Fazendo
bico
Comemoram o quê?
Não me levanto do sofá e não paro a
música nos fones. Há clarões; alguns estrondos são bastante fortes pros
tremeliques da janela. Subo o som; temo, pois sou impulsivo quando deveria
ficar zen.
Mal a noite começando... O que acontece?
Provavelmente esteja em campo o
Corinthians ou os flamenguistas da cidade anunciem-se confiantes pra decisão
com o Galo Mineiro.
Comemorem o que seja, isso não me demove.
Tenho musiquinhas pra ouvir. Quero-me menos afoito, deixo que o algoritmo vá
tocando as canções. Não que o aleatório da vida tenha o condão que me comova, fico
no sofá, vou bebericando a minha água.
Mesmo sem sede, considero a boa
hidratação que os bons médicos indicam a quem almeje o melhor para si.
Não destoarei. Não serei desafinado. Não
quero dobrar minha voz, até porque não dou no couro. Pra que posar de corajoso,
guerreiro do povo, pra quê? De jeito nenhum, não me exaltarei.
O mundo ensina a ser menos inocente?
Não abro a boca porque eu preciso
aprender a me calar. A vida não para de mostrar com quantos paus se faz uma
escada, só não preciso ir atrás do dragão da torre mais alta. Sim, o mundo
educa pra inocência menor, a me deixar à vida que me leva. Sem dramalhões, ir
indo a me levar. Ir indo até onde der para ir, sem tomar da vassoura como
lança. Sem me lançar à arena, que não sou cristão nem leão.
Com o diabo que estou magoado!
Hoje o mundo louva o progresso. Sou progressista,
apoio a ciência. Ainda que os cientistas protestem por verba, a gaita anda
curta no meu bolso. Com a água que bebo não afogo a raiva, pois raiva não é
mágoa. A raiva é pavio curto que dá vida a dragões que não existem.
Ficarei em casa nesta noite de sábado.
Escutarei música até que o sono venha. Não brigarei com o corpo, porque o
cansaço pesa.
O que me pesa na mente?
Reconheço que as ideias têm começo, meio
e veredas pelas quais me perco. Quando extraviado, não babo por vodca ou
caipirinha.
Quero cochilar? Nem preciso querer, a
aurora virá.
Galos cantarão, cães latirão, crianças
gritarão, ciclistas passarão e, às dez da manhã, um bocado de gente adiará o
fim dos tempos quando pagar a conta na boca do caixa do supermercado da esquina.
Pois sim, domingo às dez, ainda haverá muitas esquinas na cidade.
Se eu deveria prestar atenção ao que meu
corpo fala?
Neste sábado à noite, nem pra isso eu
presto.
Se estivesse interessado, sentaria na
varanda. Não me deitaria na rede, sentaria no degrau. Ficaria à vista de quem estivesse
passando, e cumprimentaria quem apenas olhasse na minha direção.
Se fosse educado o bastante, iria ao
portão, daria fogo a fumantes sem fósforo, acharia a lua esplêndida, e diria
que um chopinho não faz mal a ninguém, até a quem houver de pedir-me um
chopinho dourado para tornar menos sombrio este sábado à noite.
Mantenho os fones sobre meus ouvidos?
Para assobiar direitinho, eu faço bico.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de novembro de 2024.