Melhor
não
É meio-dia. À porta de casa, espero o
táxi que me levará ao médico. Irei ao urologista para a verificação anual do
estado da minha próstata. Com tudo em ordem, não imergirei no lodo das neuroses.
Não me toco de que meu relógio talvez
esteja adiantado. Desligado do instante, nem noto que a hora segue passando. Se
usasse celular, poderia ter a hora num clique e o presente seguiria sendo
agora.
Como nem atendo quando ligam, eu corri,
certo de que o carro viria logo. Comigo a postos, à porta, mesmo sem telefone,
logo ele virá.
Sim, isso não é um fato a ser relatado, é
expectativa banal.
À porta, vejo as pessoas que passam,
muitas têm olhos apenas pro celular. No entanto, não são as notícias que aceleram
o mundo, são as certezas.
Quem duvida, pergunta; zanza atrás de
resposta; por insegurança, vai e vem. Já a pessoa que não duvida, de pronto ela
responde.
A TV assegura que a realidade não
incentiva a paralisia da pessoa que destrava na cachola o fluxo, que o rio de
eventos sem importância é o mundo a quem acredita que faz o que precisa para
sobreviver e se distrair.
Inquieta, a pessoa que duvida não
precisa ligar a TV, precisa ler os comentários às postagens incontornáveis de
gente amiga e de gente cuja celebridade ratifica como verdade o que está
compartilhado, para não ser mais um nome em meio a uma multidão de outros nomes
sem rosto.
Travessa, na inquietude deste seu
instante, a pessoa joga, aposta, e tanto se encanta da sua assertividade que
ela avalia outrem como se aprovasse tudo. Sem condenar o que faz, a sensata faz
graça.
Talvez eu devesse voltar. Pode ser que a
TV ainda esteja desligada. Quem sabe ela esteja deixando mais fundo o buraco
onde mal-estar e pânico criam unhas longas e recurvas, próprias a quem queira revolver
o lodo até que os fatos fiquem à mostra.
Enquanto o táxi não chega, entusiasma-me
ter outra ideia bonitinha.
Nem tenho tempo de pedir a hora ao
Luisinho, que cruza a rua tão logo me avista. Quando chega sorrindo, todo
expansivo, ele tem coisa importante para dizer.
De primeira, puxa o fio que nos satisfaça
prosear como se fôssemos resolver as dores do mundo. Todavia, não palpitamos sobre
o 08/01, 07/10 ou o 24/7, pois pouco acrescentaríamos sobre o quebra-quebra no
Planalto, sobre a carnificina na Terra Prometida ou sobre a canseira que a
sobrevivência provoca.
Não precisamos nos justificar. E quando
o fazemos, Luisinho, é pelo sentimento de bem-estar. Ou seja, é por sermos
vaidosos que falamos do café com pão de nossos regalos. Dizemos que me deleita
falar bem de açúcar mascavo e, até emocionado, de manteiga de garrafa.
Nutro-me da hora que não sei qual seja, do
táxi que demora chegar, da pessoa que se afirma pelo tanto que examina. Sim,
alimento-me do que eu nem sei o que seja.
Será boa coisa indagar: de onde vem esse
prazer que me atravessa quando me alieno dos remorsos?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2024.