Fora
do ar
Naquele tempo, depois da passagem de um
vento neurastênico que assobiava monstros na mente da gente miúda, nova e
assustadiça não porque fosse miúda, nova e impressionantemente assustadiça, porque
era refúgio a monstros que a gente adulta, crescida e intimorata achava risivelmente
próprias de gente miúda, nova e ridiculamente incapaz de assobiar de volta,
pondo para correr essas urucubacas mentais.
Tendo o vento varrido telhados como
criança lambe Chicabom, era batata que o primogênito subisse ao telhado para pedir
orientação, que virasse mais no sentido anti-horário ou menos no sentido
contrário, até que a antena, modelo espinha de peixe, entrasse no eixo e permitisse
a sintonia sem fantasmas e sem chiados, chegando à melhor recepção garantida
pela tecnologia da época.
Como agora é outra era, a gente pensa
que não basta ficar satisfeita com o melhor que faz, pois o momento é de qualificar
o produzido como partícula de um processo maior, tendo em vista a evolução
pessoal pro bem da sociedade, isto é, é bom lamber o Chicabom de modo a evitar
que a mão fique melecada, ou seja, faz boa coisa quem vê como óbvio que o
aquecimento global é palpável, efeito que pode ser medido pelo derretimento do
sorvetinho nosso de todo dia.
Pensando que a gente percebe que o mundo
tem funcionado como Fla X Flu estrutural, a antena tem que ser posicionada para
que o jogo seja captado pela melhor revolução das nossas faculdades mentais ou
haverá desperdício de Chicabom, até porque ter as mãos lambuzadas é sinal de
idiotia.
Mas quem gosta de ser carimbado como
idiota nem sempre é idiota; e a gente percebe que precisa melhorar, que pode
evitar que os pingos formem uma poça, pois só mesmo um idiota para gozar ao
ver-se feito alma na poça.
Olhando bem, sem se abalar pelas
pressões de toda sorte, a gente tem a percepção de que o fantasma da poça rirá
da nossa cara; e esse riso revelará o quão miúda e impressionável a gente é.
Impressionante, a gente envelhece porque
a vida faz mal à saúde, pois sentir-se velho, estar velho, ter envelhecido,
isso tudo mostra que, depois deste tantão de anos carregados na cachola, viver
faz a gente ficar mais esperta do que o menino que a gente era quando a
televisão tinha tubo, válvulas e estática na madrugada.
A madrugada seria um portal para
manifestações ectoplasmáticas? Na real, haverá um poltergeist pra tão
tosca realidade?
Ainda seguro o Chicabom como sendo a
antena mais adequada pra captar o Fla X Flu destes dias. Sigo lambendo, até
porque ele derrete, derrete, mas nunca que derreta até o palito.
Os ventos não derretem, mas são os
transtornos que amplificam os horizontes da cachola, são tais ventanias
metafísicas que desnorteiam antenas e desorientam birutas.
Já que a vida não muda da água para o
vinho, sinto que cabe a mim querer trocar meu Chicabom por Sensação.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de setembro de 2024.