A
noite escura
Já tinha anoitecido. Bem antes, à
tarde, puxei as cortinas da sala devido à luz do sol, que me incomoda.
Gosto do breu, nele o mundo ganha
outros contornos, acho que fica informe. Assim, liberto das amarras da
perspectiva, das leis da física e da geometria lógica, posso soltar as velas e
navegar por aí, sem referências.
Mas, noto de passagem, isso não
significa que detenho as forças da natureza. O vento, por exemplo, para de
soprar e o barco perde velocidade, fazer o quê, uma vez sem motor...
Então, como não fiz curso de
navegação, deixei de orientar as velas para mais bem aproveitar a força do
vento, deixei-as já que estavam bojudas, acelerando a nau que me transportava
mar adentro.
Resultado?
Sem conhecimento das regras naturais, mesmo
ali no sono, o aviso dizia que o mundo não estava contra mim, eu é que marquei
bobeira e me deixei levar pela mágica do momento. O pano das velas a mil, no
embalo, que ilusão...
O pior é que o vento estava
diminuindo, dando sinais de que iria cessar, mas, distraído, fiquei viajando no
doce abismo de uma mulher, com suas seduções, carícias, e encantamentos.
Não me ajustei às necessidades do
instante porque não fiz a leitura do que me ocorria, e com o barco parado, preso
a uma postura única e prolongada, uma dor de cabeça soou o alarme.
Acordei sem barco e sem musa.
Mas era tarde, muito tarde.
Sem dinheiro para ter sequer um rádio a bordo, por quê? A grana torrei com caixas de cerveja, umas latas de sardinha
e o macarrão para a travessia noturna.
No mesmo lugar, no sofá da sala, fui
despertado.
Conferi minha coluna, era aí que o
bicho pegava para valer e me resgatou do pesadelo. Havia mesmo me embriagado com
a minha saliva, até parece um vício. Apego-me fácil aos vícios.
Por isso, já fui me acomodando outra
vez no sofá, com as pernas esticadas, com uma colcha para me aquecer e com as
costas ajustadas às almofadas.
Insensatez? Talvez.
Mas quem sabe, nesta nova viagem, não
haja barco nem mulheres. A cerveja? Não quero que me falte, gosto de molhar o
bico para cantar à vontade, à solta.
Que tipo de pássaro canta por mim
quando anoiteço?
Não colho raminhos da terra firme porque
nem me arrisco a ir longe, é que o conforto do ninho me reconforta.
A minha situação, afinal?
A escuridão era a mesma, ainda.
Lembrei que me bastariam dois passos de onde estava para acender a lâmpada.
Preferi ficar no escuro, deixando que o sono me embalasse ladeira abaixo, boiando
no aquário dos sonhos.
À flor da miséria desta condição,
sonhando outra crônica.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 14 de julho de 2019.