terça-feira, 27 de agosto de 2024

Sebastian

 

Sebastian

 

O guri tosse até expelir a lasquinha da casca de pão que arranhava a garganta e, sem ânimo pra rejeitar o café açucarado que é estimulado a beber, abocanha o pedaço da torta de banana que a senhora diz ter assado tão logo foi agraciada que passaria a tarde acompanhada por este sobrinho tão querido.

Raros são os dias que a Tia Carlota não receba visitas. A todos que a procuram, sejam parentes, vizinhos ou ambiciosos à vereança, muito a envaidece recebê-los à mesa.

― Cachorro não come farelos, garoto, come ração.

Mauro César não engoliu aquela enganação, porque os cachorros da sua casa comem arroz, feijão e torresminho. Embora não cheguem a brigar, voam sobre as almôndegas que atira no ar quando o domingo tem também macarronada. Como não é o bobo para ser engambelado, ele não lhe negaria, Sebastian, uma nesguinha que fosse daquela torta tão saborosa, tão irresistível.

― Seu pestinha, pare já! Pare de dar torta pro bebê!

Bebê, só que não! No mínimo, aquele collie tem oito anos; ou seja, o cão faz parte da família desde que ele, Mauro César, nasceu.

― Mas, Tia Carlota, a minha mãe ensinou que faz o bem quem trata todo mundo igual. Se a torta da senhora é excelente, por que não daria um pedaço que vai mostrar o quanto eu também sou excelente? Acho que o certo é dar um pedaço, porque o meu priminho de quatro patas, titia, gosta tanto de banana quanto eu.

Sebastian, o collie de oito anos que gosta de torta de banana tanto quanto o Mauro César gosta de joguinho no celular, nem mastiga o que lhe seja jogado a dois palmos do focinho.

Ele abocanha no ar o que seja ― almôndega, bolinha de queijo ou o teco, arrancado à sorrelfa, da torta de banana.

― Tia Carlota, por que o Sebastian deixou de ser chamado de Felpo pra ser chamado de Sebastian?

― Vem comigo, Mauro Sérgio.

Sim, a tia do menino sempre troca César por Sérgio, pois seu irmão, pai do garoto, chama-se Mauro Sérgio.

Tia Carlota procura na estante e coloca na vitrola um disco antigo, daqueles pretos, redondos e com um furo no centro.

Sim, sim, a Tia Carlota mantém-se fiel às boas modernidades como rádio FM e toca-discos estéreo. E se não houver imprevistos, ela está a fim de comprar um tocador de CD, porque o laser faz a música soar cristalina, segundo diz dona Etelvina, a vizinha da frente.

A música é alegre. Ela tira a criança para dançar. Por óbvio, dançar é modo de dizer, que o pirralho prefere saracotear e bambolear-se feito marionete cujos cordames são manipulados por epilético em crise.

Mas o espetáculo mais chistoso que ocorre diante daquele fedelho sapeca, espoleta e serelepe é o Sebastian uivar e rodopiar enquanto é tocado o allegro do Concerto para dois violinos.

― Você entendeu, Mauro Sérgio, ou preciso dizer o porquê do bebê fazer jus ao nome que eu prezo?

Tenha dó, Tia Carlota! Só a senhora para achar que o pimpolho já tenha ouvido falar em J. S. Bach.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de agosto de 2024.


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