terça-feira, 7 de novembro de 2023

Bom garoto

 

Bom garoto

 

Quando a Cidade Eterna foi fundada?

Perguntaram, mas o problema é que responderam.

Ao ouvir a resposta, desdenhei. Sempre que eu desdenho, atazano-me. Se tivesse sido sarcástico, quiçá o desdém reverberasse na minha cachola de maneira mais luminosa. Indubitavelmente, o sarcasmo põe-me opaco, pois me suga ao humor que ofuscaria os demônios.

Como os demônios brilham, logo troco de pele.

Na verdade, nego aos outros o que a mim nem sei como me negar, que talvez eu devesse falar mais, que eu sofra menos por ficar de boca fechada quando tenho com o que contribuir, que forçosamente calado violentar-me-ia como pessoa.

De verdade, embora não comente o que falam por aí, não paro de especular sobre os uivos que escuto. É diabrura achar que me expor à lua é maluquice. Ainda que o luar afete o fluxo das ideias, esconderia melhor as minhas garras.

Quando o homem aflora, sacrifica-se a ovelha.

Será misteriosa a transformação por influência do mundo? Por que não atino de onde me vem o ímpeto carniceiro? Por que recuo quando estou às portas de outra resposta?

Quando tiro da cumbuca a lama que recobre o rosto, sorrio maroto, levemente endiabrado, sossego-me de algumas taras, nem as nomeio, penso nos guarás do Caraça, os de muros adentro e os de afora.

Eu falo de mistérios, lama misteriosa? Que nada.

Falo do espelho que enruga; do micro que estupefaz; do celular que confunde; da página que aprisiona; do fato que escala até o fundo; do lodo à tona; da pele recoberta por sedimentos de sentido, sentimentos doridos, assoreamentos pela miopia das retinas; até do lobo que lambe a faca, sangra e sofre; falo dessa dor afiada que fala ao poeta.

O poeta amestrado é lobo que finge canhestramente ser o cordeiro a balir vontades às portas da intoxicação. E suas vontades balidas não são tóxicas nem fundamentais, dão sono.

Erroneamente, o poeta acha que o casaco de lã diz à memória que o sol de 21 de abril também faz suar os albinos da Europa.

Tolo, o poeta pensa que os lobos de Minas comem mocotó.

Lupino, o poeta escreve um verso, escreve outro, funde os dois, e nada feito. Descontente e arisco, ele permanece à espera da lama que lhe mascare os desejos, à espera do lodo que o revele ovino.

Quem choca o ovo da serpente?

Três dias depois do temporal, do vendaval da tempestade, o poeta enlameado escreve no escuro, e continua sem banho.

Alegremente, o poeta sobrevive ao fim dos tempos, embora o lobo do poeta uive à TV. Alegremente, o uivo volta da TV como resposta à inocência do lobo. Inocentemente, o poeta pensa que comer o lobo que o come é o mesmo que amamentar-se pelo espelho.

Poeta renegado, quem imita o lobo e destroça o poema merece cem anos de perdão?

Ao poeta fala a loucura:

ꟷ O que os meus caninos sangram, o seu tormento não cura.

E o que fundamenta a alucinação renegada do poeta?

Remo e Rômulo, não falte vinho às tretas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário