Trabalhar
cansa
Com o excelso pudor de quem não
contemporiza sequer em nome da amizade, as pessoas que dizem o que pensam não
se preocupam em ser verdadeiras, são justas consigo pelo que pensam.
Esses amigos, quando lhes dói um dente,
apoiam ou cismam sob o impacto desta dor no momento errado, porque um dente
doendo nunca tem momento que não seja errado.
Se lhe dói um dente, a sinceridade do
amigo que diz o que pensa é indiscutível, porque ele tem a palavra certa no
momento certo.
― Amigo, essa é pergunta que se faça? Se
aconteceu alguma coisa para eu estar azedo? Que é isso! A verdade é que estou
falando o que penso. Se o desagrada, preste atenção no que está afirmando,
porque o azedume que está ouvindo não sai de mim. Embora eu o perceba ter
alguma dificuldade pra escutar a opinião que o contrarie, meu dever de amigo é falar
como se me doesse um dente, mesmo que não esteja.
A surdez oportuna é como a cegueira a
ser negada por quem busca a renovação do direito de dirigir automóvel. Para que
o examinador não note com precisão qual o grau de deficiência, a pessoa
examinada diz o que está acontecendo como se estivesse mesmo dizendo a verdade,
que os seus olhos míopes têm dificuldade com as letrinhas.
― O meu drama, doutor, está em ler as
letrinhas pequenininhas da última linha. As demais, doutor, eu vejo que nem
preciso ter decorado letra alguma, tudo vem sem maiores esforços da minha
parte.
Por bem me conhecer, o amigo sabe que
acontece comigo quando fico nervoso. Tanto enervo que olho de soslaio mais de
uma vez, mas, mesmo olhando várias vezes pro cartaz com as letras ao lado da
mesa do oculista, não consigo gravar as três últimas linhas do quadro.
Se eu fechasse os olhos, o oculista
sacaria; então, com o tampo da mesa escondendo isso do doutor, coço-me na palma
das mãos.
Dá vontade de piscar, mas o médico usa
um colírio que embaça a visão. É desagradável não ver as coisas com nitidez, é
igual a recusar sorvete, pois o dente cariado doerá. Se vai virar a doer tão
logo a gente veja o pote de sorvete, é melhor tirar os óculos ou pingar
colírio.
― Para ser honesto contigo, amigo, eu
lembro o tempo em que não tinha nervosismo que me impedisse de decorar tudo,
até as miudinhas da última linha. Eu sabia a posição de vogais e consoantes. Sabia
qual a ordem; sem embaraço, eu ia da esquerda pra direita e da direita pra
esquerda. Não tinha razão pra tensão, bastava me concentrar no meu papel.
Entrava, olhava o cartaz, via e revia o quadro; não importava o colírio, eu
mantinha a felicidade de lembrar qual a letra, em qual ordem. Sem me importunar
que a cachola me traísse, confiava que o médico dos olhos validasse o meu
desempenho.
Não escondo do orgulho que é a
facilidade pra evitar que problemas me exponham: tomo o sorvete que tenho para
tomar e ninguém precisa saber que a vista cansada é como um dente que dói.
― E que trabalheira é viver!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de outubro de 2024.