quinta-feira, 20 de junho de 2024

Enevoado

 

Enevoado

 

Era uma visão diferente a que tive do céu, porque acordei caído aos pés do sofá. Precisei certificar-me de que não tinha dores, que o corpo deitado no chão não rolou abaixo, desavindo do sofá.

Não caí, peguei no sono porque me ajeitara ali mesmo, no chão aos pés do sofá, pois cansadérrimo me deitara, ali.

Sim, adormeci porque ontem foi um daqueles dias, de tarefas sobre tarefas e nenhum prêmio pelos méritos de cidadão que não adia o que não se deve deixar para depois.

Então, acordei com aquelas nuvens boiando, indo lentas, mas iam. A visão tinha mesmo que me acordar uma outra pessoa, que se admira de ter caído do sofá como se tivesse congelado feito pedra.

Uma pedra sóbria, boamente alimentada, boa nos modos, uma que não deixa de arrumar a cama, embora tenha topado dormir tão logo os olhos começaram a arder. Provavelmente arderam avermelhados, por grãos de areia pincelados, de retinas entorpecidas em afazeres.

Foi que me lembrei, saí cedo.

Tinha que ir ao oftalmologista, porque marquei a consulta por causa da vista que andava embaçando há cerca de um mês, quiçá um mês e meio, não mais que dois meses. E na virada do dia pra noite é que ela embaça, me perturba um pouco, tenho muito medo de torcer o pé, dar com os joelhos na calçada, quem sabe eu até nem enxergue a nota de duzentos que muito ajudaria.

Me lembrei de ter achado aquela nota de duzentos quando estava indo ao oculista. Só que me desviei um tanto, fui à lotérica pagar boleto e fazer um joguinho despretensioso. Como quem saberá agradecer ao bom deus que me permita a alegria de ganhar, pois a aposta foi mesmo feita com a despretensão de ficar milionário apenas e tão somente pela sugestão da atendente, não pelo achado daqueles duzentos.

Me lembrei de que parei no ponto porque tomaria o ônibus que me levasse ao médico dos olhos.

No entanto, com as mãos nos bolsos, o ombro no caibro pintado de vermelho para deixar evidente que ali era o ponto de parada do ônibus, foi por sorte que comecei a contar as bitucas, foi muita sorte eu obrigar minhas mãos a ficarem nos bolsos, pois fumar não me ajudaria.

Me agradeço por não ter acendido o cigarro, que não fiquei batendo as cinzas, não fiquei impressionado com a brasa, escolhi contar bitucas e me achou a realidade, era real a fortuna caída do céu.

Me lembrei de ter atravessado a rua, entrado na lotérica e feito a tal aposta, que me haveria de resolver os problemas, a maior parte deles, ao menos. Embora eu nem soubesse qual o valor do prêmio, ainda que eu nem quisesse saber se o prêmio estava acumulado, paguei à moça que sugeriu o bolão, até o coloquei na carteira sem nem mesmo conferir por quais números a aposta era composta.

Me lembrei de voltar ao ponto, precisava realmente pegar o ônibus, o que me levasse ao doutor, aquele que há um ano marcou a operação de miopia, a que ainda não me justifiquei de não ter ido fazê-la.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2024.

terça-feira, 18 de junho de 2024

Inigualável

 

Inigualável

 

Estou sendo observado. Não preciso me virar para saber que estou, pois minha nuca sente ser o foco. Sem coceira alguma, coço-a. Apesar de eu não disfarçar o desconforto, a pessoa não faz questão de dizer meu nome. Talvez esteja enganada, que não sou quem ela pensa que eu seja. Pior, ela pode saber quem sou. Então, ela virá até mim e falará comigo. Embaraça-me a ideia, não me viro pra ver quem vem às costas porque não estou a fim de conversar. Eu quero terminar a voltinha com o cão e voltar pra casa sem ouvir as últimas notícias. Apego-me a isso, que não darei o gostinho de ter confirmado o prazer dessa pessoa que tem muito a contar sobre o que seja, da melancolia à euforia. Se houver sol em Ipanema ou nevasca em Ushuaia, acaso surfe ou esquie, pouco interessa o estado da arte. Não brinquem comigo.

― Tá querendo briga, é?

Não, não, o meu embaraço não é tanto pra que impulsivamente me sente no primeiro banco. Talvez seja isso, que ela sinta alguma alegria ao me obrigar a fazer algo. Como não quero ser convencido, sento-me. Faço questão de revelar o quanto estou desconfortável: fixo o olhar em quem me quer constrangido.

A pessoa atrás de mim é uma mulher e ela não passeia com o seu cão. Ainda que ande devagar, como se estivesse passeando um cão, a mulher que me fez encará-la vem acompanhada de uma criança.

― Tá usando uma criança como escudo, é?

Não fique confiante de que domina, você não vencerá. Mantenho a firmeza, não serei passivo. Se quer me confrontar, confronte o que meu olhar está dizendo. Ele diz que estou incomodado, que posso aguentar um pouco mais, que o seu poder não me abaterá. Não gritarei, porque a minha boca dirá bom-dia, acaso você me intime a dizê-lo.

Ela passa, sequer me cumprimenta, ela passa adiante.

A mulher e a criança, eu sei quem elas são.

Os seus nomes eu não sei, mas sua casa fica num imóvel que toma um quarteirão. Sua morada é um casarão de três pavimentos, herança do avô da mulher, a última joia de um patrimônio defenestrado pelo avô da menina, o que adorava apostar.

O haras da família, por exemplo, foi perdido pelo puro-sangue que vencera seis ou sete prélios, vindo a perder o único Grande Prêmio em que, por um dinheirinho cujo montante nem madames nem cavalheiros quiseram saber quanto foi, o aceitaram que disputasse.

Barro a digressão, pois prefiro rememorar as qualidades do bisavô da menina impedida pela avó de afagar o meu cão, que até sentou tão logo começou aquele tatibitate.

Ainda hoje, contam que foi o homem mais rico em todos os tempos. Naquele tempo, rico era o homem que produzia o leite e o pão postos na própria mesa. Ele vendia queijo às Minas, mandava ovos ao Rio e doava farinha às padarias da cidade.

Investia nas candidaturas dos postulantes à prefeitura, pois o jogo democrático pedia que não fizesse a injustiça de ter um preferido.

