Sonho
realizado
Dona Cremilda pede que eu vá buscar o
celular.
ꟷ Que cabeça! Só tenho a lhe agradecer
por avisar que o aparelho, logo agora em que o estou usando aqui, está na sua
casa, parado.
Imprecando, minha querida amiga desligou.
De jeito nenhum que eu me abateria pelas
pessoas estarem de mal com a manhã, de tão bela luz, tão iluminada azul pelo
sorrisão do sol, por este sol maravilhosamente primaveril, como rei de
fevereiro, astro de carnaval, suor, praia, cerveja e verão ꟷ e bota estaçãozinha
arteira, que vem picar no novembro marasmento suas dissonâncias pícaras.
Brindo e celebro, vivas! Brindo com água
gelada e celebro sozinho, vivas! Vivas! Viva! Vivo na alegria da solitude, vivas!
Pelo que mostra a manhã de trinta graus,
passarei o dia em casa.
Aproveito para ler os e-mails. Hora proveitosa,
reduzo o lixo.
Abro as redes. Viajo por ali e volto por
aqui. Embora siga ignorado, eu solicito uma entrevista a quem tanto admiro.
Uma vez que a resposta é não receber
nenhuma resposta: será por falta de tempo que não terei tal oportunidade? “Tenho
medo de andar na rua e, de repente, ser nocauteado.”
A entrevista será virtual e curta. Como
fã, não posso colher algumas palavras? “Sei que tem gente que valoriza meu
trabalho e tem gente que não entende nada do que eu faço.”
Senhor, fale um pouco da faixa O
trenzinho do caipira. “Tem gente que acha que ela é minha; se estou com
tempo, explico que não.”
E a ideia de gravar um disco todo com
Tom Jobim? “Eu já me sentia perto do céu, de tão feliz.”
E gravar permite aprimorar-se? “Aprendi
que trabalhar sob pressão é fundamental. Quando você tem todo o tempo do mundo,
você tem todo o tempo do mundo para fazer nada”.
Perdoe-me que insista: trabalhar não o
faz melhor? “Sinceramente, não consigo julgar o perfeccionismo como defeito, atraso
ou mesmo um tipo de perturbação psicológica. Acho mesmo que o rigor na hora de
construir alguma forma de trabalho serve bastante para garantir o nível mais
elevado de que o artista seja capaz.”
Qual é o sentimento de chegar aos 80
anos? “Acho que faço o que eu posso, do jeito que quero, isso sim é um grande
orgulho.”
Sentir-se orgulhoso é a sua maior vaidade?
“Acho que a vida acaba no dia que paramos de respirar. Olhar para a minha
história me dá esse sentimento de ter cumprido um plano.”
E você não improvisa? “Não duvido dessa
capacidade de pessoas que estão no meio do jantar, ouvem uma melodia, um pedaço
de letra e têm que sair correndo. Sinto muito, mas comigo nunca aconteceu. Eu
sou um cara que tem que procurar a música.”
Na sua opinião, por que Beatriz é
uma obra-prima? “É muito longa, muito lenta, muito lírica.”
Para encerrar, Mestre, e os balés? “Eu
adoro ter personagens para os quais vou ter que compor. Isso me motiva, isso me
tira da cadeira para sentar no piano e começar a procurar.”
Grato pela oportunidade, #eduemepebista.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de novembro de 2023.