domingo, 28 de janeiro de 2024

Melhor não

 

Melhor não

 

É meio-dia. À porta de casa, espero o táxi que me levará ao médico. Irei ao urologista para a verificação anual do estado da minha próstata. Com tudo em ordem, não imergirei no lodo das neuroses.

Não me toco de que meu relógio talvez esteja adiantado. Desligado do instante, nem noto que a hora segue passando. Se usasse celular, poderia ter a hora num clique e o presente seguiria sendo agora.

Como nem atendo quando ligam, eu corri, certo de que o carro viria logo. Comigo a postos, à porta, mesmo sem telefone, logo ele virá.

Sim, isso não é um fato a ser relatado, é expectativa banal.

À porta, vejo as pessoas que passam, muitas têm olhos apenas pro celular. No entanto, não são as notícias que aceleram o mundo, são as certezas.

Quem duvida, pergunta; zanza atrás de resposta; por insegurança, vai e vem. Já a pessoa que não duvida, de pronto ela responde.

A TV assegura que a realidade não incentiva a paralisia da pessoa que destrava na cachola o fluxo, que o rio de eventos sem importância é o mundo a quem acredita que faz o que precisa para sobreviver e se distrair.

Inquieta, a pessoa que duvida não precisa ligar a TV, precisa ler os comentários às postagens incontornáveis de gente amiga e de gente cuja celebridade ratifica como verdade o que está compartilhado, para não ser mais um nome em meio a uma multidão de outros nomes sem rosto.

Travessa, na inquietude deste seu instante, a pessoa joga, aposta, e tanto se encanta da sua assertividade que ela avalia outrem como se aprovasse tudo. Sem condenar o que faz, a sensata faz graça.

Talvez eu devesse voltar. Pode ser que a TV ainda esteja desligada. Quem sabe ela esteja deixando mais fundo o buraco onde mal-estar e pânico criam unhas longas e recurvas, próprias a quem queira revolver o lodo até que os fatos fiquem à mostra.

Enquanto o táxi não chega, entusiasma-me ter outra ideia bonitinha.

Nem tenho tempo de pedir a hora ao Luisinho, que cruza a rua tão logo me avista. Quando chega sorrindo, todo expansivo, ele tem coisa importante para dizer.

De primeira, puxa o fio que nos satisfaça prosear como se fôssemos resolver as dores do mundo. Todavia, não palpitamos sobre o 08/01, 07/10 ou o 24/7, pois pouco acrescentaríamos sobre o quebra-quebra no Planalto, sobre a carnificina na Terra Prometida ou sobre a canseira que a sobrevivência provoca.

Não precisamos nos justificar. E quando o fazemos, Luisinho, é pelo sentimento de bem-estar. Ou seja, é por sermos vaidosos que falamos do café com pão de nossos regalos. Dizemos que me deleita falar bem de açúcar mascavo e, até emocionado, de manteiga de garrafa.

Nutro-me da hora que não sei qual seja, do táxi que demora chegar, da pessoa que se afirma pelo tanto que examina. Sim, alimento-me do que eu nem sei o que seja.

Será boa coisa indagar: de onde vem esse prazer que me atravessa quando me alieno dos remorsos?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2024.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

A cochiladinha

 

A cochiladinha

 

Sem nuvens no céu, maravilhosamente soalheiro, com temperatura amena, soprando uma brisa mansa, convidativo à voltinha à toa, este dia de verão veste-se de primavera.

Ao que parece, nada poderá estragar o momento. Concentrada nos processos da digestão, a mente divaga por ideias vaporosas como tirar uma cochiladinha ao sol.

Se tudo conspira para que vá, então vá à praça.

Embora não tenha a certeza de que o azul do céu e a mansidão do ventinho possam ser armas contra contrariedades, a flor da chateação brota justamente destas circunstâncias.

Quando a leveza é traço deste bem-estar surgido naturalmente, tal felicidade é ímã a quem muito se esforça para não chatear.

Vamos, iluda-se. Quando é saudável, a ilusão protege. Firme-se na sua vontade. Não rejeite quem procura alimentar-se da sua luz. Irradie-se, dê de beber a quem tem sede. Não se chateie, o mundo também é lugar de quem julga ter nascido para ser simpático.

Vamos, aperte o passo. Mude de calçada. Olhe pra frente. Siga em frente. Mude de calçada outra vez. Aperte o passo mais ainda. Resista. Confie que a pessoa simpática chegará perto de você.

Até que o chato chegue, até que o chato chame você por seu nome, até que o chato provoque o constrangimento de ser visto por você, vá adiante como se não tivesse tempo para adulações.

Mas o chato anda rápido. É mais rápido. Ganha pernas de gigante. Não corre nem desiste. Os ossos daqueles dedos cutucam seu ombro. Cutuca e chama você pelo nome. O chato tem voz de gente amiga que não se há de desprezar, não se há de sujeitá-lo ao desprezo.

Então esta pessoa vence, se faz ouvir, você a ouve porque não quer chateações. Mais que nada, você quer abreviado o constrangimento.

É o melhor para você. Primeiro pense em você, na necessidade de cochilar na praça. Depois, pense no sol, no céu azul, na monotonia das conversas, que as pessoas andam lentas porque almoçaram. Perceba, depois do almoço, ninguém corre, ninguém grita, nem gargalha.

Embora a pessoa que se quer simpática venha junto, vá em frente, sente-se. Ainda que esta pessoa desprezível sente-se com você, ouça o que ela tem a dizer. Seja você um poço de água cristalina, escute-a. Embora ela não saiba fingir que acha bom falar somente a verdade, dê ouvidos àquela pessoa tão natural, tão transparente.

Mantenha a firmeza. Fale como se tivesse interesse em papear.

O sol está bom ꟷ a simpatia concorda com você. Porque o sol está bom, as pessoas andam devagar porque devagar se chega ao caixa, centavo por centavo os boletos são pagos, dia após dia completa-se o ano, não é por cansaço que as pessoas ficam lentas, é por amor à vida; porque concorda, ela sorri. Gente apressada não curte o sol, até sente prazer ao pagar conta ꟷ sorri, simpática.