Era milionário, porém democrata.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de junho de 2024.

domingo, 16 de junho de 2024

Na mosca

 

Na mosca

 

Interrompi o trabalho. Tinha que terminá-lo antes da janta ou até me deitar, já quase meia-noite. Parei tudo porque fiquei maravilhado com aquilo. Fechei os olhos. Tocaram uma, emendaram mais uma e outra, eu fiquei e, de olhos fechados, eu fui ficando.

Pouco me importei com quem estava escutando aquelas músicas, o repertório me era conhecido, apreciado, querido. Muitas canções que há muito eu não ouvia nem tinha ouvido nos últimos anos, nos últimos cinco, talvez dez, poxa, já uns vinte anos.

Não me envergonho de ter sido jovem e consumidor de música feita por e para jovens. Falo do que produziram a Legião, os Paralamas, Ira, Miquinhos, Os Ronaldos, era o que algumas rádios tocavam, o que era tocado nas festas, eram os discos que ouvia no meu quarto.

Já um dia tive um quarto só pra mim, com as paredes liberadas pra Jim Morrison, Roger Daltrey e Syd Barrett. Foi uma época sem Noel, Chico Buarque, Nara Leão. Me embalavam UB-40, Pretenders e Devo. Foram dias de aprendiz, dias de Natasha com fanta.

Eu bebia, muito. Eu gostava disso, de encher a cara com hi-fi.

Aqueles foram dias de porradinha, e ressaca braba. Foram noitadas de vira-viras, e amnésia alcóolica. Foram dias de ir à feira tão somente pela garapa, nada de sólidos e, pelamor!, nada de fritura.

Me lembro daquela vez no Carbono 14. Não garoava, mas fazia frio. Foi quando jogaram aquela múmia e subiram de volta com a dita cuja. Bela Lugosi’s Dead, jogaram, jogaram, e tanto atiraram o manequim lá do alto que o frenesi passou. Belezura! Você já era, Mr. Lugosi.

Hoje eu como mais de um pastel de queijo, tomo garapa com limão, acho engraçado me lembrar de que um dia fui um bom garoto, aprendi a ler em silêncio, fui aquele leitor bastante impactado por Que Fazer?, A Ideologia Alemã e O Matraca.

Não considerei uma perda de tempo aquela interrupção. Gostei de ouvir que garotos do subúrbio, garotos do subúrbio, vocês não podem desistir de viver. Também gostei de assobiar que tudo foi sempre uma mera questão de dinheiro. Surpresa! Até levantei, repeti uns passinhos que fazia, afinal vou ser engenheiro, ganhar muito dinheiro, graças ao milagre brasileiro.

Não ganhei merreca alguma, ganhei em galhardia.

Brioso, lá fui eu, pro lançamento do compacto duplo do Esquadrilha da Fumaça, fui ao Lira Paulistana, naquele ano que não há de terminar, 1983. Queria notícias sobre o fã-clube e informaram que o Zappa Club não tinha inscrição nem carteirinha, basta ouvir o Zappa.

Caramba, carambolas.

Operador de histórias, deixo a memória brincar de remontar-me que nem o tal boneco da Treze de Maio, porque, Deusdéti, se não pude ir jantar com você no Maquesude, não lamento nunca ter usado a famosa mosca do guitar hero de Baltimore, uma vez que, cronista com as mãos do Dylan, os pés do Cohen, o coração e a mente dos Mutantes da Rita, eu canto, danço e falo sério.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de junho de 2024.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

A fé do homem assustado

 

A fé do homem assustado

 

Ao abrir os olhos, o mais espalhafatosamente, gargalhar.

O que será isso, cometer essa maluquice é livrar o corpo da energia negativa dos súcubos de outra madrugada malsã?

Abrir os olhos devagar, precavendo-se de que o mundo continuará no lugar em que estivera ontem mesmo tendo aberto os olhos devagar, embora isso contradiga o preceito: vida é movimento.

A realidade precisa ser educada a concordar com este conceito que estabelece que a movimentação permanente dá existência ao mundo, ou o universo também confrontaria outro axioma, aquele que considera que: na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se aprimora.

Abrir os olhos, que gargalhar é descarregar demônios domésticos, íntimos, que criam e recriam intimidades como a amestrar o fogo que se espraia por neurônios, bifurca sinapses, cativa a mente com a razão que argumenta com os mais sólidos, os mais lógicos, os menos teatrais dos comportamentos, a apurar-se.

Abrir os olhos, e rir como louco ou geômetra.

A geometria do caos estabelece a perspectiva, diz à face rubra que recue quando a aurora vem, todavia o demiurgo de régua e compasso nem precisa delinear o abismo que se concentra neste ponto: a letra A tem o seu nome, tanto quanto no seu nome entra a letra Z.

E seja: o infinito no finito, apesar da incongruência.

Em outras palavras, olhar-se, transfigurar-se na pessoa que ontem, ao abrir os olhos, faz o mundo ser a realidade que agora queima, segue pelo rastilho, traz ideias à tona, sobe à linha para respirar, sucumbe ao lodo sem revolvê-lo, que as palavras brotem sujas, que nada se perca, tudo se crie, e paralisar-se, petrificar-se, estagnar-se, represar-se, vem daí o cheiro acre, o verde de coisa podre, porque parar é apodrecer, e rir faz andar, adiantar-se, mover-se.

Seja o que for: o vento que move molda a pedra, alisa-a, oxigena o ventre, a mente e o pensamento. Com novos argumentos, raciocine e pense, haja como húmus que aduba a terra, aflore à terra, torne-se um botão de rosa que sobe, move-se, cresce, solta espinhos e, entretanto, encanta, é belo, diz aos olhos e às palavras o encanto da sua beleza, ferindo, para que não haja estagnação, cansaço ou tédio, haja os olhos que se abram, eles sejam ridentes, acutilantes, calculistas.

Haja cálculo: felicidade pouco tem a ver com a alegria, e tanto com aquele arroz empilhado, estocado, abrigado em tantas sacas.

Se a realidade é o mundo a oferecer-se à pessoa que abre os olhos rindo de si e de tudo o que ela acredita calculado para que possa abrir os seus olhos sem recear que os abra, haja o susto.

