Bom
garoto
Quando a Cidade Eterna foi fundada?
Perguntaram, mas o problema é que responderam.
Ao ouvir a resposta, desdenhei. Sempre
que eu desdenho, atazano-me. Se tivesse sido sarcástico, quiçá o desdém reverberasse
na minha cachola de maneira mais luminosa. Indubitavelmente, o sarcasmo põe-me
opaco, pois me suga ao humor que ofuscaria os demônios.
Como os demônios brilham, logo troco de
pele.
Na verdade, nego aos outros o que a mim
nem sei como me negar, que talvez eu devesse falar mais, que eu sofra menos por
ficar de boca fechada quando tenho com o que contribuir, que forçosamente
calado violentar-me-ia como pessoa.
De verdade, embora não comente o que falam
por aí, não paro de especular sobre os uivos que escuto. É diabrura achar que
me expor à lua é maluquice. Ainda que o luar afete o fluxo das ideias, esconderia
melhor as minhas garras.
Quando o homem aflora, sacrifica-se a
ovelha.
Será misteriosa a transformação por
influência do mundo? Por que não atino de onde me vem o ímpeto carniceiro? Por
que recuo quando estou às portas de outra resposta?
Quando tiro da cumbuca a lama que
recobre o rosto, sorrio maroto, levemente endiabrado, sossego-me de algumas
taras, nem as nomeio, penso nos guarás do Caraça, os de muros adentro e os de
afora.
Eu falo de mistérios, lama misteriosa? Que
nada.
Falo do espelho que enruga; do micro que
estupefaz; do celular que confunde; da página que aprisiona; do fato que escala
até o fundo; do lodo à tona; da pele recoberta por sedimentos de sentido,
sentimentos doridos, assoreamentos pela miopia das retinas; até do lobo que
lambe a faca, sangra e sofre; falo dessa dor afiada que fala ao poeta.
O poeta amestrado é lobo que finge canhestramente
ser o cordeiro a balir vontades às portas da intoxicação. E suas vontades
balidas não são tóxicas nem fundamentais, dão sono.
Erroneamente, o poeta acha que o casaco
de lã diz à memória que o sol de 21 de abril também faz suar os albinos da
Europa.
Tolo, o poeta pensa que os lobos de
Minas comem mocotó.
Lupino, o poeta escreve um verso,
escreve outro, funde os dois, e nada feito. Descontente e arisco, ele permanece
à espera da lama que lhe mascare os desejos, à espera do lodo que o revele ovino.
Quem choca o ovo da serpente?
Três dias depois do temporal, do
vendaval da tempestade, o poeta enlameado escreve no escuro, e continua sem
banho.
Alegremente, o poeta sobrevive ao fim
dos tempos, embora o lobo do poeta uive à TV. Alegremente, o uivo volta da TV
como resposta à inocência do lobo. Inocentemente, o poeta pensa que comer o
lobo que o come é o mesmo que amamentar-se pelo espelho.
Poeta renegado, quem imita o lobo e
destroça o poema merece cem anos de perdão?
Ao poeta fala a loucura:
ꟷ O que os meus caninos sangram, o seu
tormento não cura.
E o que fundamenta a alucinação renegada
do poeta?
Remo e Rômulo, não falte vinho às
tretas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de novembro de 2023.
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