Apagão
O título pode ser enganoso ao paulistano
que me lê, porque não há referência às seguidas quedas do fornecimento de
energia elétrica na capital de São Paulo.
Esperançoso de que a leitura possa causar
menos irritação, ou ao menos produza algum efeito calmante, abro a picada pela
qual desejo muito transitar sem me ver abandonado pelo caminho.
Na trilha que traço, aponto a um de meus
predicados positivos que é a tolerância: ainda que mais de um disparate seja
dito, não bloqueio o fluxo; caso, ao fim e ao cabo, a sequência não leve a uma
conclusão que convença, tolero-me detetive que se debruça sobre os passos.
Tolerante e atento, se a conclusão
lógica não vem à tona, ou venho do início ou parto do fim, até que a precisão
do conjunto tenha menos incoerência que a minha precipitação quer impingir ao
trajeto feito.
O irracionalista sou eu, pois a vereda percorrida
possibilita entendê-la inteligível, compreensível e, me contrariando absurdamente,
lógica.
Contrariado por atinar que a conexão dos
argumentos desconexos revela que a razão, por hábitos adquiridos e vícios
cultivados, pode ter-me cegado, opto pelo silêncio de quem escuta, não por
respeitar quem vomita besteiras como se me alimentasse pelos ouvidos, opto
escutar porque não sou andorinha em ninho de chupim.
Quando a gengiva está anestesiada,
também me pego calminho e, sem que me ocupe de mim a ouvir o que é dito, sinto
que estou pronto para ouvir e ouço.
― A senhora tem certeza, agendo pra sexta?
― Pode marcar, pois não vejo problema
que seja sexta.
― Ele virá mesmo sabendo que é dia 13?
― Quem tem estudo não liga pra
superstição, pode marcar.
― É dia de azar, doutora, marco mesmo
assim?
― Não queira debater, marque logo a
consulta, pois eu garanto que ele virá sem nem saber que dia é.
― O horário vago na parte da tarde é 16
horas.
― Ótimo! Justo no horarinho que ele mais
gosta de vir, às 16.
― Não é por gosto, doutora, é porque ele
não tem como vir antes.
― OK. Vamos acreditar que ele faz o que
diz fazer: que pela manhã tem as compras no mercado, vai à farmácia mais
próxima pouco antes do almoço, almoça no horarinho de sempre, depois ele tira a
meia hora de sesta, em seguida vem o banco e só quinze minutos para as quatro é
que ele pode vir, para chegar cinco minutos antes da consulta. Então, a sua
rotina é a mesmíssima todo santo dia? Por Cristo, que não!
― Doutora, a senhora acabou de confirmar
que ele é bom paciente. Ele chega cinco minutos antes da consulta. E tem mais,
ele bebe água mesmo que não esteja gelada, não pede pra mudar de canal ainda
que a TV esteja sem som, não pede que eu atenda o telefone quando estou jogando.
É ótimo cliente, doutora, pois sempre foi de pagar no ato: feito o serviço, não
pede desconto nem quer parcelar, paga tudo no débito.
Assim que minha boca torta permitir, por
ordinário, darei à elegância a discórdia de fiar-me esperto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de setembro de 2024.