O
fio da meada
Percebo um certo desprezo, mas
atravessei a rua. Embora estejam rindo às minhas costas, vim pra cá sem pressa
ꟷ uma vez que há uma lombada, a velocidade dos automóveis está baixa.
Depois de cruzada a rua, entendo-me com
esta percepção; tanto a entendo desprezível que nem encaro as pessoas do lado
de lá. Porque dei com a fuça num fio esticado barrigudamente entre um poste e
outro, elas têm motivo para rir.
Deste fio, protegeram-me os óculos. É da
minha indiscrição que não estou protegido: dou uma olhadinha envergonhada,
aquela espiadinha de curioso, de rabo de olho: como a vida sabe ser
decepcionante, vejo que ninguém mais está rindo.
Com mais ninguém interessado em mim, pensaroso
como sempre, vou de olho no que piso. Sem temer por minha vida, volto pra casa.
Já que a ventania não é ardilosa, não a
culpo pelos ciscos nos meus olhos ꟷ como a poeira é do mundo, acerte-se
consigo, mundo.
A culpa é dos meus olhos. Se estivessem
olhando além, certamente eu enxergaria o que uma árvore esconde.
E não falo das folhas secas derrubadas
dos galhos, porque o vento enfrenta os obstáculos, suplanta-os. O vento não
teme desafios porque sabe aonde quer chegar: às pás do moinho; às pás à
beira-mar.
Precisamos pavimentar, asfaltar.
Precisamos de calçadas. Pra que os fios bailem no ar sem que os acusem de ceifadores,
os postes sejam mais altos. Para que prédios não sejam humilhados pelos postes cada
vez mais altos, edifícios sejam construídos sem medo, eles sejam mais e mais
encorpados. Porque o reino do grandioso tem que ser glorioso, precisamos de
monstrengos que não temam a própria monstruosidade. Pra que porquinho convide
porquinho pro cafezinho, não abjuremos o vidro, o aço e o concreto. Planejemos
o que havemos de planejar.
Todavia ꟷ com problema pra associar nome
a rosto conhecido?
É neste ínterim que me revelo essa
pessoa amável, sociável, capaz de dar atenção a quem me chama pelo nome, me
identifica em voz alta e diz que fazia tempo que não nos encontrávamos, nos
abraçávamos, que podíamos rememorar algumas de nossas lutas inglórias.
Porque fomos rapazes de beber além da
conta, pendurávamos em quem afiançasse nossa voragem. E bebíamos até a chuva
passar.
Amantes da picanha, churrasqueávamos de
quando em quando, ao léu de nossos boletos abduzidos, pois vão de porta tem
esse hábito de soprar pra debaixo do tapete o que segue preso à folhinha.
Não vejo problema: abraço, rememoro,
topo um churrasquinho.
Há pessoas que alegam dor na consciência
porque estão mudadas, porque deixaram de ir a festas; que alegria é ter mudado,
porque tenho dor de cabeça se não tenho seis horas de sono.
Há gente que diz odiar gente que a
embarace; essa gente é gente exagerada, afinal: perder a graça não é cair de
bunda, é razão para rir do ódio que não sente.
Doido varrido, culpo São Pedro por cinco
dias no escuro.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de novembro de 2023.
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