terça-feira, 14 de novembro de 2023

Coração alado

 

Coração alado

 

É humano ter apreensões; sondá-las, também.

Não as compreendo inteiramente. Sofro apagões desconcertantes. Ainda que me resguarde ou tente resguardar-me o tanto que eu possa, atormentam-me miasmas animais, vegetais, minerais e artificiais.

Ainda há pouco, na escuridão da madrugada, uma quentura veio de repente. Percebi que havia algo a direcionar meu interesse. Senti esse espectro no escuro do quarto, no íntimo muito escuro de mim.

Em subterfúgio tão silencioso, restava morta uma barata.

Quis ajuda e fui ajudado. Fiz a leitura até que os olhos informaram: baratas que não se sabem mortas seguem mordendo papéis, plásticos e neurônios.

Diante desse diagnóstico, estou corroído por dentro.

Perturbado em meu ceticismo pelas manifestações, provavelmente, anímicas, me sujeito aos remordimentos morais e meu cérebro aponta como veneno às minhas excitações, o celular.

Há sinapses que indicam a trilha a ser evitada. Farto das teimosias, espero escutar as canções que ontem escutei; ao ouvi-las, darei saída ao cansaço de querer evitado o caminho, outra vez percorrido.

O quarto continua silencioso. O asco é maior do que as ansiedades. Não penso na chinelada. Como devia ter tirado o bicho, não me exulto. Pego o cadáver, jogo-o na lixeira e levo-a ao pé do poste.

Mesmo sem varrê-lo, abro o quarto.

Cotovia pousada no espelho, a alma inquieta-me. Tenho cansaços camerísticos, sem arroubos sinfônicos, pois o que orquestra em mim a percepção do momento é a sanha lírica das pedras.

Embora os meus olhos brilhem feito esmeraldas acinzentadas, não diviso o caminho sob as folhas mortas. Ninguém me conduz pela mão.

No espelho não há dúvida nem problema, pressinto a eternidade.

Desde que optei pelo tempo, parei de ocupar-me com rugas.

Não parei de envelhecer a partir do instante em que parei de cultivar rugas. Não desnorteie, envelhecimento. Atrás de mim, o rastro mostra coisas interessantes. Não encaro o mundo apenas pelas ansiedades. Pés de galinha, achei de envelhecer passo a passo.

Por outro lado, gentes angustiadíssimas têm grave envelhecimento, pois não conseguem parar de criticar carros-bomba, drones de ataque e memes de nenês nas redes.

Também há grandes homens que não se restringem a analgésicos, anti-inflamatórios e soníferos. Eles não vacilam, pisam barata mortinha da silva.

Pessoas interessantes sabem que miolos são lentes, aumentam ou diminuem. Quando repreendidas e avacalhadas, é bem chato.

Ainda que nem sempre a realidade chateie com náuseas em quem mata barata, é para, instante a instante, ir sumindo o cheiro dessa coisa seca que tantas casas são escancaradas.

Tocado pelo horror à ideia de ter no mundo mais barata que gente, minha pessoa beira o pânico quando preciso ir confirmar que, na lixeira posta ao pé do poste, a barata permanece morta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário