Corpo
a corpo
Balançando na cadeira de palhinha, não me
chateio com a cidade. Mais, alegra-me esta versão domingueira: pelo vento gelado,
está mais esvaziada.
As pouquíssimas pessoas que passam não
latem, não rosnam nem dão o bote nem mordem, distribuem santinhos e agitam bandeiras.
Não me intimidam falando alto, também não as amedronto, olhamo-nos.
Vendo-me na varanda, pedem que eu desça
ao portão; mesmo que atirem santinhos no quintal, sigo na mesma ― tanto
democrata quanto bonachão, balançando.
Ocorre-me que creem na democracia porque
votam e recebem pela distribuição dos santinhos e agitação das bandeiras.
Aliás, os genuínos democratas irão votar em quem houver de cativá-los, seja
pelo número fácil de decorar, seja pelo apreço a pão com mortadela, seja, ora
essa, pelo crédito de que distribuirão pastel e garapa, na faixa.
Por óbvio, não os exprobro que comam a
céu aberto, pois, embora não me assegurem uma merreca sequer, não disfarço o quão
deleitoso é receber santinho enquanto como pastel e bebo garapa na feira.
Posto que concordo com o Luisinho, eu
como e bebo:
― O que me fortalece é de matar!
Aí vem. Vejo que vem numa boa. A
covardia não o seduz. Atravessa a rua sem olhar que algum carro esteja vindo.
Não o preocupa que me sobressalte, que ele possa realmente vir a ser
atropelado.
Está certo que o covarde sou eu ou os
covardes sejam outros ― os que freiam abruptamente por não prestar atenção no
que está à frente ou os que desaceleram porque temem o que veem à frente.
Estou bem certo de que não temo aqueles
que freiam bruscamente tanto quanto aqueles que diminuem a velocidade, temo
pelo Luisinho, temo por sua fragilidade, Luisinho, por sua mortalidade.
Até vê-lo vindo na direção da minha
varanda, sou tomado pela ideia de que a cidade tem o seu ritmo, o seu fluxo,
independentemente que eu tenha medo ou a coragem infle-me.
Jogo o jornal; vou abrir o portão.
Venha a mim, meu amigo, mesmo que o
repreenda por sua tolice, sua empáfia ou pela minha covardia, que o temo
fortalecido na tolice, na empáfia, na minha cordialidade de pessoa que se
zanga, que eu até gargalho nervoso enquanto o Luisinho sorri.
Então, covardes são os outros, os que
freiam e não o atropelam na faixa ou fora dela, porque eles conhecem as leis
que temem infringir e sequer imaginam como poderiam viver se as leis fossem
usadas para benefício próprio.
Luisinho não vem acendendo um cigarro no
outro, vem sem chapéu e senta na cadeira ao lado da minha como se passar o
polegar de um lado pro outro dos lábios desse no tique de Belmondo fajuto.
No corpo a corpo com a realidade deste
domingo nublado, acosso-me que compreenda as pessoas dizendo as suas verdades,
ainda que nem me aprovem por achar graça do que deixam de falar.
Gracejo que a rua de casa não é aquela
rua do Godard, todavia:
― Senhorita Franchini, o que significa
‘repugnante’?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de agosto de 2024.
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