A pessoa assustada é gente cuja credulidade está em revelar o que se oculta em gôndola cheia: o eclipsado entusiasma os donos de toda aquela sacaria nas barrancas de rio, pois saco de arroz é saco de areia, e é isso que faz navegável até estacionamento de supermercado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2024.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Pescador confesso

 

Pescador confesso

 

A minha dedicação em parecer natural, que nem uma trepadeira se espalhando por muro, quiçá não tenha importância alguma para quem está indo trabalhar, mas é meu trabalho observar as pessoas sem que elas passem que estão realmente indo trabalhar.

Se é divertido espiar a rua um instante? Diverte-me.

Sem maiores preocupações com os automóveis passando com um passageiro, com as mulheres que criticam a tentativa de lucrarem com a privatização das praias, com o cão latindo atrás do ciclista dos fones coloridos, espio-a porque eu pretendo me inteirar dessa movimentação sortida de sentidos, carente de sortudos, mesmo que os meus pulmões não apreciem a riqueza dessas fumaças.

Posso sentar na varanda, fumar um cigarro, fumá-lo sem pressa, ir de tragada em tragada, de vez em quando bato as cinzas porque me apraz vê-las voejando na brisa. Ponho gosto em ver a brasa comendo o papel, então eu baforo o meu cigarrinho sem me arrepiar por alguma outra vontade.

Curto mesmo o momento? Memorizo-o.

O que corta o barato é um bate-boca que rebenta do outro lado.

O Fonseca é terrível, só escuta quando quer. Quando escuta, não ouve o que a gente fala, ele interpreta o que é dito. Sempre digo que a sua inteligência devia ajudar no treinamento dessa IA que tantos falam. Não martelam que a IA vai revolucionar a vida de todo mundo? Então, a mente do Fonseca é basicamente um artifício. A realidade não existe se não for adulterada por ela, não virar o que ele acha que ela é.

É inacreditável a cegueira que o faz ver o mundo como fruto do que ele acha. Ele não pensa, ele vê. Ele raciocina como se pensasse, mas ele não pensa, ele encaixa as peças. O resultado é que, em vez de vir à tona uma foto sua em 3X4, explodem corolas de tinta. Entende?

Entendo que preciso ir lá atrás pra dar uma olhada no cachorro que não para de latir; me dá licença, Dolores, pois não quero que nenhum gato vire patê lá no fundo do meu quintal.

Qual a pérola do posto: um Pollock ou outra “fonsecada”?

Embora não subscreva a versão contada, a graça vem fácil porque o Fonseca é um cara sistemático: ou o mundo mostra que está errado ou ele faz errado o mundo.

Dolores está brava com razão, porque o Fonseca, querendo provar que o gato não fugiria porque gato é bicho apegado ao sossego do seu espaço, ele arreganhou a porta da sala e, querendo tocá-lo porta afora, o bobalhão bateu palmas, assobiou, aboiou, pegou uma vassoura, até bombinha ele soltou, tanto fez que o danado do gato disparou, passou pela grade e sumiu-se.

Ninguém freou? Nem um miadinho foi ouvido.

Sendo ousado, Dolores, digo que eu sou que nem ostra.

Pescador, confio-lhe que não fico à toa quando pareço estar à toa, vendo a vida passar, escutando canário cantar, fumando por fumar. À toa, à toa, entranham-me as migalhas, os cacarecos, o que, distraídos, homens, mulheres e crianças vão semeando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2024.

domingo, 9 de junho de 2024

A doce vida

 

A doce vida

 

A Mariana que encontrei ontem estava radiante. De modo nenhum, ela não me encantou por estar fazendo compras. Prefiro segurar esse comentário ― que bugigangas nos fazem esquecer do mundo que nos arruína a pouco e pouco. Ao contrário, da minha amiga emanava o quê de sapeca, de pimentinha, que ela, já garçonne gris, soltava um frescor da Liza Minelli por seu baita sorriso Cabaret.

Apesar de sapatilhas, collants e tiaras comporem uma das gêmeas na alegria bailarina de uma vovó toda orgulhosa, na cena eu vislumbrei a minha semana: os dias sorriram e eu sorri de volta.

Até me contenta a constatação: a semana foi tranquila.

Os pequenos percalços não apagaram em mim a alegria de sorrir. Nenhuma topada em quina foi impedida por gesto brusco, pois transitei suave pelas esquinas. Eu não me vi entristecido por frustração alguma, eu fluí, fui esse rio a passar discreto, murmurante, benfazejo.

De segunda a sexta, o meu mundico foi essa extraordinária avenida de semáforos abertos. Não tive que buzinar a cães, não precisei xingar ciclistas, não atravanquei as veredas de pardais, joaninhas e abelhas.

Caramba! Também estou orgulhoso. Putz! Sem afetar vaidadezinha vulgar, fui bom. Cáspite! Ontem e hoje, sou outro exemplar de pedestre que se preocupa em respeitar regras e malabares.

Posso dormir em paz, pela certeza de ter-me responsabilizado pelo mandamento cívico: não atropelar nem ser atropelado, ter mais um dia de cidadão civilizado.

Afinal, a civilização nos dá a cultura do diálogo, do abraço afetuoso, da palavrinha amiga no gesso de quem chuta o pé da trave.

Não faço pouco dessa gente tão sincera que nunca solta capucheta porque acha coisa de pobre empinar papel que embrulha pão ― óbvio, se houver filões e haja, mais óbvio ainda, moleques.

Que semana! Eu consegui não ser moleque nem fazer molecagens. Nem parece que sábado foi ontem, que nem comi pizza nem vi futebol na TV. Vivi uma semana diferente, que nem paguei bebida a ninguém, nem fui ao bar nem tomei uma caipirinha na feijoada. Que sábado!

A semana é de segunda a sexta, o sábado é pro descanso.

Já o domingo, hein? Eu não enfio o domingo na matemática do dia a dia. É espaço fora do tempo, das rotinas cósmicas, porque o domingo eu tiro para cortar as unhas, manter a careca careca e cochilar quando o cochilo chega. Não passo aperto com domingo algum.

Carambolas! Ao fim e ao cabo, eis a que conclusão eu chego: estou vivendo um momento único, vivo uma semana de sete domingos, algo que nunca tinha vivido, uma fenda na minha vida, um domingo que não exige que outro o siga.

