Agora
vai
― Tudo na Santa Paz, irmão?
― Deus me perdoe, que é lastimável a
toada de sempre.
― Com tanta gente querendo ter uma
família boa como a sua, um emprego bom como o seu, você tem coragem de reclamar?
― É uma vida miserável, pois muito me
entristece não ter realizado nenhum sonho que eu queria. Sabe Deus que eu não
pedia muito, que meu maior desejo era conquistar uma condição melhor que a dos
meus pais. Não queria palácio com carrão do ano na garagem, queria honrar o
nome dos meus pais. Pensava em ter um destino melhor, mas a vida me derrotou
naqueles meus sonhos.
― Mas os sonhos do jovem morrem com a maturidade,
irmão. Com o dim-dim garantido em todo quinto dia útil, você não nasceu para
que uma sirigaita safada te passe a perna da noite pro dia.
― Deus me perdoe, só que eu não creio
ter nascido para tamanha felicidade que é comer mandiopã frio com tubaína
quente na festinha de sobrinho sempre catarrento.
― Irmão, você ergueu esta casa, pagou
pelos móveis que escolheu ter, põe arroz e ovo no prato da família. Caramba, será
pedir muito que durma o sono dos justos por tudo que te faz um cara do bem?
― Deus me perdoe, que não sei o que anda
me dando ultimamente, que ando dizendo palavras que não deveria dizer, que
venho pensando o que não entendo que seja eu quem deveria estar pensando, que
me pego acordado no meio da noite como se fosse uma outra pessoa que me
acordasse pelos pensamentos que ando tendo de repente, sem ter razão para ter
essas ideias, que isso parece coisa errada, pensamento de gente que não presta,
que me envergonha de me fazer pensar isso que não queria ter pensado, mas eu sinto
como se fosse coisa minha o errado que não é meu, que o Coisa Ruim me faz ruim.
― Irmão, olha esta parede. Amanhã eu
venho, amanhã nós vamos pintar esta parede, irmão.
― O quê!? Pintar parede liberta do Cujo
que parece entranhado nas vísceras? Estará o Tinhoso possuindo também a sua
pessoa? Virá me ajudar com esta parede que não precisa de ser pintada que eu
ontem a pintei pra festinha que a minha casa te oferece?
― Zoca, não se deixe folgar pelo
Capiroto. Virei pintar de azul, que foi a cor escolhida por nossa mãe quando
confiou a ela que escolhesse o que ficaria mais bonito para a sua casa nova.
― Mas a parede é azul, Zequinha.
― É verde, meu amado irmão.
― Zaqueu, meu filho, disse o mesmo, que
pintei de verde, mas dei outra demão, vejo que está azul.
― Zoca, sei que você diz que é azul
porque enxerga azul, mas não direi verde para não desagradar você.
― Meu primogênito viu verde, mas dei uma
terceira demão.
― Por obséquio, você disse a Zacarias
que usou o azul da mesma lata comprada azul?
― A Zacarias e Zaqueu mostrei a lata que
paguei à vista.
― Chame que o caçula venha dizer o que veja.
Zeremias entrou, cheirou a parede seca,
passou o dedo, lambeu-o, e, sem um quê de zombeteiro, disse:
― Eis a verdade, pai, que o azul que tu
pintaste só está verde.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de setembro de 2024.
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