Como finge bem o apreço que deveras sente, é pela confiança nos sorrisinhos que você nem repara que cochila.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2024.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Alvo certo

 

Alvo certo

 

Chamaram-no. Uma vez que não estavam dispostos a explicações, indicaram a escada e, sobre a mesinha, uma lâmpada.

Foi dispensado o aviso de que modo a tarefa deveria ser realizada, mas ele subiu, rosqueou a nova lâmpada, acendeu-a, pôs a escadinha onde a pegara e jogou na lixeira a lâmpada que deu por queimada.

Houve decepção: em vez dos trinta segundos estipulados, tudo foi feito em quinze segundos.

Sem gentilezas nem generosidade, apontaram a mesa onde havia cartolina, pincel atômico, jornal, régua, tesoura e cola.

De ponta a ponta, ele folheou o jornal. Sentou-se no chão. Tirando a imagem de um homem sentado no meio-fio com as mãos na cabeça, ele recortou e colou na cartolina apenas a fotografia do burro levantado do chão por causa da carroça, pois, incluindo a meia dúzia de caixas, na carga bem amarrada constavam tevê, sofá, geladeira, fogão, mesa, quatro cadeiras, cama, colchão e guarda-roupa.

À vista do produzido: o primeiro cofiou a barbicha e marcou com um xis o item d) outro; além de marcar o X, o outro ajeitou os óculos e, no espaço pontilhado depois de d) outro ꟷ, escreveu: SEM NOÇÃO.

Sobre a foto do burro, ele não redigiu: a) burro é o homem; b) burra é a mente humana; c) a burrice é humana.

Apontaram uma área onde havia um tapete e uma TV, cujo controle remoto estava no assento de uma poltrona.

Ele ligou o aparelho. Havia canais e mais canais; a nenhum dedicou mais do que dois segundos de atenção. Todavia, houve um que o fez sentar-se. Havia música suave e cães, porque havia apenas isso, cães e música, ele não mudou de canal.

Pelos minutos assistindo àquilo, aproximaram-se. Entreolharam-se. Mas, o gatilho para que anotassem algo do observado foi o ronco.

Pigarrearam, em vão. Tossiram, ele recostou a cabeça no espaldar. De fato, foi preciso que batessem palmas para acordá-lo.

Efetivamente desperto, queriam-no perto de cavalete, tela, pincéis e tintas. Ao lado desse conjunto, sobre uma coluna romana de plástico, um arranjo era composto por bananas, peras, maçãs, goiabas, laranjas e um cacho de uva.

Ele não demonstrou dúvida. Foi às frutas. Comeu uma pera. Comeu uma goiaba. Como não havia faca, não tocou nas laranjas. Não comeu maçã alguma. A casca da única banana que comeu, ele foi atirá-la no lixo onde estava a lâmpada que achara apropriado trocar.

O homem de óculos assinou onde deveria assinar o funcionário que aplicou o teste; no prego da parede inteiramente branca, ele pendurou a prancheta e a caneta; com as mãos nos bolsos do guarda-pó branco, postou-se à porta.

No devido campo, porque sem linhas e sem pauta, o outro aplicador usou a régua ao registrar, datar e assinar a seguinte observação:

“Por amor a meu semelhante, indico que o ensaio seja aplicado sem interrupção até que, consciente da lição que os erros praticados dão, o indivíduo aprenda a perdoar-se”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2024.

domingo, 21 de janeiro de 2024

Uma atitude genial

 

Uma atitude genial

 

Sala de aula que não tenha fundão ativo na contracorrente do que se passa com os que sempre são obedientes às regras e aqueles que nem se importam com quais regras uma escola é feita, isso é ilusão ou apenas outra lorota.

Loroteiro o magricela quatro-olhos não era, preferia que o tratassem como ‘pessoa de imaginação elétrica’, de humor irrequieto.

Tanta eletricidade, no entanto, podia dar pane, causar cara de bobo e provocar desconfortos, os mais comuns geravam flatos.

Flatulento desde pequeno, o adolescente tinha crise de gagueira se a professora pedia a ele que conjugasse o verbo péter. Não o apetecia ruborizar-se, porquanto a voz lhe saísse cômica, algo idiota.

Para pessoa que se tomava em alta conta pela fuzarca, desastroso era assumir-se toleirão por completo, também pelo óbvio do passado simples do indicativo: je pétai.

Porque o congelamento da vida subsiste na memória, foram-se os dias de falar fazendo biquinho, oui.

No ensino médio, na carteira do meio da fileira, o bagunceiro tinha vacilos, mas, com mais escorregões que deslizes, ele patinava.

Embriagado pela sucessão de sucessos, o gênio tinha resposta pra tudo. Querendo riso, muito riso, querendo angariar gargalhadas, desde química orgânica a cadeia alimentar, o gaiato não ligava que estivesse cientificamente bem informado.

Yes, boys and girls, what a wonderful world.

À pessoa sensata, positivo é confirmar o que acredita: porque rir faz bem a quem provoca o riso, ele é provocante.

O baderneiro, que levava na lancheira uma garrafinha de groselha e um sanduíche de queijo, cresceu. Hoje, à mesa de professor, aquele senhor de rabo-de-cavalo grisalho não ignora o desejo de fumar.

Com a classe agitada, escreve na lousa. Bolinhas de papel cruzam o céu da sala, é escrevendo que ele reduz os bastões de giz. Para que os tocos irritem os rostos tagarelas, a maioria dos petelecos provocam irritação. Para que o cigarrinho termine quando a lousa estiver cheia, o guerrilheiro da fuzarca cessa os disparos.

Já que os alunos não gravaram o fumante artilheiro, ele sabe como converter celulares em câmeras.

Há sempre uma história sobre seus dias de estudante. Afinal, ali é a escola onde, por quinze anos, do prézinho ao colegial, ele vem sendo curtido nas virtudes da civilização.

Virtuoso nos petelecos, demonstra sê-lo com os tocos de giz porque houve um professor de português que o iniciou nesta arte.

Virtuoso pela torta holandesa que devora diante de alunas e alunos, ele lambe os dedos para que o filmem lambuzado da iguaria.

E a história que destaca é a que acontece no momento em que vai contando: ali, na classe, alguém está publicando as selfies em que faz biquinho para a posterioridade.

