quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Saudável de mente

 

Saudável de mente

 

Sei trocar lâmpada, mas antever a escuridão após o crepúsculo não me persuade a subir na escada. Não tenho medo de cair, é que estou sem tempo. Até porque realizar a troca tem menos importância do que chegar na hora da consulta.

Preciso correr ao dentista porque nada me demove da ideia de que o dente começará a doer mesmo que a dor tente me convencer que é meu psicológico que se diverte aprontando, mas não saio de casa sem antes acabar de assistir à cena em que o mocinho, a mocinha e o vilão que não treme ao segurar a arma estão no momento decisivo.

Ultimamente tenho vivido mais momentos cruciais que rotineiros, e excesso de adrenalina vicia ou esgota. Ando viciado em esgotamento e isso, somado à urgência de dar conta do mundo, acaba acuando que o melhor a fazer nas atuais circunstâncias é dormir, é entretanto dormir profundamente.

Por pesar as consequências, não tomo sonífero. Ainda que o copo de leite com dois dedos a mais esteja quentinho, não me deitarei agora. Tenho que responder corretamente à senhora que me pediu as horas, o que me faz tirar o celular que eu trazia desligado.

Não é porque os assaltantes de antigamente batiam carteiras que os de hoje têm mania de celulares, é que poucos têm dinheiro de papel no bolso, então, julguei a mulher pelo coque, a saia seis palmos abaixo dos joelhos e as mãos garantindo que a Bíblia não caia no meio-fio, ou seja, o maior risco nessa ocasião é eu dizer alguma palavra machista, porque eu estou tocado por essa crente que ostenta maravilhosamente um relógio no pulso esquerdo.

Ela não precisa ocultar que o seu relógio está parado, que ele parou há pouco, assim que me viu, pois seu anjo da guarda teve a elegância de lhe sussurrar que sou a pessoa pundonorosa que aparento ser.

Embora aprove a visão que esse anjo, portanto todos os anjos, tem dessa alma que trago encalacrada nas carnes bem curtidas, à rapariga sinto-me na tentação de fazer graça, entretanto só falo as horas.

Não me lamento da escolha, que não revelei o sentimento de estar encantado, leve, a querer saber-lhe os gostos, de provar da textura dos lábios, de desejá-la acordando-me pro desjejum do domingo, para que houvesse outro desfecho, uma vez que neste, sem par de meias no dia dos pais, ela que siga, que vá, toque adiante.

Sem cismas de descaramento, eu pego outro rumo.

Se tivesse a possibilidade da admiração dos seus olhos, é provável que os achasse azulados ou, se não cedesse à vergonha pelo tanto do meu entusiasmo, descobri-los-ia esverdeados?

Se ousasse medi-la dos pés aos joelhos, haveria a precisão de que a saia está três palmos acima dos mocassins?

Mocassins, minha senhora? Terei visto a senhora em mocassins de camurça que eram ocre e não chumbo?

Sem meios de não me extraviar do possível ao provável, assim seja, pois sou gente penhorada à vida pela realidade proporcionada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de agosto de 2024.

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