Uma
folga a menos
No melhor da festa, cortaram o som,
negaram bebida, trancaram o banheiro, devolveram os celulares, bateram a porta
atrás do último que foi posto para fora. O forrobodó durou o quanto quiseram, e
tchauzinho, pois, já domingo, o sol entrava em cartaz.
Aos domingos, depois da missa das dez,
Dona Cremilda vem pôr a prosa em dia. Quando desconverso, ela não pestaneja. Provavelmente
surda às palavras carbonárias do pároco, seu teste sobre o estado do humor são
as cosquinhas na carapaça: se este bicho só franzir a testa, estou natural. Ela
nota que minha testa franzida é dissimulação, porque o mel do meu sorriso não vem
da boca, deito-o com os olhos.
Poético. Contudo, por me conhecer há
anos, Dona Cremilda ignora a minha lábia e, direta, aborda o que lhe é importante.
Começa pela saúde: se melhorei da
tendinite, se estou tomando os remédios, se quero companhia pra ir ao médico,
se marquei a consulta, se eu ainda tenho anotado o telefone da clínica.
Pra coisa certa ser feita, ela pega meu
telefone, salva o número da clínica e agenda o alarme para nove horas do dia
seguinte.
Muito me apraz a sua presença. Não há
domingo que não venha. A cada vez, embora não a afete, peço que não se preocupe,
pois os seus cuidados com os outros vai envelhecê-la mais rápido.
Porque vai almoçar na casa de um primo, ela
abreviará a visita.
— Que coincidência! O meu primo também
completa 60 anos neste 31 de Março. Bem no dia que comemoramos a derrota dos
comunistas que pretendiam escravizar a nossa gente.
— Mas, o golpe não foi...
— Cabeçudo, não discuto com gente que não
ouve.
Não, ela não sabe quem é Elio Gaspari. O
presente ela já comprou, O mínimo que você precisa saber para não ser um
idiota.
Não sou de tergiversar, mas abro exceção
à Dona Cremilda.
Depois de três anos de amizade, não gosto
de espezinhá-la só para vê-la bufando. Favorece-a ter semancol. Controlo o
sarcasmo. Quando meu fígado está prestes a apoderar-se da minha boca, ela conta
piada. Infame ou engraçada, tanto faz, pois recolho os meus caninos.
Ontem, entretanto, mostrei-os ao
Honório.
Aos sábados, antes do almoço, quero
relaxar. Ou escrevo pouco ou nem começo a escrever. Se sobram as palavras, me interrompo.
Deito no gramado. Nem sei por quanto
tempo fico vendo as abelhas voejando. Me divirto. E faço as abelhinhas abusarem,
ficarem doidonas com o pólen a mais que o habitual.
Todavia, veio o Honório falar o que tinha
pra falar.
Que à porta do bar, um bebum vestido de
verde e rosa gritou:
— Olha a mangueeeira, geeente!
O enterro passava. Houve irritação. Os
mais irritados rezaram com paixão. Um dos carregadores do caixão deu com um pé
na mangueira que cruzava a rua. Com o caixão indo ao chão, foi aquela comoção.
— Bem que eu avisei; arrematou o
pinguço.
Sem pigarro nem soluço, sério no sarro, eu
disse:
— Honório, de coração! És o finório da
contação!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de março de 2024.