A
descoberto
Doutora, sou-lhe grato por ajudar-me a
compreender que é fácil ver a realidade do que está visível e que o problema
está em fazer os olhos conhecerem o imprevisto da realidade.
Doutora, hoje eu entendo que consegui
superar minhas dificuldades pra perceber que a vida é basicamente o que sinto. Doutora,
reconheço que o conhecimento mais profundo eu aprendi a construí-lo com a sua mediação,
pois sem a sua colaboração eu continuaria pensando que a realidade que existe é
só a que eu vivo.
Doutora, a senhora fez-me ver que
silêncios abrem feridas mas nem toda mágoa precisa ser cicatrizada. É fundamental
as dores educarem a ir além do sentimentalismo, pois emocionante é revelar-se
em carne viva no mundo descoberto além das opacidades.
Doutora, eu sei, mesmo quando estou à
vontade com o que desejo, não estou livre do mundo. É autoengano achar
conveniente perder-me da realidade em nome da paz espiritual que traz resignação.
Quando não ouço a revolta que trago em
mim, doutora, escuto-me na indiferença que me faz insensível.
Como não quero acomodar-me à escuridão
que entorpece, porque a apatia me afeiçoa a mim, gosto de andar na chuva.
Quando chove, saio dar uma volta, uma
volta bem longa, demorada o bastante para que os meus olhos fiquem limpos ou
identifiquem quais as impurezas do dia a dia que me irritam.
Porque não vejo de outro modo, acho
degradante atrelar quem sou ao cidadão que não protela nada do que tenha que
ser atendido, como se as demandas diárias fossem de fato barreiras a serem
vencidas.
Desculpe, doutora, mas não acho abuso eu
sentar molhado. Porque indigno é reforçar: se o pagamento garante a qualidade da
sessão, tem também que afiançar alguns direitos não descritos.
Mas eu não vim dar pito; conto que a
senhora responda: quem teme se conhecer não quer revelado nenhum monstro?
Doutora, tenho essa questão porque
lembrei o que ocorreu faz vinte anos. Desde aquele acontecido na chuva, creio que
o mundo, de forma veladamente engenhosa, é movido pelo insólito.
Acho que a ciência nem queira dar
explicação. Não interessa, pois o sentido do evento eu entrevi com ajuda da
senhora.
Naquela época eu estava desempregado, pois
tinha parado de dar aula e duvidava dessa vocação que é escrever.
Nesse dia de chuva, o Camões puxou conversa.
E falamos de igual. O Poeta sentia o que me fez errar debaixo do aguaceiro. Ele
percebia o que fui fuçar na caçamba de lixo.
Saber quem era? Foi fácil, doutora, foi
pelo tapa-olho.
O esquisitíssimo caolho, que enxerga
2013 em tudo o que esmiuça, quando me falou, comigo encharcado de brasilidade,
ensopado desde o cocuruto, fez-me ver a figura borrada, enevoada pelo não
vivido.
Minha senhora, embora eu não tenha
nascido escritor, fissurado no mundo ainda não escrito, este clássico
estrangeiro põe-me estimulado a perseverar no papo com a vida toda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de junho de 2023.