Isso faz crer que, já que mergulhei neste instante, voltei a mim que não olho pra trás, não cantarei rosas murchas, não dissecarei bezerra morta, nem negarei que a felicidade é um domingo tão meu, sem praia, solidão nem tédio.

Que belo domingo, bem regado a Pimentinha Sessions.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2024.


quinta-feira, 6 de junho de 2024

O bode na sala

 

O bode na sala

 

Algumas pessoas, por certo, vivem na confiança de que vieram ao mundo para mudá-lo conforme o que pensam; outras há, sem dúvida, que nasceram para batalhar por um minuto a mais na cama; tem ainda aquelas que não queimam muito a pestana, levantam quando sentem que um minutinho a mais é render-se à preguiça e, mesmo que o façam só por intuição, elas não veem TV pela magreza das atrizes nem pelos desesperos dos humilhados, mas pelo gol de placa da rodada.

Deve ser pela influência benéfica no moral da gente que tem rodada todo dia, e isso não deixa de ser um tento a mais na goleada aplicada em toda gente, seja a que vê TV ou a que dorme em busão.

Quando o sono cativa as pálpebras, não basta eu lavar o meu rosto, tomo aquele banho.

Posso ter nascido para escrever, antes, asseguro-me de ter nascido para tomar banho pelo que seja, até pra ver a água indo pelo ralo.

O quanto os possa tomar, tomo-os. Uma vez que banhos produzem em mim diversos efeitos. Quando busco relaxamento, quero-o pela boa noite de sono. Para reflexões racionais quando dilemas me fazem suar mesmo parado, banho-me pela duração que me faça menos passional. Se o empoderamento é mais do que uma palavrinha na moda, o banho me permite escolher a hora que convém começá-lo.

Na plenitude da prática, banho é exercício de cidadania.

A felicidade, o bem-estar, a energia positiva, a paz interior, a visão da tempestade que sobrevém à bonança. Sim, sei que sou uma pessoa cuja presença no mundo pode ser melhor pelos banhos que toma.

O destino veio marcado: que eu vá tomar banho.

Quando dizem para ir tomar banho, imediatamente cheiro o sovaco. Preciso mesmo? Quando verifico que não preciso, tudo bem. Quando falam pra me cortar o raciocínio, digo que vou, e peço que venham.

Tomando banho, penso um tantico: se é para fazer a mesma coisa, faça diferente. Eu faço. Procuro fazer. Quero fazê-lo. Que seja feito do meu jeito. Desejo tanto que o banho me permita a criatividade de achar o caminho que aperfeiçoe, minimize meus rancores, maximize os meus risos e sorrisos, e faça-me veículo à felicidade.

Não alegro quem se quer feliz? Fico cheiroso.

Quando quero ser encontrado pelo cheiro, ensaboo-me. Deixo que a espuma perfumada fique em mim por mais que cinco minutos. Relaxo com o cheiro bom que o sabonete tem.

No banho, sozinho, percebo e sinto. Acho dispensável, não preciso da solidão. Solitário, penso e raciocino: dane-se a conta de luz, pois a pessoa nascida para tomar banho tem mais que praticá-lo com ou sem alinhamento de seis planetas do sistema solar.

Se sigo pelo rastro que alicia por segui-lo?

Feito astrólogo com farta inexperiência, guardo o controle: se banho não suaviza bafo nem lava intestino, menos ainda quando as notícias sufocam de tanto metano dando coices na fuça, mudo de canal até dar com um que exale a dama-da-noite dos meus desejos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2024.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Orelha quente

 

Orelha quente

 

Os cinco aguardávamos o retorno do anfitrião, que saiu buscar mais gelo, pois eu contei que haveria cinquenta bebuns no churrasco.

― Só o nosso Luisinho pra marcar almoço a uma da tarde.

― Pois é, só mesmo ele para não imaginar que exista quem almoce depois do meio-dia, ainda mais numa segunda-feira!

― Não conheço ninguém que coma quase na hora do café.

― Eu sei de gente que come no meio da tarde porque entra às dez no serviço ou só faz um lanchinho à noite porque tem que economizar no que dá.

― Putz! Tirando o que possa, essa gente passa um cortado.

― E muitos não aguentam, daí bebem, bebem, bebem.

Antes que me tachem de beberrão, sim, eu tomo todas, mas só as latinhas e as garrafas que eu compro. Pela marca de meu gosto e pela despesa que prefiro assumir, eu sempre me alegro ao comprá-las.

À parte meu grande entusiasmo por eu agir como costumo agir, os quatro à mesa beliscávamos o que a Clotilde nos servia, uma vez que ela designou a si própria como churrasqueira.

Sequer o Aristeu, invariavelmente tão acerbo, quis palpitar sobre a altura da grelha, a mão do sal, a secura da picanha.

― Não vá se esquecer de dar uma viradinha nos bifes.

― Não esquente, Dona Cremilda. Eu estou atenta.

Sim, o clima era bom, estávamos pouco dispostos a polemizar. Nós conversávamos sem nenhum viés irônico ou pernóstico.

A Dona Cremilda, naturalmente acrimoniosa, nem se desculpou por trazer ao papo uma fake news, pois só poderia ser notícia falsa isso de os museus franceses terem se convertido em academia.

― Quê, turistas fazendo polichinelo na frente da Mona Lisa?

― Que mentira mais sem pé nem cabeça!

Seu Rodrigues procurou e encontrou, aquilo era fato. A organização dos Jogos Olímpicos saiu-se com essa, de que Run in the Louvre seria um programa oportuno e saudável, juntando esporte e cultura.

Aristeu sorriu, imaginava-se correndo pelos corredores cercado por uma juventude sarada, bem alimentada, só gente instagramável, sem ter que correr de pentelhos, pequenos monstros, certas caricaturas que são criaturas de carantonhas caras, de beiços botoxilizados.

― Ô Aristeu, vai ficar feito bobo sem dizer por quê?

Aristeu disse que os europeus eram cuidadosos da saúde do corpo, que eram instruídos, conhecedores do que faz bem para o corpo e para a saúde da cabeça, que eles deveriam ser imitados, e nosso povo sabe achar no mundo o que há de melhor, e a Europa é modelo pro mundo todo, não só pra nosotros, cucarachas.