ꟷ Esta eu sei, profe, pois o meu pai disse o que é ꟷ como ilustração do que seja, essa pessoa tira uma foto da própria buzanfa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2024.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Verdadeira sorte

 

Verdadeira sorte

 

Da próxima vez, não me deseje sorte. Tudo saiu errado, e não estou exagerando. Tudo estava indo bem até que me lembrei da sua energia, então a coisa degringolou.

Eu própria me vi degringolada. O que fazia era como se procurasse fazer errado. Não que fosse conscientemente, era porque não confiava em mim. Pra realizar o que planejara, faltava a sorte que suas palavras me direcionariam.

Da próxima vez, não fale comigo. Não diga nada, pois eu não quero que me faça acreditar que deseja o melhor caminho para mim.

Se quer me ajudar, fique em silêncio. Ou, no seu pensamento, peça pra que não estrague tudo.

Farei as coisas de modo que, no fim, não mereça ser repreendida. De modo algum, não me empenharei pela minha própria decadência, ainda que me pergunte se lutei por menos injustiças.

Assedie, lembre-me de que eu posso mais.

Ainda que duvide das minhas capacidades, vou tentar. Serei capaz de acolher quem sequer conte que eu o acolha, pois tentarei não sorrir a quem cobra de mim que lhe seja um espelho. Não espelharei porque não preciso sorrir para quaisquer reflexos, ainda mais aqueles que não rendem. Ficarei entulhada no que tanto se quer despoluído, seja fio de água, córrego ou rio profundo.

Ainda que ache comovente, só transbordarei depois de cheia.

Sem nada do que reclamar, não procrastinarei. E lamentarei não ter bem-te-vis nas alamedas floridas. E limparei dos olhos as mágoas que não sinta, assim verei que não sou feita de nada.

Sou feita de obrigações.

Sou movida pela ventania que as bocas produzem quando falam de mim como se falassem de fulana. Enfatizarei as responsabilidades.

Deseje-me que eu responda pelas obrigações que realmente sejam suas para comigo, então, que haja respostas melhores.

Sou produto do vento que produzem.

Sei que fala demais quando fica empolgado com as promessas que faz. Não sou veleiro em mar aberto para que o seu blábláblá enfune as velas. Não navegarei em nenhum dos esgotos. Bafejado por sua brisa, boiarei onde o pau estiver podre.

E desejarei que haja bem-estar quando não mais houver. Desejarei que haja vontade quando as forças forem pífias. Por desejo e vontade, ansiarei que o fracasso leve ao sossego. Sobreviverei.

Quando o céu noturno for uma rede de pontos desconhecidos, será por minha serenidade que levantarei âncora. Seguirei à deriva até onde houver de ir.

Desejo-lhe a mesma sorte, pois isso não agonia.

Desejo-lhe a melhor sorte do mundo, a que serena e conduz à paz, que ela volte a durar.

Para além do momento, que a sua estadia, caso haja, seja pacífica, mantenedora da calma que é sempre a mesma, pois o bem-estar move as estrelas.

Há quem tire a alegria da felicidade?

Bem-aventurados os felizardos que transmitem apenas alegria. São bem-aventurados por conhecerem-na sem a temerem, porém o que luz n’alma é a reconciliação, senhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2024.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

A força do desejo

 

A força do desejo

 

O apagão pegou-o descendo a escada. Chovia forte, ventava forte, mais forte, porém, tinha que ser a sua temperança.

Não era o fim do mundo.

Descia a escada quando a luz acabou, então, passado o pasmo do sobressalto, a maturidade não o faria mais corajoso ou mais covarde, fá-lo-ia menos patético.

Não estava num fim de mundo.

Ainda que fosse a primeira vez naquela casa, ter descido diferentes escadas, ter pisado diferentes degraus milhares de vezes ao longo da vida, a sua experiência contava, isso o impediu de ficar gritando.

Embora estivessem no escuro, embora a voz fosse mais estridente, quem o conhecia não teve dificuldade para identificá-lo.

Pelo amor de deus!

Na pessoa da aniversariante, Deus veio acudi-lo. Uma vez que ateu pedindo por Deus era impagável, ela riu.

Apesar do chilique, ele bebeu da latinha que lhe ofereceu a amiga. Bebido um gole, ele também não resistiu. Sem dúvida, era ridículo ficar gritando no escuro.

Riram daquela palhaçada, que aquilo era coisa de chorão.

Não chorou, mas esteve bem perto.

Lembrou-se da madrugada passada: acordou fora da cama; estava sentado no chão; tinha os braços abertos, esticados; a palma de cada mão tocava uma parede.

Ainda que fosse a primeira vez que acordava naquela situação, teve calma, teve o mínimo de calma, não gritou nem quis levantar de pronto. Apesar do piso duro, continuaria sentado. Até que entendesse melhor o que teria acontecido, permaneceu de braços abertos, esticados, com a palma das mãos tocando as paralelas do corredor.

O corredor era uma certeza, existia, tinha lugar no mundo. Era uma construção sólida, real, fora erguido por mãos humanas. Não era uma abstração, era algo que podia tocar, algo que precisava ser reparado, tinha rachaduras, com a pintura manchada, embolorada aqui e ali.

Porque precisa de retoques, o corredor continua existindo.

É este corredor que liga a porta do quarto à porta do banheiro. Este corredor não difere de tantos levantados pelo sonho de quem não abre mão de possuir uma casa.

Deus dá àquele que pede, na sabedoria de pedi-la: que a casa seja boa; acolhedora: mais que propriedade, seja um lar.

Gente que deseja que os carnês de impostos não sejam cuspidos por impressoras como doses para santo beberrão, a casa seja boa.

Porque lar é mais que banheiro, quarto, sala e cozinha, é imperioso considerar que casa boa tem que ter quintal e varanda.

Uma vez que extremos são atraentes, mesmo vazias, a cadeira de balanço dista seis passos e meio da rede.

Seis passos e meio, pois sete é número feio, que gera fissura, que cria ansiedades. Seis passos e meio, ou a varanda dará passagem aos monstros que não desprezam oportunidades. E monstros de sete faces tiram sarro da gente.

Enfim, não passo por idiota quando comparo escada com corredor, até porque fazer xixi no meio da festa é incorrigível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2024.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Entreato

 

Entreato

 

Há uma hora a apresentação terminara. Ainda que a noite fosse de frio e garoa, o público retirara-se sem retardatários. Também atrizes e atores não demoraram nas coxias. No palco, no foco de um canhão de luz violeta, no entanto, resta o guarda-noturno.

