Sebastian
O guri tosse até expelir a lasquinha da
casca de pão que arranhava a garganta e, sem ânimo pra rejeitar o café
açucarado que é estimulado a beber, abocanha o pedaço da torta de banana que a senhora
diz ter assado tão logo foi agraciada que passaria a tarde acompanhada por este
sobrinho tão querido.
Raros são os dias que a Tia Carlota não
receba visitas. A todos que a procuram, sejam parentes, vizinhos ou ambiciosos
à vereança, muito a envaidece recebê-los à mesa.
― Cachorro não come farelos, garoto,
come ração.
Mauro César não engoliu aquela enganação,
porque os cachorros da sua casa comem arroz, feijão e torresminho. Embora não
cheguem a brigar, voam sobre as almôndegas que atira no ar quando o domingo tem
também macarronada. Como não é o bobo para ser engambelado, ele não lhe negaria,
Sebastian, uma nesguinha que fosse daquela torta tão saborosa, tão irresistível.
― Seu pestinha, pare já! Pare de dar torta
pro bebê!
Bebê, só que não! No mínimo, aquele
collie tem oito anos; ou seja, o cão faz parte da família desde que ele, Mauro
César, nasceu.
― Mas, Tia Carlota, a minha mãe ensinou
que faz o bem quem trata todo mundo igual. Se a torta da senhora é excelente,
por que não daria um pedaço que vai mostrar o quanto eu também sou excelente?
Acho que o certo é dar um pedaço, porque o meu priminho de quatro patas, titia,
gosta tanto de banana quanto eu.
Sebastian, o collie de oito anos que
gosta de torta de banana tanto quanto o Mauro César gosta de joguinho no
celular, nem mastiga o que lhe seja jogado a dois palmos do focinho.
Ele abocanha no ar o que seja ― almôndega,
bolinha de queijo ou o teco, arrancado à sorrelfa, da torta de banana.
― Tia Carlota, por que o Sebastian
deixou de ser chamado de Felpo pra ser chamado de Sebastian?
― Vem comigo, Mauro Sérgio.
Sim, a tia do menino sempre troca César
por Sérgio, pois seu irmão, pai do garoto, chama-se Mauro Sérgio.
Tia Carlota procura na estante e coloca
na vitrola um disco antigo, daqueles pretos, redondos e com um furo no centro.
Sim, sim, a Tia Carlota mantém-se fiel às
boas modernidades como rádio FM e toca-discos estéreo. E se não houver
imprevistos, ela está a fim de comprar um tocador de CD, porque o laser faz a
música soar cristalina, segundo diz dona Etelvina, a vizinha da frente.
A música é alegre. Ela tira a criança
para dançar. Por óbvio, dançar é modo de dizer, que o pirralho prefere
saracotear e bambolear-se feito marionete cujos cordames são manipulados por
epilético em crise.
Mas o espetáculo mais chistoso que ocorre
diante daquele fedelho sapeca, espoleta e serelepe é o Sebastian uivar e
rodopiar enquanto é tocado o allegro do Concerto para dois violinos.
― Você entendeu, Mauro Sérgio, ou preciso
dizer o porquê do bebê fazer jus ao nome que eu prezo?
Tenha dó, Tia Carlota! Só a senhora para
achar que o pimpolho já tenha ouvido falar em J. S. Bach.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de agosto de 2024.
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