, da escassa
ambição. É plausível que o enxerido dê a face para escolher a próxima.
O passado vomita as contas que
vencem... amanhã.
Com a teima do pudor, nego o amor ao
próximo. E limpando as unhas, faço-me sorumbático. As antenas alinhadas. Então,
a bandeira está a meio pau. Cujo nome ninguém diz. Cabe não o pronunciar,
afinal certos ouvidos andam ciscando.
O meu sorriso vem da fumaça do puro. Tenho
traçada nos lábios a obra das volutas, ensaiadas de véspera. Assim, quero manter
o fosso que separo da impostura. Sinto escancarado o espaço para uma milonga. Daí
o aço chora vermelho? Que é a cor mais sentida da afronta corrigida. Está no
olhar vidrado.
Alheio ao destino, amanheço a valsar...
Dócil.
O corpo seco de emoções. Figura de
Picasso com ângulos a insistir para que sejam mantidos os dois palmos de
distância. Pelo cálculo, espaço bastante para sua canção. A adaga canta sua
vontade, a sua fome de morte. A milonga inclui o bilhete do merecido, então o
esqueleto acaba colhido na sentença.
A alvorada afaga a madrugada noutra
dose?
Nas contas do fado, o lápis assenta a
aposta do rancor. Eita! O bicho é na cabeça, o duque, o milhar. Encabeça. Houvera de
resultar nula a soma das criptas, mas em nada diminui o porte do mel. Falam que
está beirando a oitocentos mil o corte do frágil. Com lendas e parlendas, zombam
de ogros e lobisomens. Que nem aberrações.
Tal a arenga do inacabado?
Como a fábula grassa pela realidade
incógnita, a linha do luar esconde o labirinto onde vampiros peitam o sol.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2019.
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