Para ocupar o lugar onde está, foi preciso ir trancar todas as portas; inclusive é seu dever desligar todas as luzes, menos uma, a lâmpada que fica na marquise da frente do prédio.

Porque deseja aceso apenas o canhão de luz violeta, e receoso de queimá-lo caso religue a lâmpada antes que esteja completamente resfriada, vai desligando um a um os holofotes.

Pagar pelo dano, terá condições de fazê-lo, contudo afundará mais ainda a cabeça no travesseiro. Se é homem de responsabilizar-se pelo que faz, não é capacho a quem o queira sujo das vilanias alheias. E o canhão, afinal, deveria estar apagado.

Por ser uma brincadeira, uma experiência íntima, não é travessura de cabeça oca, não é safadeza, não é coisa para deixar envergonhada uma pessoa, é só uma vontade sem nada demais.

“Vamos! Antes que o suor deixe fedorento o uniforme, Claudiomiro Malaquias, tire ao menos a camisa.”

Ora, ele se desnuda porque tem motivo para deixar o dorso nu.

“Madalena iria dizer que isso é porque a Belisa passou a peça toda de peito de fora e pai de respeito não tem nada que ficar imitando essa gente do teatro, porque essa gente do teatro não levanta às cinco para bater o ponto às oito.”

No cenário, a jarra de água é de verdade. Ele bebe um copo porque a sua sede não é de mentira.

“Ninguém vai reparar que tomei um gole. De jeito algum. Não é por despeito que tomo um copo, quem sabe eu tome dois.”

Beber da água não lhe dá a sensação de fazer algo errado. Com a mão esquerda erguendo no ar uma caveira de cristal, ele discursa:

ꟷ Bom Rei, Guardião Soberano da Dinamarca, sou vosso vassalo. Mas vou parar de ser vosso criado porque Vossa Majestade tem pisado na bola ultimamente. Talvez o Senhor nem perceba, mas Vossa Alteza tem feito muita cagada. Não é legal o Senhor usar os pratos da justiça para açoitar quem tanto O venera. Guardião Soberano do Trono, não puna quem à Vossa Graça tem dito a verdade que precisa ser dita, que o povo tem fome. Não difunde mentira quem diz que a fome grassa na Pátria Amada. Porque somos fiéis leais ao Trono, seremos leais e fiéis a quem traga justiça e paz depois que o Senhor vier a ser apenas outro senhor, outro senhorzinho de barba grisalha, talvez outro barrigudinho adorável, alguém que saiba contar piadas como ninguém.”

Falando à caveira enquanto a devolve à mesa de Dom Perlimplim, ele emenda:

“A minha patroa quer que eu largue este emprego. Ela espera que eu trabalhe com o seu irmão. Ela fala que ele não explora, que ele paga o justo, ele valoriza quem não enrola. Quando a pessoa não faz corpo mole se pedem que pegue pesado no serviço, ele paga sorrindo.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2024.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Mas que maravilha!

 

Mas que maravilha!

 

Quando me pedem para aguardar um minutinho, penso que tenho paciência na medida ꟷ esse minutinho, não cinco. Só que há no mundo uma gente que sabe se pôr no lugar do outro, gente que pede desculpa por deixar esperando por oito, nove ou dez, porque é quem realmente se incomoda quando a espera passa dos quinze minutos.

Também pratico a simpatia. Demonstro quanta educação eu tenho, assim é que nem esculacho quando a providência necessária não tem desfecho, qualquer desfecho.

Quem passou sessenta anos até que fosse merecida a preferência nas filas, tenho consciência da paciência que trago acumulada.

Mas acumular não é poupar. Se não tem jeito, entro na fila e escuto as conversas. Minha paciência é com a fila, pois eu reajo ao que dizem. Falam em público da vida privada, aborrecem-me, me quero surdo.

Ocorre-me que vou ao banco. Preciso que um funcionário livre-me da incerteza: tenho direito ou não a um empréstimo. Mesmo sendo dia 10, quero ser ouvido e orientado.

Em todo dia 10, um gênio sobe das catacumbas da minha natureza porque tenho obrigações para com a sociedade.

Com ânimo para não me renegar, decido acompanhar a celeridade dos dedos que, outra vez, digitam meus dados porque, como sempre, preciso autorizar que minha identidade seja confirmada pelo sistema, conforme às morosidades do sistema.

Pelas mesmíssimas opções que ainda não abjuro, precisam ratificar o que digo, reafirmo e dou fé. Então, apesar da alegria que é ter o olfato em condições bastantes pra exumar na flatulência das bocas ꟷ não os fiapos de frango intocados por um fio dental mas o arroz com feijão que confirmam o que digo ꟷ, falo com calma, pois meu hálito exala anis.

Gosto de falar, mas é dia 10. Mais um.

Alma que a todos ama com amabilidades de cínico, sorrio a quem percebe que não me esforço pra ser este cidadão conscienciosamente paciente, e emudecido.

Outra nuance do acúmulo. Quem acumula paciência não coleciona perfis de impacientes, tagarelas, de gente que não para de reclamar.

Se posso ser dez todo dia 10, justamente porque hoje é dia 10, não vou me apresentar como um camarada submisso.

Antes que a vontade de escutar música convença-me a ficar na fila, ouço a razão: o dinheiro não vai evaporar de um dia para outro.

Como quero ter crédito amanhã, vou chupar sorvete.

Entro em outra fila, mas não me incomodo, uma vez que o quiosque fica numa praça.

Com árvores, com frutinhas em muitas destas árvores, não demora e um passarinho de plumagem em tom vermelho vivo pousa.

Esta ave começa a cantar. Encantado, entro no ritmo do seu canto. Como eu não quero que ela voe e eu acabe sem conhecer-lhe o nome, fotografo-a e o buscador identifica-a: tiê-sangue.

Aparece outro passarinho, cuja cor é marrom-avermelhado na parte inferior. Nem preciso fotografá-lo, pois as aves não brigam, fazem artes de macho e fêmea.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2024.


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Algo errado

 

Algo errado

 

Cismei daquela cadeira, que ela era de encantamentos. Até a cisma de mais cedo, eu nunca a concebera mágica.

