Aquele
abraço
Tem feito frio. Tem chovido também.
Resolvi investigar, revelou-me o
calendário: é inverno.
Nesta parte do país durante esta quadra
do ano, inverno é estação seca, mas anda chovendo bastante. Quiçá por causa do
El Niño.
Por culpa das águas do Pacífico, e
porque tenho alma sentida, meu sentimento é que vou chorar. Mas nem lacrimejo.
Poderia imitar os azulejos de casa, tão
lacrimejantes. Basta a friaca apertar pros rejuntes sangrarem o que não sentem.
Se sentissem dor, cada lágrima escorrida não seria incolor nem escorrida.
Mas, nem soluçar eu soluço.
Não porque tenha domínio sobre mim, é
porque a minha alma esfria pra fora, deixa enrugada a pele. Como se acabasse de
ter saído de um rio, saído das águas gélidas de um rio, afinal é inverno.
Tem feito frio e chovido mais do que o
normal, comovo-me. Porque a quebra da regularidade desarranja, sobressalta, faz
pensar.
Comovido, não me arrepio. Quero-me calmo.
Que o desassossego não denuncie minha agitação. Amanso-me, forço-me à mansidão,
até me arrepio. Arrepiado, fico arredio. Olho para cima, busco o horizonte,
faço o que for preciso pra fugir de abraços.
Um desconhecido vem vindo. Se não o
conheço, não me constranjo a saudá-lo. Conto como desnecessária a comunicação
entre nós.
Justo quem, sem mais, tasca-me um abraço
apertado, com beijinho no rosto, como se esta demonstração de carinho tornasse
evidente que o momento é para afetos que alegram.
Fico bobo com a minha falta de alegria.
O beijoqueiro fala. Diz que percebeu
minha ânsia, que eu queria ser notado. Sentindo-me desconfortável no abraço,
era óbvio que eu pedia um contato menos ligeiro. Por captar-me tão solitário,
beijou-me.
Bestificado, continuo parado; calado,
continuo perplexo.
O sujeito diz que sou mais um a ficar
desnorteado com a gentileza, ou ela é rechaçada como agressão ou as pessoas a estranham,
porém o problema não está no abraço.
Abraçadas por gente conhecida, tudo certo.
Quando a circunstância é favorável, abraçar é positivo. Quando existe
sofrimento, que o abraço as reconforte. Se as pessoas querem briga, basta abrir
os braços.
ꟷ O senhor é expert em comportamento
humano, hein?
ꟷ Nem tudo que é humano me interessa,
sou só um demônio.
ꟷ Você foi obrigado a vir aprender as
sutilezas da convivência?
ꟷ Aprendi alguma coisa. Se o abraço é
honesto, sempre se espera algo em troca. Com a cobrança antecipada, o cínico
exige presentinhos mais caros.
ꟷ Lá a vida não é igual?
ꟷ Sem qualquer questionamento, aplico a
punição: as pessoas que não suportam abraços que sofram porque, pelo resto dos
tempos, hei de prosseguir nos abraços.
ꟷ Por que, diabos, demônio exemplar terminaria
aqui?
ꟷ Senhor, de tanto abraçar, passei a
gostar. Só sei que o Momo do Inferno não gosta nadinha de quem goza dessa
felicidade.
ꟷ Demônio achar de ser feliz no Brasil,
que privilégio!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de julho de 2023.