Saudável
de mente
Sei trocar lâmpada, mas antever a
escuridão após o crepúsculo não me persuade a subir na escada. Não tenho medo
de cair, é que estou sem tempo. Até porque realizar a troca tem menos
importância do que chegar na hora da consulta.
Preciso correr ao dentista porque nada
me demove da ideia de que o dente começará a doer mesmo que a dor tente me
convencer que é meu psicológico que se diverte aprontando, mas não saio de casa
sem antes acabar de assistir à cena em que o mocinho, a mocinha e o vilão que
não treme ao segurar a arma estão no momento decisivo.
Ultimamente tenho vivido mais momentos
cruciais que rotineiros, e excesso de adrenalina vicia ou esgota. Ando viciado
em esgotamento e isso, somado à urgência de dar conta do mundo, acaba acuando
que o melhor a fazer nas atuais circunstâncias é dormir, é entretanto dormir
profundamente.
Por pesar as consequências, não tomo
sonífero. Ainda que o copo de leite com dois dedos a mais esteja quentinho, não
me deitarei agora. Tenho que responder corretamente à senhora que me pediu as
horas, o que me faz tirar o celular que eu trazia desligado.
Não é porque os assaltantes de
antigamente batiam carteiras que os de hoje têm mania de celulares, é que
poucos têm dinheiro de papel no bolso, então, julguei a mulher pelo coque, a
saia seis palmos abaixo dos joelhos e as mãos garantindo que a Bíblia não caia
no meio-fio, ou seja, o maior risco nessa ocasião é eu dizer alguma palavra
machista, porque eu estou tocado por essa crente que ostenta maravilhosamente
um relógio no pulso esquerdo.
Ela não precisa ocultar que o seu
relógio está parado, que ele parou há pouco, assim que me viu, pois seu anjo da
guarda teve a elegância de lhe sussurrar que sou a pessoa pundonorosa que
aparento ser.
Embora aprove a visão que esse anjo,
portanto todos os anjos, tem dessa alma que trago encalacrada nas carnes bem
curtidas, à rapariga sinto-me na tentação de fazer graça, entretanto só falo as
horas.
Não me lamento da escolha, que não
revelei o sentimento de estar encantado, leve, a querer saber-lhe os gostos, de
provar da textura dos lábios, de desejá-la acordando-me pro desjejum do domingo,
para que houvesse outro desfecho, uma vez que neste, sem par de meias no dia
dos pais, ela que siga, que vá, toque adiante.
Sem cismas de descaramento, eu pego outro
rumo.
Se tivesse a possibilidade da admiração
dos seus olhos, é provável que os achasse azulados ou, se não cedesse à
vergonha pelo tanto do meu entusiasmo, descobri-los-ia esverdeados?
Se ousasse medi-la dos pés aos joelhos,
haveria a precisão de que a saia está três palmos acima dos mocassins?
Mocassins, minha senhora? Terei visto a senhora
em mocassins de camurça que eram ocre e não chumbo?
Sem meios de não me extraviar do
possível ao provável, assim seja, pois sou gente penhorada à vida pela
realidade proporcionada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de agosto de 2024.
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