Mal sentei, vi minha intuição puxar por um quê de fantasia, ou teria tomado café no lugar de sempre, à mesa.

Não que a realidade ande mais desabusada, sou eu que ando mais assanhado. Por mais assanhado, tenho sentado mais. Mais ansioso de encontrar o que ando mais tentado a procurar, quiçá eu ache.

Não sento apenas por cansado, ando sentando mais porque espero que a magia do mundo seja revelada, para que perceba que não estou sozinho. Mesmo desacompanhado, sento onde não tenho o costume, e o pensamento faz com que eu ignore o que seja solidão.

Pelo estranhamento de estar ignorado na cadeira que normalmente não uso, desejo que os meus olhos não me confundam.

Se ainda não vejo, sei que tal mundo ainda invisível existe, uma vez que é pressentido. No súbito de mim, pressinto-o eu.

Então, o pensamento vem à mesa.

Eu vejo. Pelo que vejo, aprendo. Estou sentado no lugar de sempre. Tomo café e como pão. Pelo tempo de sempre, faço o que tenho para fazer. Sem maiores felicidades, cumpro o propósito de sentar-me para o café de todas as manhãs.

Vejo o meu fantasma ser eu mesmo por mais uma rotina, e não fico mais satisfeito pela visão objetiva de mim mesmo. É outra chatice.

Da cadeira que não uso, vejo que vou ler jornais.

Sou contra as guerras porque sempre fui pela extinção dos estados nacionais. Contra os exércitos, sempre fui pela abolição das fronteiras. Contra a morte estúpida, quero a vida. Sou pela vida não apenas banal, sou sempre por uma vida mais solar, mais alegre e festiva.

A leitura alegra a alma carente de festanças.

Meu avatar lê sem pressa. Não se apressa, pois seleciona o que lê. Sobretudo, novidades de bastidores. Sem encolerizar pelas fofocas, o avantesma lê com vagar, divaga e volta, retoma o lido.

Divagando e recuando, avançando e recuperando-se, a minha alma vence o mundo dos fatos. Cortando os galhos do caminho, ela ganha musculatura, exercita neurônios, flexibiliza a mente, torna-me gentil. E não digo nada que magoe ou entristeça. Quero-a esperançosa de que amanhã, e depois de amanhã, o mundo estará na mesma, gentilmente traduzido pelas notícias.

Ao duplo, nem preciso pedir-lhe que leia relatos de ganhadores de loteria que pagam cachaças a quem sabe que a salvação da lavoura é tornar-se saúva.

Duplo, meu caro duplo, ainda que o bule esteja pela metade, conto com que a mente não fique alvoroçada pelo excesso de café.

Muito além da desesperança, as bets prosseguirão online para que homens e mulheres vibrem, e sigam vencedores. Como a manhã trará sugestões certeiras, as crianças e velhos torcerão pra que os cassinos paguem impostos.

De café tomado, já altruísta restaurado, conto comigo para ajudar o mundo a mudar, começando pela cozinha que eu mesmo varrerei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2024.

domingo, 7 de janeiro de 2024

Um momento difícil

 

Um momento difícil

 

Como outro qualquer objeto, menos pelo emprego a que o engenho humano destinara no seu fabrico, recai no abajur que seja outro detalhe a poupar os olhos das feiuras do mundo. Porque sala de estar é o canto do mundo para estar-se sem os entorpecimentos por monocromia, pô-lo junto da janela saturará em grená o olhar. Porque, também, o verde-musgo dos encostos e o vermelho-castanha do abajur harmonizam-se, a dona Caco coloca-o entre as duas poltronas.

À dona Caco incomoda que a leitura fique dificultada pela claridade baixa; intensa, todavia, seja a paz de quem se acomode naquele canto, de cujas paredes, outra vez recobertas pelo exclusivo papel de flor-de-lis dourado sobre fundo carmesim, não foram exilados os retratos.

Aquelas de lá, do passado tantas vezes louvável, são mulheres que seguem sussurrando o que seja apropriado a saraus.

Vê-se que dona Kika, mãe da Caco, não precisa munir-se dos livros para recitar os sonetos que a embalam ao luar da sua mocidade.

As teclas do piano de madame Chica, a mãe da mãe da dona Caco, dispensam metrômetros para bem temperarem Bach.

Na versão de corpo inteiro de todas elas, nenhuma teme empunhar chicote para trotar pela estância. A todas, da bisavó da bisavó da dona Chica, todas elas amazonas de impressão garbosa, sempre lhes apraz alinhar-se no lombo de alazão tostado.

Na carne viva de sua circunstância, é lamentável que esteja só. Pois dona Caco não prepara chás, não assa bolos, não coze nem arroz nem feijão. Do que sabe, sabe-o pelos tutores que enciclopediaram-na dos trabalhos de Hércules, das safadezas de Baco, das conquistas de Ciro, das maquinações de Próspero. De lenha para o fogo, de fermento para a massa, de panela para o que for, sobre este cotidiano tão doméstico, dona Caco entende-o como um desagregado latinório.

Sozinha em casa, perdida na própria casa, uma vez que aconteceu alguma coisa grave, coisa gravíssima, com algum parente próximo, de fato próximo, em algum lugar distante, num lugar realmente ermo, dona Caco passa por apuros porque se acha abandonada.

A vida anda injusta ultimamente. São dias tristes, pois uma pessoa de inteira confiança tem o direito de abandonar quem a considera como membro da família. Apesar da consideração, a ingrata prefere ir cuidar dos seus, em vez de ficar no posto para merecer que ainda seja tratada com respeito pelos serviços prestados, devidamente pagos.

Se dona Caco tem que ser quem vai comprar um copo de café com leite e um sanduíche de queijo fresco, ela é a pessoa certa.

Mesmo que tenha achado só um sanduíche de peito de peru, dona Caco está orgulhosa.

Dando voz a um automatizado pragmatismo, a funcionária fala:

ꟷ CPF na nota?

Como a abordagem revela-a desamparada, dona Marcolina Bartira Ramalho Olivares Urtigão Penteado diz:

ꟷ Virgem Santíssima das Mercês! O que é CPF?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2024.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O amor está no ar

 

O amor está no ar

 

O cão antecipa-se ao cronista, que se vê instigado a interromper a leitura das notícias pra embalar-se noutra doidice tão natural.

