quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sonho realizado

 

Sonho realizado

 

Dona Cremilda pede que eu vá buscar o celular.

ꟷ Que cabeça! Só tenho a lhe agradecer por avisar que o aparelho, logo agora em que o estou usando aqui, está na sua casa, parado.

Imprecando, minha querida amiga desligou.

De jeito nenhum que eu me abateria pelas pessoas estarem de mal com a manhã, de tão bela luz, tão iluminada azul pelo sorrisão do sol, por este sol maravilhosamente primaveril, como rei de fevereiro, astro de carnaval, suor, praia, cerveja e verão ꟷ e bota estaçãozinha arteira, que vem picar no novembro marasmento suas dissonâncias pícaras.

Brindo e celebro, vivas! Brindo com água gelada e celebro sozinho, vivas! Vivas! Viva! Vivo na alegria da solitude, vivas!

Pelo que mostra a manhã de trinta graus, passarei o dia em casa.

Aproveito para ler os e-mails. Hora proveitosa, reduzo o lixo.

Abro as redes. Viajo por ali e volto por aqui. Embora siga ignorado, eu solicito uma entrevista a quem tanto admiro.

Uma vez que a resposta é não receber nenhuma resposta: será por falta de tempo que não terei tal oportunidade? “Tenho medo de andar na rua e, de repente, ser nocauteado.”

A entrevista será virtual e curta. Como fã, não posso colher algumas palavras? “Sei que tem gente que valoriza meu trabalho e tem gente que não entende nada do que eu faço.”

Senhor, fale um pouco da faixa O trenzinho do caipira. “Tem gente que acha que ela é minha; se estou com tempo, explico que não.”

E a ideia de gravar um disco todo com Tom Jobim? “Eu já me sentia perto do céu, de tão feliz.”

E gravar permite aprimorar-se? “Aprendi que trabalhar sob pressão é fundamental. Quando você tem todo o tempo do mundo, você tem todo o tempo do mundo para fazer nada”.

Perdoe-me que insista: trabalhar não o faz melhor? “Sinceramente, não consigo julgar o perfeccionismo como defeito, atraso ou mesmo um tipo de perturbação psicológica. Acho mesmo que o rigor na hora de construir alguma forma de trabalho serve bastante para garantir o nível mais elevado de que o artista seja capaz.”

Qual é o sentimento de chegar aos 80 anos? “Acho que faço o que eu posso, do jeito que quero, isso sim é um grande orgulho.”

Sentir-se orgulhoso é a sua maior vaidade? “Acho que a vida acaba no dia que paramos de respirar. Olhar para a minha história me dá esse sentimento de ter cumprido um plano.”

E você não improvisa? “Não duvido dessa capacidade de pessoas que estão no meio do jantar, ouvem uma melodia, um pedaço de letra e têm que sair correndo. Sinto muito, mas comigo nunca aconteceu. Eu sou um cara que tem que procurar a música.”

Na sua opinião, por que Beatriz é uma obra-prima? “É muito longa, muito lenta, muito lírica.”

Para encerrar, Mestre, e os balés? “Eu adoro ter personagens para os quais vou ter que compor. Isso me motiva, isso me tira da cadeira para sentar no piano e começar a procurar.”

Grato pela oportunidade, #eduemepebista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2023.

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