quinta-feira, 13 de julho de 2023

Aquele abraço

 

Aquele abraço

 

Tem feito frio. Tem chovido também.

Resolvi investigar, revelou-me o calendário: é inverno.

Nesta parte do país durante esta quadra do ano, inverno é estação seca, mas anda chovendo bastante. Quiçá por causa do El Niño.

Por culpa das águas do Pacífico, e porque tenho alma sentida, meu sentimento é que vou chorar. Mas nem lacrimejo.

Poderia imitar os azulejos de casa, tão lacrimejantes. Basta a friaca apertar pros rejuntes sangrarem o que não sentem. Se sentissem dor, cada lágrima escorrida não seria incolor nem escorrida.

Mas, nem soluçar eu soluço.

Não porque tenha domínio sobre mim, é porque a minha alma esfria pra fora, deixa enrugada a pele. Como se acabasse de ter saído de um rio, saído das águas gélidas de um rio, afinal é inverno.

Tem feito frio e chovido mais do que o normal, comovo-me. Porque a quebra da regularidade desarranja, sobressalta, faz pensar.

Comovido, não me arrepio. Quero-me calmo. Que o desassossego não denuncie minha agitação. Amanso-me, forço-me à mansidão, até me arrepio. Arrepiado, fico arredio. Olho para cima, busco o horizonte, faço o que for preciso pra fugir de abraços.

Um desconhecido vem vindo. Se não o conheço, não me constranjo a saudá-lo. Conto como desnecessária a comunicação entre nós.

Justo quem, sem mais, tasca-me um abraço apertado, com beijinho no rosto, como se esta demonstração de carinho tornasse evidente que o momento é para afetos que alegram.

Fico bobo com a minha falta de alegria.

O beijoqueiro fala. Diz que percebeu minha ânsia, que eu queria ser notado. Sentindo-me desconfortável no abraço, era óbvio que eu pedia um contato menos ligeiro. Por captar-me tão solitário, beijou-me.

Bestificado, continuo parado; calado, continuo perplexo.

O sujeito diz que sou mais um a ficar desnorteado com a gentileza, ou ela é rechaçada como agressão ou as pessoas a estranham, porém o problema não está no abraço.

Abraçadas por gente conhecida, tudo certo. Quando a circunstância é favorável, abraçar é positivo. Quando existe sofrimento, que o abraço as reconforte. Se as pessoas querem briga, basta abrir os braços.

ꟷ O senhor é expert em comportamento humano, hein?

ꟷ Nem tudo que é humano me interessa, sou só um demônio.

ꟷ Você foi obrigado a vir aprender as sutilezas da convivência?

ꟷ Aprendi alguma coisa. Se o abraço é honesto, sempre se espera algo em troca. Com a cobrança antecipada, o cínico exige presentinhos mais caros.

ꟷ Lá a vida não é igual?

ꟷ Sem qualquer questionamento, aplico a punição: as pessoas que não suportam abraços que sofram porque, pelo resto dos tempos, hei de prosseguir nos abraços.

ꟷ Por que, diabos, demônio exemplar terminaria aqui?

ꟷ Senhor, de tanto abraçar, passei a gostar. Só sei que o Momo do Inferno não gosta nadinha de quem goza dessa felicidade.

ꟷ Demônio achar de ser feliz no Brasil, que privilégio!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de julho de 2023.

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