Desta feita, é crível dar-lhe razão, porque aquela cadelinha passou junto ao muro, requebrou-se beco adentro, pôs-se a brincar no córrego que corre nos fundos do quintal.

É razoável esgueirar-se pela grade, tentar repetidamente superar o muro e atirar-se à água, não para extrovertê-lo, para saciar-se nele, no fogo que tanto late no espírito.

De fato, é-me compreensível tal loucura, pois não conheço pessoa que fique indiferente a um cheirinho bom.

Felizmente, nunca fui de resistir a salsichas.

De miúdo, vindo da escola, mal cruzado o portão, não havia mundo, apenas a panela. Mas, tinha que ter pão. E o miolo precisava ser tirado, pois imprescindível era exagerar no molho, nos anéis de cebola.

Sempre sou de comê-las pelo nariz, refocilar-me no molho, devorar só mais uma, só mais outra, que me baste só mais uma outra.

Sempre me asseguro que vou pelo mundo a bater-me pelos pães, que preciso ir pelos pães, jamais me faltem pãezinhos porque tranças, vinas e tomates não hão de acabar nunca.

Ao cão pouco se lhe dá que me norteie alegre ou triste, pois ele não carece de alimentar sua alma, tanto pelo que me fortaleça quanto pelo que me faça jururu.

Azar o meu que só sei latir por imitação.

E o cachorro entende que não precisa observar-me galante. Ele não é gato nem coruja. A espreitá-lo todo animado com a cadela cheirosa, eu é que fico elegante na minha curiosidade sutil.

O cronista nota que o cão não o ignora, porém o bicho não se coça por mim, que estou melindrado, meio borocoxô.

Coisas boas são as águas do riachinho que correm, os passarinhos que piam e os miquinhos que saltam nas copas.

Coisa boa é aprender que o cão e a cadela não ligam que qualquer pessoa fique olhando-os fornicar, eu aprendo na prática.

Eles copulam, ganem, ficam indo pra lá e vindo pra cá, até que haja o desengate. Quando há, eles se lambem, tão ansiosos.

Eu assobio pra que volte, todavia o cão vai atrás da cadela. Não irei atrás do meu cachorro, porque seria ridículo. Em vão, eu o chamo pelo nome, porque a cadelinha exala o que seria estúpido eu querer ter em mim, aquele apelo inconfundível.

Poderia dizer que lhe daria tirinhas de alcatra, que ele tanto gosta. Para que ele saiba que não estou blefando, poderia ir buscar as tirinhas de alcatra. Pra me convencer de que comer carne é prazer equiparável a copular, berro que tenho já os cubinhos de acém.

Se cadela e cão estão embriagados, que valha o pensamento: uma brincadeirinha improvisada suplanta cerimônia bem cronometrada.

Meu cão chama-se Rex. Sem fru-frus, o sabujo não faz truques por cortesia, só os faz por lhana picardia.

Não temo que terá fugido, mas, meu rei, juro-lhe que arrumarei uma dálmata tal qual a que nos tira do sério.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2024.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

As brisas do Ano-Bom

 

As brisas do Ano-Bom

 

Como tanta gente que aproveita a Virada para listar as coisas boas que deseja realizar no ano que está começando, paro um pouco e, pra não azedar o humor dessa gente prenha de boas intenções, rememoro a parte boa do que fiz à zero hora do Ano-Novo.

Enquanto outros celebravam com taças de champanhe, eu dormia no escuro. Como certas práticas são mais fortes que minhas ambições, deitei-me assim que o sono tornou patente que o melhor que eu podia fazer era voltar à TV quando estivesse menos babão.

Não vou polemizar, porque tenho certeza de que a queima de fogos da passagem foi tocante àquelas pessoas que pularam as sete ondas, vestiram-se nas cores que expressavam os votos pro ano vindouro ou, simplesmente, bebemoraram pra dedéu.

Dormindo sem sonhar que despertaria de ressaca, precisamente à meia-noite, fui agraciado com uma explosão de luzes, sons e cheiro de pólvora. Pois bem, virei de lado, cobri a cabeça com o lençol e puxei o ronco de sempre.

Senhoras e senhores, a vocês que beberam, cantaram e dançaram, a vocês que nem souberam que não bebi, não cantei e não dancei no réveillon, ainda que nem imaginem que também passei bem pela meia-noite, desejo que o futuro Ano-Bom seja ótimo, e haja fartura de comes, tenha muitos tim-tins, que o borogodó corra solto no forrobodó.

Para que sejam boas as festas de fim de ano, sento e reflito no que posso dizer. São sete as coisas que preciso fazer ou os próximos doze meses resultarão em travessia de costelinhas mal digeridas.

ꟷ Em janeiro, tive férias tropicais em um chalé quase suíço, todavia, depois de quatro horas grudando na garganta a terra batida, eu aprendi que não tenho de trabalhar para pagar boletos, farei dívidas pra forçar-me a saldá-las.

ꟷ Embebido dos rebuliços da alegria, beberei café de gole em gole, nunca de golada em golada, pois copo de vidro não tem que virar cacos somente porque me submeto à cautela, tendo-a já perdida.

ꟷ Apesar do frisson de safar-me das mais simples tarefas, a quem me enalteça pelos méritos que não valorizo, direi que a fortuna é vera porque a graça, ainda que demore outro dia, há de alcançar quem pode e deve ralar, e sopra que tem de ralar pra caraca.

ꟷ Na pescaria, a minha calma canse a carpa ou o marlim. À mercê das águas, resistirei ao tédio, seja à margem do córrego a que chegar numa pernada, seja a bombordo do barquinho no marzão sem gaivotas nem pelicanos.

ꟷ No boteco às três da tarde, saborearei o meu bauru sem nausear-me com a política verde-oliva de quem se anuncia contra aborto, contra transferência de renda, contra carro elétrico, contra o vento.

ꟷ Sem temer que me caiam na cabeça um abacate ou outro, apesar das saúvas incansáveis, seguirei sossegado, lendo Rubem Braga.