Com manchas de mostarda e ketchup na camiseta, o dono da casa finalmente regressou.

Em vez de confessar que parou pra comer um cachorro-quente, ele reclamou que estava de orelha quente, uma vez que, certamente, seus bons amigos ficaram falando mal dele.

Sim, como se toda gente andasse carente de atenção e todo mundo precisasse de uma palavrinha positiva, ele gosta de trocar um plá sobre qualquer assunto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2024.

domingo, 2 de junho de 2024

Meu lado acidental

 

Meu lado acidental

 

Cantando daquele jeito, mole, língua enrolada, a boca entrevada na cachaça, o barítono só pode ser o Taborda.

Ao correr as cortinas, constato: com as costas na caçamba do lixo, a cabeça balangando ao sabor das palavras cantadas, com o vozeirão de ninar demônios, aquele Taborda é um ser humano único.

Para ir ter com ele, apresso-me no banho, ao vestir-me, beber café, não dar descarga, ao largar o telefone na pia do banheiro.

Pego o rumo do beco. Quero os porquês da sua cantoria, da tristeza na voz, da sua insistência na repetição daquele verso:

Não precisa medo, não.

Não me custa muito matutar sobre o que o dia tem pra hoje, sempre encontro motivação nesse querer descobrir o que faz uma pessoa agir como age, como avalia o que ela pensa que faz.

O Taborda de ontem, por exemplo. O cantor esteve mudo. A mudez foi temporária, pois a sua sanha de cantar carecia de álcool. Tomasse umazinha que fosse, a chama despertaria das brasas. Foi o que houve, tão logo obteve combustível, incendiou-se a cantar.

Mais neurótico que obsessivo, o cantador é outro.

Ele toma o último gole de uma garrafinha de corote, sabor melancia. No chão, entre as pernas, estão quatro garrafas vazias daquela bebida que tanto o consome, todas do mesmíssimo sabor.

Entoando o repetidíssimo verso, sem tremor, o manguaça enche as quatro barrigudinhas com Velho Barreiro, de cuja garrafa sequer cogitei de pedir-lhe para romper o lacre.

Terminada a operação, ele se levanta, confere se as barrigudinhas estão vedadas, mexe no lixo até julgar que seu tesouro está muito bem protegido e, numa rouquidão pouco acabrunhada, sapeca-me:

Todo dia é dia de viver.

Por viver um dia de cada vez, Taborda cuida bem das suas tralhas, tratando de mantê-las longe de quem as cobiça ou resolva cobiçá-las, acaso as veja e toque.

Apesar de cinquentão, sem que chuva ou sol o demovam, todos os dias, da alvorada ao crepúsculo, ele cata cacarecos. Seus braços são fortes por puxar sua carroça carregada do que garimpa pelas ruas. Às vezes, tem sorte de encontrar o cobre que ferro-velho compra; quando o dia se dispõe jururu, leva latinha, plástico e papelão à cooperativa de catadores na qual está filiado.

Taborda não se lamenta, porque a vida antes de vir morar no Brasil era terrível. Não havia escolha: ou ele trabalhava em plantação de coca ou, pra não pensar na fome, ficava mascando as tais folhas.

Revolucionárias, as mudanças são tão profundas, que o rapaz dos Andes não tem banzo algum do homem que ele ainda poderia ser.

Com celular na mão o tempo inteiro, mesmo gente como o Taborda sabe quem são esses escrotos puxa-sacos dos capitalistas que babam para cercar as praias de Rio, Minas e Bahia.

Sem receio de cancelamento por não querer os pobres proibidos de brincar em represas, ribeirões e mar, eu me açulo ao improviso:

Sou o mundo, sou Luana Piovani.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de junho de 2024.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Três pedidos

 

Três pedidos

 

O almoço entrou na lista de eventos memoráveis. Quem merecia a atenção recebeu mais do que a aguardada atenção, a pessoa louvada no brinde e à parte, a tão amada de todos, a todos era amável.

No dia anterior à celebração, às nove, ao telefone, à filha mais nova não ocorreu de se desculpar pela ligação àquela hora, mesmo sabendo que a mãe só saía da cama depois das dez.

Mamãe, confessou a insolente, eu estou ligando pra que a senhora não seja surpreendida, colocada em saia-justa, seja convencida a fazer o que a Marta tanto ambiciona.

Marta era a filha mais velha da mulher forçada a levantar-se para ir atender o telefone que fica na sala.

Mamãe, prosseguiu a imprudente, a Marta quer tirar de mim o único item que o papai não se importaria que ficasse comigo. Além disso, ela nunca se interessou em aprender música. Nem de ouvido, mamãe. Ela sempre achou sanfona uma coisa brega.

Nos álbuns que a mãe possuía, Marta aparecia cabisbaixa; mesmo no tempo em que o celular não existia, ela manuseava essa bugiganga tão somente desejada.

Mamãe, a descuidada finalmente perdeu a pose, a minha irmãzinha quer o doce mais doce apenas porque eu gosto, porque tudo que gosto dá nela essa comichão de me ver contrariada. Então, mamãe, eu peço que desculpe a honestidade, mas quem deu o exemplo de ser sincera em tudo na vida foi a senhora. Então, mãezinha, faça o favor, nada de dar à Marta a sanfona do papai. Até porque, eu juro que vou aprender a tocá-la nem que seja a última coisa que a vida me conceda.

Enquanto a caçula falava, a mãe arrancava dos vasinhos uns matos que teimavam em crescer, indiferentes à Lua.

Guto, que sempre clica a família toda, ligou depois do almoço.

Mamãe, disse o solteirão de trinta e três anos, ninguém segura uma sanfona como se pombos fossem defecar em cima dela. A ciumeira da Marta cheira à blasfêmia, porque sanfona não é bezerro de ouro, nem a Marta é nenhuma Salomé pra exibi-la que nem troféu.

Enfim, como a sugerir-lhe que palavra alguma poderia ser repetida, a senhora dê um toque, só insinue à Marta o semancol, mãe.

Na hora do café, ali pelas quatro, Marta trouxe um vaso, que a mãe ajeitou entre os demais. Não que as orquídeas antecipassem que tinha algo a pedir; de fato, ela cuidava das flores.

