A
força do querer
Talvez você queira dizer algumas
palavras. Se quer mesmo, espere o momento em que seja anunciado que o bolo será
cortado. Levante-se de pronto, comece a falar antes que passem à sala onde o
bolo será cortado. Demonstre-se impaciente, mas sem a precipitação que o faça
ser visto como alguém alucinado. Ao encher o copo e erguê-lo à vista de todos, principalmente
neste instante de pedir o brinde, esteja seguro do que faz, essencialmente do
que pensa que está fazendo. Quem não quer ser tomado por oportunista, brinda como
quem corta o bolo.
Não relembre o dia em que lhe chutou a
canela porque errou a bola, vá direto ao ponto que tanto o emociona. Embora
esteja comovido que a lembrança tenha ocorrido de forma espontânea, abafe-a, porque
sua expulsão era uma consequência lógica. O professor tinha que arbitrar a
partida aplicando as regras. Apegue-se tão somente à verdade, que a torção do
joelho e a subsequente operação do menisco teriam outro momento. Capriche na brevidade,
não cutuque feridas que irão tornar amargo o brinde.
Aguarde que os copos sejam enchidos para
que haja ao menos um gole ou a saudação resultará falsa, uma ação desabonadora a
quem a propõe. Não se deixe atropelar pelos pensamentos, segure alto o copo até
que todos também o façam.
Você sabe que as palavras são difíceis de
dominar, que a enxurrada passa selvagem, furiosa, levando pedras e gravetos. E
teme que seus tornozelos sejam atingidos por cacos de vidro, portanto feridos.
Quem menos há de querer ferir é quem
toma a iniciativa de brindar, pois você quer tão somente brindar antes que o
bolo seja cortado.
Se tivesse saído de casa com o discurso
pronto, o brinde soaria tão sincero quanto os tapinhas nas costas em quem foi
expulso por justa causa, outro ardoroso perna de pau que idolatra um craque.
Certo mesmo é que você acredita que,
tendo pensado e pensado o discurso, tendo posto e retirado essa palavra que soa
bem mas põe a perder o ritmo, tendo treinado os gestos, tendo falado e
gesticulado na frente do espelho, você acredita que, embora siga sendo um perna
de pau, poderá dar a impressão de atuar feito craque.
O gol de placa, a finta certeira, o lençol
elegante, a enfiada precisa, a cabeçada no ângulo, o chute indefensável, a
corrida pro abraço, em tudo seja honesto. Embora ensaiado, pense tão somente em
afagar os melhores sentimentos de quem brindará consigo.
Observe as pessoas que terá que cativar.
Elas também conhecem quem merece umas palavrinhas, então, não hesite nem se
acanhe, fale tal qual o bom político.
Relate o dia em que se conheceram. Destaque
um detalhe ou outro da circunstância em que se encontraram. Com empolgação exagerada
ao circunscrevê-los quando houve a apresentação, aí, brinde!
Feito o brinde, e desejoso de refri gelado:
mesmo que o melhor que lhe reste seja comer bolo, é bom comer o bolo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de agosto de 2024.
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