ꟷ Os fatos revelar-me-ão um quê satisfeito, outro tanto ressabiado, e, a depender do mormaço, bastante arejado dos porquês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2024.

domingo, 31 de dezembro de 2023

Inzoneiro

 

Inzoneiro

 

Por respeitadoras, só depois de autorizadas é que as crianças vão às cadeiras. Preocupadas porque outros podem chegar antes, ambas transformam a ansiedade em balanço. E pela alegria de disputar entre si, cada qual ambiciona ser a primeira a ver o cruzeiro de cima.

Ainda que a capela seja singela, dê uns seis metros de pé-direito à singeleza, a cruz que encima a cúpula desafia a infância a passá-la um palmo, mesmo um palmo de criança, que essa ventura excite.

Refreada nas excitações, a terceira criança não pode sair correndo, ela grita, agita-se, grita mais alto porque voa um passo pelas mãos de mãe e pai que não hão de liberá-la, ela mesma nem precisa saber que a sua euforia torna manifesta a felicidade que vivencia.

E que leveza a família experimenta na pracinha.

É domingo, mas é um domingo diferente. Com a banda que desfilou pelas ruas do centro, é um dia especial desde a alvorada. Se o almoço teve os clássicos frango assado e macarronada, a tarde é memorável porque o coreto da Capelinha do Bom Jesus da Prisão dá palco a uma série de atrações.

Bem que o pai e a mãe desdobram-se, esforçam-se, tentam exercer igual controle que têm sobre o primogênito e a filha do meio, porém um entusiasmo solar não deixa as baterias do caçula descarregarem.

E o pequerrucho quer porque quer ficar pertinho do homem de luvas brancas e de capa e cartola pretas. E o menino ri, bate palmas, chupa o dedão porque o homem faz o que fala, tira buquê de cravos da cartola e puxa lenços, lenços e mais lenços pela boca afora.

Uma vez que é verdadeiramente inocente nos seus quatro aninhos, o guri não sabe que nenhum truque é comparável à apoteose de ficar com todas aquelas moedinhas lavradas detrás de orelha daquela gente que, magicamente, o aplaude por invejar-lhe o talento.

Todavia o coreto acolhe aquele esquisito, estranha-o o pimpolho.

Tanto o sujeito faz a bailarina rodopiar, faz malemolente a parceira, trata-a como se não tivesse ossos, assim faz crescer o estranhamento, faz mais desassossegado o fedelho.

O garoto não sorri, só observa aquelas piruetas. O incomodado não para de estranhar aquelas cambalhotas, tão angulosas, fora de prumo. As cores na cara não o deixam ver que o homem é aquela pessoa que põe os sonhos à altura da baba, e ele tem apenas que abrir o berreiro pra que lhe seja dado um.

Babando-se todo fofo, tão maluquinho ao chupar o dedão do pé, ele tagarela e tatibitateia, já molhando o short.

Quem conhece o caminho não precisa voltar por onde veio, então, assobiando ao trocar o impressionado, a mulher faz mais alegre o Tico-Tico no Fubá.

As nove violas muito afinadas da Orquestra de Violas da Terra Preta empolgam com Asa Branca, Luar do Sertão, Aquarela do Brasil, Garota de Ipanema, Festa de Arromba, O Calhambeque do Roberto.

Assim que Datemi un Martello termina, o violeiro-mor vibra:

ꟷ Feliz 1968!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2023.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Lado a lado

 

Lado a lado

 

Temos caminhado, eu sei. Do jeito que podemos, vamos indo, você sabe. Vamos caminhando. Não paramos. Mesmo cansados, topamos seguir sob pressão. Que o momento peça-nos mais entrega, topamos atender o que é pedido.

Atenderemos, não seremos beligerantes. Viveremos sob demanda. Ainda que haja desconfiança e medo, desejaremos experimentar o que nos esteja proibido de aprender. Caso seja preciso, aprenderemos com a faca nos dentes, aprenderemos ainda que nos faltem os dentes.

Por isso, não paramos de suar. Embora suar seja consequência de caminharmos, prosseguimos. Mesmo suando, não desistimos. Mesmo fedendo, não deixaremos de continuar, e andamos.

Ainda que suados, cansados, com bolhas nos pés, caminharemos sempre. Nem que essa nem seja uma necessidade nossa, precisamos aprender que certas demandas que nos dizem respeito precisam ser percebidas. Ainda que estejamos suados, iremos em frente. Ainda que ziguezagueando, que nos seja imperativo parecermos perdidos, ainda assim, simularemos que vamos a esmo, e seguiremos em frente.

Você e eu precisaremos aprender que precisamos nos esforçar; as bolhas que podem ser evitadas precisarão não ser. E sofreremos. Você e eu não sabemos como tornar estimulante o esforço, e continuaremos caminhando. Ainda que você e eu nem saibamos que vamos em frente, nós iremos, daremos esse passo adiante.

E não vamos juntos, sabemos. Não pararmos de caminhar, isso não é novidade. Nada há de novo na caminhada. O novo, nem a você nem a mim o novo não nos aproxima. Antes, o novo afasta-nos.

Novo é sabermos que não estamos juntos, fomos ajuntados, fomos aproximados. Sem que nos déssemos conta da proximidade, seguimos próximos. Sem sabermos por que estamos juntos, nem paramos.

Por estarmos tão próximos, podemos cuspir um no outro. Sabemos que podemos atingir-nos com as nossas cusparadas. No entanto, não cuspimos. Nem olhamos de lado. Porque saberemos fingir, sequer nos olharemos de soslaio. Mesmo que possamos querer, não cuspiremos um na fuça do outro.

Que cada um cuspa no outro quando ninguém estiver vendo.

Eu, por exemplo, não olho de lado. Evito que nos encaremos. Você, por sua vez, me encara com raiva. Aprendermos a conviver, desde que forcemos a convivência. Sigamos intolerantes, você e eu saibamos nos suportar. Cegos e cegados, prosseguiremos.

Por não nos querermos iludidos, ainda que aprendamos a fingir que não estamos, saberemos que a caminhada não será menos cansativa sem que nos seja preciso desejarmos que nos seja uma jornada mais aprazível, mais deleitável, bem mais produtiva.

Pra sermos bons no que fizermos, aprenderemos a melhorar a cada dia. Para atingirmos a excelência, melhoraremos. Para prosseguirmos na jornada, viveremos um fracasso de cada vez.

