Cantiga
do bom rapaz
Se a brisa da nostalgia não estiver brincando
comigo, naqueles dias de distanciamento obrigatório por conta da Covid-19, durante
algumas semanas, de maio a agosto de 2020, uma mulher decidiu-se por cantar na
sacada de algum apartamento na rua onde eu morava.
Não me equivoco que ela cantasse na
sacada de um apê, porque eu vivia num logradouro predominantemente de prédios.
Sem muitas casas ou sobrados, era uma rua de edifícios altos, sendo que os mais
baixos subiam a sete andares, fora o térreo da entrada e o subsolo da garagem.
A memória está amolada, que o seu fio
corta as inferências ilógicas, portanto deduzo que a mulher não queria ficar
inteirada dos números da pandemia, que ela vinha cantar depois da janta, tão
logo acabava a segunda novela da noite, às oito e meia.
Dando a correta ilação, mais saudável
cantar do que se afligir com os escores diários que o telejornal era obrigado a
informar, divulgando quantos infectados, quantos óbitos, quantos curados.
Não bastassem as aflições pela doença
ser altamente contagiosa e ser fatal porque, à época, não havia vacina, a
obrigação de alardearem os números, verdadeiros e alarmantes, dia após dia impunha-se
como serviço de conscientização, sanitária e cívica.
Não bastava estar ciente do quadro
escandaloso da contaminação, era preciso estar consciente de que os fundamentos
estapafúrdios dos negacionistas não eram tão somente pseudocientíficos, manifestavam-se
como ações criminosas.
Haja paciência? Justiça seja feita!
Quatro anos depois, os atos criminosos
ainda seguem transitando, à espera de serem pronunciados pelo que são, atos
fundamentalmente criminosos.
Apesar disso, por poder rememorá-la, à
cantora não guardo mágoa, nojo ou raiva, alegro-me ao recordá-la, que ela tinha
repertório eclético, que a ordem dada às canções era aleatória.
A mim que apenas cabia ouvi-la,
preponderava o acaso.
Embora se apresentasse ao sabor dessas
caraminholas de pessoa submetida a estresse e angústia, ela optava por cantar.
E todos os dias ela cantava, mesmo aos domingos, mesmo que fizesse frio,
chovesse ou que o calor noturno fosse infernal.
“E a seda azul do papel que envolve a
maçã”, não ponho remorso de seguir no trem da vida.
“A fé vai onde quer que eu vá”, que ela
cantasse por viver naqueles dias de mortos sem sepultura, compreendo-a.
“Cuidado com o disco voador”, não tenho
vergonha de quem vê nos céus a vinda da salvação para o nosso éden.
“Vou partir a geleira azul da solidão”,
escrevo no papel, escrevo com a festa fervendo na TV e, queimando de raiva,
suspendo a mão.
“Uma gente que ri quando deve chorar”, sustento
que posso mais.
Achava lógico associar o verso
cristalino com o dia, nosso dia, o dia de todo mundo, relacionava-o a emoções
que me induziam a associar-me a isso e àquilo.
Rapaz, sê mais impertinente.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de agosto de 2024.