domingo, 1 de setembro de 2024

Agora vai

 

Agora vai

 

― Tudo na Santa Paz, irmão?

― Deus me perdoe, que é lastimável a toada de sempre.

― Com tanta gente querendo ter uma família boa como a sua, um emprego bom como o seu, você tem coragem de reclamar?

― É uma vida miserável, pois muito me entristece não ter realizado nenhum sonho que eu queria. Sabe Deus que eu não pedia muito, que meu maior desejo era conquistar uma condição melhor que a dos meus pais. Não queria palácio com carrão do ano na garagem, queria honrar o nome dos meus pais. Pensava em ter um destino melhor, mas a vida me derrotou naqueles meus sonhos.

― Mas os sonhos do jovem morrem com a maturidade, irmão. Com o dim-dim garantido em todo quinto dia útil, você não nasceu para que uma sirigaita safada te passe a perna da noite pro dia.

― Deus me perdoe, só que eu não creio ter nascido para tamanha felicidade que é comer mandiopã frio com tubaína quente na festinha de sobrinho sempre catarrento.

― Irmão, você ergueu esta casa, pagou pelos móveis que escolheu ter, põe arroz e ovo no prato da família. Caramba, será pedir muito que durma o sono dos justos por tudo que te faz um cara do bem?

― Deus me perdoe, que não sei o que anda me dando ultimamente, que ando dizendo palavras que não deveria dizer, que venho pensando o que não entendo que seja eu quem deveria estar pensando, que me pego acordado no meio da noite como se fosse uma outra pessoa que me acordasse pelos pensamentos que ando tendo de repente, sem ter razão para ter essas ideias, que isso parece coisa errada, pensamento de gente que não presta, que me envergonha de me fazer pensar isso que não queria ter pensado, mas eu sinto como se fosse coisa minha o errado que não é meu, que o Coisa Ruim me faz ruim.

― Irmão, olha esta parede. Amanhã eu venho, amanhã nós vamos pintar esta parede, irmão.

― O quê!? Pintar parede liberta do Cujo que parece entranhado nas vísceras? Estará o Tinhoso possuindo também a sua pessoa? Virá me ajudar com esta parede que não precisa de ser pintada que eu ontem a pintei pra festinha que a minha casa te oferece?

― Zoca, não se deixe folgar pelo Capiroto. Virei pintar de azul, que foi a cor escolhida por nossa mãe quando confiou a ela que escolhesse o que ficaria mais bonito para a sua casa nova.

― Mas a parede é azul, Zequinha.

― É verde, meu amado irmão.

― Zaqueu, meu filho, disse o mesmo, que pintei de verde, mas dei outra demão, vejo que está azul.

― Zoca, sei que você diz que é azul porque enxerga azul, mas não direi verde para não desagradar você.

― Meu primogênito viu verde, mas dei uma terceira demão.

― Por obséquio, você disse a Zacarias que usou o azul da mesma lata comprada azul?

― A Zacarias e Zaqueu mostrei a lata que paguei à vista.

― Chame que o caçula venha dizer o que veja.

Zeremias entrou, cheirou a parede seca, passou o dedo, lambeu-o, e, sem um quê de zombeteiro, disse:

― Eis a verdade, pai, que o azul que tu pintaste só está verde.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de setembro de 2024.


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