Pro lobo que me fizer de lobo, pularei na casca do ovo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2023.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Objeto do desejo

 

Objeto do desejo

 

Sem quizílias momentosas, às sete, saio para a minha caminhada matinal. Só não ando nos dias de chuva forte, uma vez que as roupas ensopadas seriam mais do que peso no lombo, elas fariam da cachola um disco arranhado: sua anta, sua anta, sua anta.

Hoje, porém, a anta que aparece é aquela que gosta de suar porque o sol brilha e faz calor, ou seja, é um ótimo dia para não bobear.

Sem me vislumbrar morto por pneumonia, saio às sete pra voltar às oito. E eu volto satisfeito pelos cinco quilômetros caminhados sem que fosse apezinhado, sequer pela ideia de suportar-me maratonista.

Dispor dessa hora pra relaxar pelas canções que a memória sabe de cor, isso tem preço: minha rabugice fica educada, sem dar picos de ironia nem fossos de rancor.

Seu Rodrigues na versão medíocre, por óbvio.

Com as ruas vazias por conta do Natal, não tenho que me prender ao cidadão sem medo de ser simpático porque não temo que surja um sabichão com mil e uma opiniões.

Pelas circunstâncias tão aprazíveis, o feriado permite que aproveite melhor esta caminhadinha das manhãs.

Aproveitá-la quer dizer que eu estou dispensado de pensar o quão magnífica é a vida porque lojas fechadas não vomitam pacotes sobre as mãos estressadas, desairosas até com celular.

Porque estou sossegado de ter garganta seca quando me solicitam o posicionamento crítico sobre a mais recente cretinice da celebridade mais quente do momento, nem trouxe a garrafinha d’água.

Se meus beiços não salivam diante da vitrine vinda ao mundo após a inauguração da loja, salivo ao recordar como foi realizada a reforma: os operários só apareciam aos domingos e só começavam a trabalhar depois do almoço ꟷ depois de comida a marmita trazida de casa.

É Natal. E Natal costuma ser assim, um dia tranquilo.

No sossego de um dia como o Natal, percebo certa paz.

Ainda que a percepção desta paz seja sectária, posso demorar-me na rua, na calçada, na observação do interior deste comércio cuja porta foi aberta uma semana antes do Natal.

Embora curioso quanto aos negócios do mundo, este meu instante é regalia da qual desfruto, porque, pelo reflexo que meu olhar encontra, vejo-me abrandado, sem nenhum traço de atribulação.

Se agisse feito glutão dominado pela sovinice, precisando me livrar dos restos da ceia, não me divertiria como detetive que especula onde a harmonia entre as forças: centrífuga, que é a vontade de tomar água; a centrípeta, que é esse desejo de passar pela vitrine.

Sorridente, eu saúdo a inteligência que pôs aquele hidrante aos pés dos pôsteres da Estátua da Liberdade, da Golden Gate, da Cloud Gate, da CN Tower.

Ainda que não opere como bebedouro aos fãs de bonés, bermudas, camisetas e tênis de equipes das muitas ligas esportivas dos E.E.U.U., são vira-latas alvoroçados que o elegem referência icônica, a mais do que evidente Árvore do Paraíso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2023.

domingo, 24 de dezembro de 2023

Anedota inédita

 

Anedota inédita

 

Por e-mail, recebo tal pedido: seja verdadeiramente moral a história ainda não contada sobre personagem viva, pessoa que contribua para a elevação dos nossos espíritos, alguém cuja presença sossegue-nos de tantos demônios. Em outras palavras, o pedido condiz com a época; ou melhor, por ocasião de outro solstício de verão, ao ponderar, porém, da oportunidade apresentada, opto pelo consenso de escrevinhá-la pra levar-me à verdade narrativa.

Vamos a ela! Se não nos conduz à verdade, traz um causo.

Dizem que aqueles irmãos andavam pelos campos, vagavam pelos vilarejos, passavam pelas salas que mal os entretinham, corriam pelas tavernas que os alegravam tanto, erravam por ignotas espeluncas dos arrabaldes. Pelo que afirmam, aqueles dois nunca foram de poupar-se de cotidianos quaisquer, e eram pacientes, bem pachorrentos.

Como quem sabe o que quer no instante mesmo em que descobre o que passa a querer, estes escribas não eram castos, posto que, tanto quanto ardiam pelas falas anotadas do povo, apachorravam-se a mais ouvir que remendá-las, conforme ouvidas.

Uma das historietas ouvidas conta que os carneiros daquela família tinham que ser pastoreados em dias de sol e dias de chuva, estando o pastor radiante ou sorumbático, porque tinham que ser, eram.

Houve um dia, enfarado com os balidos, que não eram muxoxos, o rapazote guiou o rebanho pro riacho, mas desviou-se.

Como a necessidade de beber água devia ser atendida, nada havia de errado se a grei fosse dirigida à altura da margem onde, distraídas por ceroulas e anáguas, labutavam as lavadouras.

Contudo, o garotão tinha preocupações e, urgentemente, precisava de orientação: ou baba de babosa ou manjerona macerada, qual teria efetivo poder sobre o horror das espinhas?

Espinhas, ora diríeis, espinhas.

Vossa Graça, todavia, não as diz, porque os sentimentos que agora a curam do que não vive dão realidade ao mundo.

Vossa Mercê, atenta ao justo pelo que ainda não tem, abastece-se de auroras pelas palavras que o Juca, pouco profético, proferiu: “nada mais chato que ser chato, chato a ponto de não vender ilusão, de dizer as coisas como as coisas são”.

Vossa Senhoria, ainda que nem fale, você pensa: em vez de Capitu, uma funcionária, equipada com caneta e prancheta, faz cara de moça precisamente careta; no lugar de Bentinho, um funcionário, que retruca para proteger-se, cola o valor a ser pago no saco de batatas já pesado; vem Santiago, outro funcionário, aquele que cutuca, não porque tenha o rosto coberto de acnes, azucrina porque é um cri-cri despudorado.

Digníssima pessoa, a moça da caneta, sem retesar o punho, fechar o cenho ou folgar na véspera do Natal, vai-se ela à hora do almoço.

Afrodite em mim, que não acalanto outra vazia nostalgia: vistas das rugas, no entanto, são azuis as espinhas tão exibidas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2023.