domingo, 18 de agosto de 2024

A tampa, a rolha e a garçonete descalça

 

A tampa, a rolha e a garçonete descalça

 

“Bom dia!” “Bom dia! Quatro pãezinhos, por gentileza.” “Mais algum produto?” “Não, obrigado. Tenha um bom dia.” “Bom dia.” Pego e pago, que a próxima parada é tomar um traguinho, bater um papinho.

O homem sem problemas não existe. De momento, creio acertado procurar na bebida o abrigo que me acolha sem cobranças, porque não estou a fim de me irritar com os certinhos e não consigo, pois o primeiro estranho que aparece veio pra chatear; no entanto, aceito o folheto que entrega, digo o nome quando me pede que o diga, ouço a oração com o nome que lhe dei; a comédia continua: quero sorrir e cantar?

“Bom dia!” “Bom dia!” “Cadê o meu corote?” “Sem corote, Taborda. Hoje só comeremos pão.” “Rarará. Pão a seco, nem morta!”

De momento, sem problemas que atazanem, ouço a canção que o sábado oferece. O coração vê que o sol está bom e a consciência sente que a grana está curta, ou seja, preciso beber; quero beber, no entanto, quero crer que consigo conversar com gente amiga, quem só precisa dar um tempo, gente desconfiada do que não tem solução, que não se satisfaz que a bebida acabe, a grana acabe; então, vou desistir e pirar, vou negar a alegria, vou correr do prazer? Vamos sorrir e cantar.

“Bom dia!” “Bom dia!” “Taborda, olha o frango a passarinho que eu trouxe? Que porção generosa, né?” “Generosa... Generosíssima! Mas cadê, diabos!, o mé?” “Nada de bebida, Taborda. A gente sabe do seu fígado.” “Pois é, meu chapa, quem está do seu lado quer o melhor pra você.” “Nada de cachaça? Não vou sobreviver sem um gole.” “Taborda, deixe de drama!” “Bons amigos, vão todos pro inferno!”

Por mais que me desconcentre, me distraia, me queira perdido dos problemas que este sábado sugere que não tenham importância, acho bom ficar onde estou. Permaneço onde estou, embora o melhor talvez seja ser mais adulto. Havendo tantas querelas, sorrio e canto.

Sorrindo, não me esforçarei pelo que dará errado. A princípio, estou consciente de que, por mais que me esforce, o sol não se porá ao meio-dia, as maritacas não imitarão canários, cabelos não voltarão a crescer no cocuruto, a minha amada Madalena não perdoará que o amor já ido cisme de brotar num sorrisinho que não engana ninguém.

Cantando, mudo de ideia ou outra ideia me transforma?

Como uma asa, mordo-a, mastigo-a: sou meus dentes mais o vinho que abro ainda que não o quisesse aberto.

Taborda bebe. A garçonete bebe. Eu bebo e sirvo-os. Eu bebo outro gole. A garçonete serve-se e enche o copo do Taborda. Bebemos sem cantar. Sorrindo, a garçonete enche o meu copo. Reclamando que logo o vinho acabará, Taborda não sorri. Sem cantar nem sorrir, digo que o dinheiro dará para outra garrafa, digo à garçonete que tem pés bonitos. A garçonete acha graça que eu tenha reparado nos seus pés e diz que vai voltar pro trabalho, precisa, mas sua hora do almoço foi boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de agosto de 2024.

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