Deixe todo mundo babando, disse a matriarca projetando a próxima fotografia, empunhe o fole aberto, garota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2024.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Um cafezinho à toa

 

Um cafezinho à toa

 

O dia nublado, frio, pedindo café passado na hora, mas nada disso me impedirá de sair. Prevejo, alguma coisa será boa, muito boa, talvez eu fique besta, de pernas bambas, boquiaberto. E tal circunstância de sentir-me a um palmo do chão será convincente, essa coisa imaginada será igualmente boa, como essa chuvinha na minha careca.

― Se você quer ser agraciado pela sorte, amplie a probabilidade de que as forças obscuras da realidade o façam levitar por considerar os seus antecedentes, como ter nascido com a bunda virada pra lua.

― Luisinho, o sortudo não questiona, ele escolhe. Na bifurcação da estrada, ele nem petrifica por temer porcos-do-mato se prosseguir pela esquerda nem se precipita sobre os porcos-do-mato à direita.

― Aliás, a gente vive na cidade, então, a gente sabe que repelentes não eliminam ovos depositados em pneus ao relento, mas repelem os pernilongos, e isso basta.

― Cuidar do quintal, tirar da chuva o que acumule água é não dar sopa pro azar. Para não entrar na fila, implorando cura pra desleixo, o fundamental é cuidar-se.

― Procrastinador é outro nome pra azarado, meu amigo.

― A estrela da boa sorte costuma brilhar para mim quando eu nem a procuro. Pois então, fui comprar frios. Pedi à funcionária que pesasse duzentos gramas de peito de peru, recebi trezentos de presunto magro. Pedi duzentos gramas de queijo prato, o pacotinho continha duzentos gramas de muçarela. Só o salaminho veio certo, pois eu apontei o tipo que eu queria.

― Não foi a primeira vez que a funcionária deixou a desejar. Outro dia, ela demorou tanto que a minha boca fez bico. Desculpe a demora, é que o meu braço está machucado do final de semana, ela disse.

― Captei! Ela está pedindo para ser mandada embora.

― Mas, amigo, não vou reclamar do atendimento. Farei melhor, vou elogiá-la, direi que é a melhor atendente que conheço, direi que me faz começar o dia pelos frios, pra só depois pegar pães.

― Você é um gentleman.

― Sim, o camarada educado faz o oposto do que conta essa gente que sai no lucro com discussão e perda de tempo.

― Putisgrila! Se for para procrastinar, que apareça quem tem perna boa pra ter escapado dos porcos-do-mato.

― Ou venham os veterinários com seus dardos tranquilizantes.

Se me fiz entender, em dia de garoa intermitente e ventinho gelado, bom é tomar um cafezinho pra raciocinar sem ferver os miolos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de maio de 2024.

domingo, 26 de maio de 2024

Presente simples

 

Presente simples

 

Eu caminhando, o ônibus vindo, o ponto fugindo, a rua crescendo, o suor escorrendo, o fôlego encurtando, o passo encurtando, as pernas pesando, o ônibus parando, a boca amargando, o ponto esvaziando, o fôlego oprimindo, a roupa pesando, o ônibus partindo, os olhos vendo, o braço gesticulando, suplicando que pare, ofendendo que vá, uma vez que estou perdido, logo adianto que só me reste um ponto.

Vá lá, acabrunha-me o mundo.

São os ruídos do mundo que me aturdem e me fazem querer brigar. Escolho o ônibus, que ele é o dragão a ser vencido. Escolho a batalha, que a distância da esquina ao ponto move-se, contra mim ele se move. São os pneus que giram, são as setas piscando, estes detalhes estão contra mim. As pequenas coisas escolhem-me como alvo, querem que eu me apoquente, esquente, entre em parafuso, perca o pé, meta o pé. E são meus dentes que tornam mais excruciante o mundo.

Não perdoo o mundo que me põe imperdoável a meus olhos.

Quando acordei, na hora em que estou habituado a acordar, não fui lavar o rosto, faltava a vontade de urinar. Debrucei-me no parapeito e, sem temer tombar o metro e meio da janela ao chão, espiei e vi que as pessoas não passavam tão apressadas.

Observei-as como costumeiramente não faço, interessado, tentado a escutá-las, a reparar nos gestos, a traduzir-lhes as expressões. Para que eu estivesse em condições de imitá-las, a realidade tentava-me à desaceleração, ao passo comedido, ao fôlego sopesado.

Disposto a não me desgastar comigo, o agastamento teria que lutar para dobrar-me. Porque gente desacorçoada conquista a tranquilidade quando consciente do ar que respira, eu suspirei.

De suspiro em suspiro, quis sentir-me tranquilo. Vi a vida passando, mas eu não quis enfrentar-me, confrontar-me, pois cuidaria do dia.

Pra que a realidade não gorasse a semente, lavei o rosto com água fria, vesti camiseta regata e bermudão abaixo do joelho, calcei os tênis que não apertassem nos calos, pus fones pra ouvir as Quatro Estações de Buenos Aires sem me irritar com vozes aleatórias, caóticas, porque, aposentado, eu estou motivado.

Ontem, fui o Brasil batendo o Zaire por 3X0. Parece que foi ontem, fui Je vous salue, Marie passando na PUC-SP. Foi ontem mesmo, fui brotando por aí, fluindo o Beard dançando o bambolê ao som de Hello da Dragonette.

Por ontem e para hoje: mundo, algoritmotize-me!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2024.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Pequenos aborrecimentos

 

Pequenos aborrecimentos

 

Convidaram-me, eu fui. Os convidados conversavam amenidades, não desafinei. Uma vez que comidas e bebidas não foram servidas em bandejas de prata, eu comi e bebi com a moderação dos discretos.

Não nego que cheguei robotizado, afeito à linguagem educada que a timidez tornava mecânica. Para descontrair, bastava que os ouvidos me distraíssem. Havendo-me informal, posei de bom ouvinte, pois ouvi muito papo furado. Mas escutar, só escutei umas poucas pessoas.

