domingo, 25 de agosto de 2024

Corpo a corpo

 

Corpo a corpo

 

Balançando na cadeira de palhinha, não me chateio com a cidade. Mais, alegra-me esta versão domingueira: pelo vento gelado, está mais esvaziada.

As pouquíssimas pessoas que passam não latem, não rosnam nem dão o bote nem mordem, distribuem santinhos e agitam bandeiras. Não me intimidam falando alto, também não as amedronto, olhamo-nos.

Vendo-me na varanda, pedem que eu desça ao portão; mesmo que atirem santinhos no quintal, sigo na mesma ― tanto democrata quanto bonachão, balançando.

Ocorre-me que creem na democracia porque votam e recebem pela distribuição dos santinhos e agitação das bandeiras. Aliás, os genuínos democratas irão votar em quem houver de cativá-los, seja pelo número fácil de decorar, seja pelo apreço a pão com mortadela, seja, ora essa, pelo crédito de que distribuirão pastel e garapa, na faixa.

Por óbvio, não os exprobro que comam a céu aberto, pois, embora não me assegurem uma merreca sequer, não disfarço o quão deleitoso é receber santinho enquanto como pastel e bebo garapa na feira.

Posto que concordo com o Luisinho, eu como e bebo:

― O que me fortalece é de matar!

Aí vem. Vejo que vem numa boa. A covardia não o seduz. Atravessa a rua sem olhar que algum carro esteja vindo. Não o preocupa que me sobressalte, que ele possa realmente vir a ser atropelado.

Está certo que o covarde sou eu ou os covardes sejam outros ― os que freiam abruptamente por não prestar atenção no que está à frente ou os que desaceleram porque temem o que veem à frente.

Estou bem certo de que não temo aqueles que freiam bruscamente tanto quanto aqueles que diminuem a velocidade, temo pelo Luisinho, temo por sua fragilidade, Luisinho, por sua mortalidade.

Até vê-lo vindo na direção da minha varanda, sou tomado pela ideia de que a cidade tem o seu ritmo, o seu fluxo, independentemente que eu tenha medo ou a coragem infle-me.

Jogo o jornal; vou abrir o portão.

Venha a mim, meu amigo, mesmo que o repreenda por sua tolice, sua empáfia ou pela minha covardia, que o temo fortalecido na tolice, na empáfia, na minha cordialidade de pessoa que se zanga, que eu até gargalho nervoso enquanto o Luisinho sorri.

Então, covardes são os outros, os que freiam e não o atropelam na faixa ou fora dela, porque eles conhecem as leis que temem infringir e sequer imaginam como poderiam viver se as leis fossem usadas para benefício próprio.

Luisinho não vem acendendo um cigarro no outro, vem sem chapéu e senta na cadeira ao lado da minha como se passar o polegar de um lado pro outro dos lábios desse no tique de Belmondo fajuto.

No corpo a corpo com a realidade deste domingo nublado, acosso-me que compreenda as pessoas dizendo as suas verdades, ainda que nem me aprovem por achar graça do que deixam de falar.

Gracejo que a rua de casa não é aquela rua do Godard, todavia:

― Senhorita Franchini, o que significa ‘repugnante’?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de agosto de 2024.

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