Par a par com a digestão, a sonolência surgiu de mansinho. Em vez de opinar sobre o que seja, com tantos subentendidos, sorri. Pra deixar tudo muito bem complicadinho, beberiquei a coca, busquei o vazio, que o pigarro falasse por mim. Sem confetes ao bolo, saborosíssimo!, pus o pratinho numa mesinha de canto e saí.

Carambolas, eu precisava dormir.

Quando acordei, percebi que o cérebro trabalhou sem sobressaltos. Do evento concorrido, com tanta gente que eu não sabia quem era nem quis saber quem fosse, a memória dispensou-me das trivialidades. Da noite passada, destacarei o que me confiara a mãe da noiva.

Ela me apartou dos demais. O burburinho ficou abafado pela porta, que precisou ser trancada. Sentado no banquinho da penteadeira, dei-lhe a atenção que ela queria ter de mim. Como abri mão de piadinhas, ela falava tranquilamente. Para que eu não a aborrecesse, até evitei o espelho às minhas costas. Com ela parada junto à janela, também não demonstrei qualquer interesse pela chuva batendo na vidraça.

Foi gentileza conservar-me atento. Soube ser simpático, calado. Fui prudente ao não mencionar o meu deslumbramento, mesmo os pingos fazendo e desfazendo esboços, formas e abstrações.

A mãe da noiva trancada no quarto com um cronista? Ainda assim, apesar da cama de casal e das janelas escancaradas, trancou-se.

Por vinte minutinhos, nós granjeamos a má fama de nos havermos duplicados nos convivas da alcova num dia de bodas.

Sem padre e juiz de paz, a festa foi feita para que fossem trocadas as alianças, para que a mãe levasse sua viuvez pra cama de núpcias.

― Ela tá grávida, rapaz. A menina vomita; são os boletos atrasados. Seus pés incham; ela não deveria ter comido o escondidinho. Até água enjoa; alguém precisa lavar o filtro.

A gravidez da filha não era a pimenta que ela tinha para oferecer, a brincadeira era esconder que a futura mamãe a faria avó.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2024.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Quem odeia a Nona de Beethoven?

 

Quem odeia a Nona de Beethoven?

 

Com a meninada batendo bola na rua, de quando em vez a bola cai num quintal porque há quem exagere no chute. Não é hora de apontar o dedo para criança que se empolga, dessas que irradiam a brincadeira valendo paçoquinhas.

Veja você, a culpa não é do entusiasmo de quem senta uma patada que furaria a rede se houvesse uma, até porque euforia cavalar dá em qualquer um, portanto, por ser baixinha, a responsabilidade é da grade.

Pra ser trazida de volta, a bola caída no vizinho precisa que o garoto da bicuda vá buscá-la. Ou ele pede ao dono da casa que a devolva ou a grade baixinha não será problema, já os cães, serão.

Para alegria dos peladeiros da rua, quando a primeira bola passou pela grade, o vizinho fechou o livro, desceu os degraus e, até sorrindo meio maroto, devolveu a bola com uma cabeçadinha.

Sobreveio uma segunda vez.

O velho fechou a cara, largou o livro na cadeira de balanço e, sem devolver a bola com a cabeçadinha de pessoa simpática, sequer olhou pra garotada pasma.

Sem efeito, a gurizada gritava. Os cachorros não paravam de rosnar e saltar, porque um menino deu dois passos na direção da grade. Outro telefonou, mas o chato não atendeu.

Outra bola apareceu, uma zero bala, porque a irmã do menino dono da pelota estraçalhada pelos cães foi correndo comprá-la no chinês da esquina.

Precavida, a criançada recomeçou o bate-bola. Mas a contenção só poderia durar pouco. De novo, uma bola pingou diante das mandíbulas atiçadas.

Outra vez, o velhaco ignorou o alvoroço dos cães e o estardalhaço da meninada; já o chinês da esquina era só gratidão.

Certo de que “eu resolvo isso” era marcar um gol de placa, o pai do dono da bola não desviou o olhar da casa do outro lado da rua.

Sem dúvida, o dono da casa do outro lado da rua não seria babaca de não vir, imediatamente, atendê-lo no portão.

Depois de um minuto com as mãos nas ancas, o pai da menina que comprou a bola sacou qual a artimanha do adversário, então, atroz, ele fez a campainha virar sua metranca.

Como o idiota não entendeu inútil ficar pressionando a campainha, o proprietário da casa com as bolas esfrangalhadas ligou o som.

O diabo foi o senhorzinho pôr suas caixas na varanda.

Numa altura monstruosamente alta, era insuportável ficar na frente dos alto-falantes bombando no último, era impossível sobrepujar-se a essa maldita muralha sonora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2024.

domingo, 19 de maio de 2024

O nome da coisa

 

O nome da coisa

 

Tirando aquela gente de pouca intimidade que a chama de parceira, colega, vizinha, até minha querida, quem a ama, pelos laços de sangue ou pelo açúcar passado sobre o muro, é essa gente que a conhece por Das Dores.

Caio e Dodô, os filhos de Maria, arriscam mãe ou mãezinha quando precisam de dinheiro ou de colo.

Já suas amadas maninhas, Dolores e Socorro, enchem a boca para o mãezona de coração de ouro quando a carteira de Das Dores dá leite à prole que a mama de paixão.

As titias também soltam o verbo quanto às trapalhadas de cama e mesa dos pimpolhos pais de família, pois Das Dores tem que aprender a curtir os bons conselhos de quem nasceu para irmãs do zap.

Das Dores não sai da comunidade porque família é tudo.

Quando não se encontra o botão para desligar-se das tristezas, das lágrimas de saudade, família é lenço à mão.

Quando a alegria é coraçãozinho à boca querendo morder primeiro, regozije-se, porque família é espetinho na brasa.

― Eu dou conta de tudo, Jô.

Jô é Joelma, cujo nome é homenagem ao avô que foi voluntário no incêndio do Edifício Joelma. Não é que ela tenha medo de fogo, só não gosta de fustigar cinzas; quando preciso, ela é a primeira a se oferecer para soprar o mertiolate em machucado de joelho.

Desnecessário dizer, por redundante, que a amicíssima Jô sempre aparece nos momentos menos prováveis, como se fosse movida pelo mundo por um sensor de iminentes catástrofes, bastante improváveis a quem tem a vida pautada por coisas comezinhas, como levar criança na escola, fuxicar e ver os tratores descendo a XV na contramão.

― Nossa, Jô! Já faz um ano que fomos à gruta de São Sebastião.

Neste penúltimo domingo de maio, antecipando-se à passagem dos agricultores que ocuparão a praça da Matriz para outra missa campal, ela vai cedo ao supermercado.

Como não demora nas compras, Das Dores pode o luxo de sentar-se à sombra de uma arvoreta.

De repente, Das Dores chora; súbito, Jô abraça a chorona.

― Nem sei dizer o que me dá, Jô. Vivo precisando do carinho das amigas. Sexta passada em Santos, lá estava eu no papelão de chorar que nem criança. Para a minha sorte, um cavalheiro de terno e gravata me adiantou o seu lenço ou eu nem acenaria direito à Dolores, Socorro e nossa prima Dagmar que zarparam pra Búzios.

As rolinhas, neste ínterim, somem no céu porque fuligem e barulho tomam inteirinha a Rua Direita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de maio de 2024.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Donzela em apuros

 

Donzela em apuros

 

Menos pelos roncos, mais pela ansiedade de livrar-me das aranhas que, estorninhos em revoada, babam o casulo em que me transfiguram os pesadelos da realidade, acordei da pestana.

À vera, já que celular não come mosca de modo algum, fui acordado pela bateria de notificações dos e-mails recebidos.

De fato, chegaram oito, todos o mesmo e apenas um, cuja chamada era: A VERDADE SOBRE O SUMIÇO DA FELICIDADE.

Abri-o, e seu conteúdo era um áudio, no qual alguém falava de uma nota surgida em página policial de um jornal da Bulgária.

Se há jornais, há Bulgária! Tanto há que o topônimo aparece até no planisfério mais interativo que a internet permite acessar sem que, uma vez que anúncios animados obram por isso, seja cobrado uma pataca aos consulentes.

A voz disse que em Burgas foi lavrado o boletim sobre o ataque ao Khushiyon ka Jahaaj, navio de bandeira butanesa, ocorrido nas águas costeiras de Creta, nas cercanias de Zacros, ou Cato Zacro.

De quem seria essa voz?

Eu conhecia o timbre. Ela tinha marcado sotaque americano. Se me concentrasse, apesar da nota breve, era possível identificá-la.

Depois de tocá-la diversas vezes para que não alimentasse dúvida, a voz do narrador pertencia ao Marlon Brando.

Homessa!

Como a voz do Marlon Brando veio parar num áudio vinte anos após a sua morte? Neste mundão de minha nossa, existirão mistérios que a inteligência não tenha o destemor de convertê-los em realidade? Com uma chusma de satélites devassando a Terra, o Marlon Brando contar que um navio butanês tenha sumido sem deixar rastro no Mediterrâneo cheira mesmo a troço descabelado?

A garantir como bem pouco provável de ser inverossímil a narrativa, foram-me enviados mais três e-mails com a mesmíssima supracitada gravação.

Embora a fala sugerisse algum acento nordestino, o Marlon Brando ouvido bem parecia oriundo do Recôncavo ou do Jequitinhonha, quiçá um baiano de energia muito positiva pela mansidão da prosódia, como se ele estivesse sorrindo ao gravar, num alto-astral contagiante.

Não dei azar ao checar o fato n’O Patriota, cuja tradução automática é: Segundo uma autoridade do Departamento de Assuntos Marítimos, a embarcação Ship of Happiness, tendo por destino o Porto dos Patos, sumiu das telas dos controladores à altura do Corno de Tooxin.

Sem barca furada!

Se a felicidade são cama, fogão e geladeira, cinco mil compram.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2024.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Um centavo

 

Um centavo

 

A mãe manda que vá comprar pão, a filha obedece. Sempre que a mãe ordena, nem hesita. Se não é de questionar pedidos de adulto, da mãe, então, cada pedido é oportunidade para comprovar o tanto que a ama e venera, bem como a inveja.

Antes que o maninho se afobe, a garota pega o dinheiro. Sorrindo para si, atravessa a rua. Ignora que as buzinas a repreendam. Embora os cães não parem de latir, ela segue sorrindo para si.

Tem motivos para levitar, ela pensa.

Tão logo a declarem crescida, mandará nos filhos. Terá duas filhas e um menino. Por achar maravilhosa a casa em que vive, as suas filhas também nascerão antes do menino.

Quando as filhas começarem a ajudá-la, ficará brava e subirá a voz contra os enganos. O muito que possa, será educadora.

Pegará a vassoura, mostrará o certo, varrerá dos pés para adiante. Enquanto o sol não bater no quintal, deixará as camisetas penduradas pelos ombros. Usará uma colher de sopa para salgar o arroz na panela grande e a de café nos quatro dedos de água da abobrinha em rodelas. Apagará a luz ao sair de um cômodo, pois o ordenado assusta, fazendo que o vigésimo dia do mês anuncie a inadimplência ao vigésimo dia do próximo mês.

Para assegurar-se segura, feito mãe, mimetizará o exemplo.

Sorrindo, pede os pães. Com o troco nas mãos, a queijadinha pisca. Não é todo dia que uma queijadinha sabe ser tão simpática. A menina nem pisca, o doce está servido.

Abocanhando a queijadinha sem ligar de fazê-lo ali mesmo, diante do homem da padaria, a menina desencanta: sorri satisfeita. Uma vez que experimenta não se desculpar pela água na boca, a fazê-la querer mais uma, entretanto outra queijadinha lhe é negada.

O homem da padaria quer saber se a mãe dela teria autorizado que gastasse todo o dinheiro com queijadinhas.

Corada, a menina diz que pedirá à mãe. Com vozinha meio sumida, fala que, num pé, ela voltará. O novo sorriso é um até já.

Dito e feito, a toquinho de gente volta. Outra vez correndo, outra vez sem olhar para os dois lados, outra vez buzinam, freiam e latem. Outra vez a baixinha sorri a si mesma.

Uma vez que ela voltou com as notas que ele lhe havia entregue, o homem da padaria é todo sorrisos ao lhe apresentar a mais bonita das queijadinhas.

Mesmo que não volte para casa com um centavo sequer, o sorriso de gente feliz não dá à guria um ar de peralta, mas o de queridinha da mamãe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2024.