O
pão da vida
Dá uma dor de ouvido de madrugada, acho melhor
pôr um chumaço de algodão pro ar gelado não aumentar o desconforto. Quando a
dor é aguda, irrito-me. Desconfortavelmente irritado, ponho o mundo a esmo. Caçando
briga com a pinga ou atiçando rato contra gato, nada de novo acontece sob o
sol. Por óbvio, uma dor de ouvido calha-me como farpa se vou à toa na vida, feito
folha seca ao sabor do vento.
Que os acontecimentos do dia levem-me
pro lado que me for menos conveniente. Para que eu tire algum proveito do ócio
imprevisto, que a minhoca sirva de isca a peixe com fome. Que a cada passo, meu
olhar, eivado de banalidades, fisgue do cotidiano alguma notícia.
O mundo todo fala muito da grande dama
dos chapéus que morreu. Também tenho tanto a dizer, mas resumo: rainha morta,
rei posto.
Poderia retomar uma historieta que me
propus dar em crônica, mas, por sobrarem em mim inspirações medíocres, engavetei-a.
No causo escondido na cômoda, há um
casal que viaja pela Europa. Na vadiação de quinze dias de férias, Eleanor e
Osbourne passam por Edimburgo, Dundee, Perth, Inverness, Stirling, Aberdeen e Glasgow.
Acrescento que a frustração do bom casal
de americanos do Maine é não ter achado tempo para ir a Skye, pela birita
maltada, e Ness, pelo fóssil do lago.
Para dar cabo à anedota, o marceneiro
aposentado e a inveterada crocheteira andavam pelos arredores de Aberdeen como
se vadiassem por Aberdeenshire. Avistando Balmoral num vetusto castelo qualquer,
espiavam-no extasiados. Realmente tocados pela realeza da mansão, inventaram de
pedir ajuda. Viram um lorde, não um aspone irrelevante da rainha. E esse
descendente shakespeariano de sangue quente lhes vendeu uma autêntica caneca imperial,
relíquia dos tempos de César.
Como narrativa chinfrim engavetada, acho
ocioso desfrutá-la.
Ocioso mas ansiado, pois o dia não
entedia.
Eleitor nervoso com a brasilidade do
futuro, assumo o compromisso de trabalhar além das minhas necessidades de
burguês. Incluo no voto o custo de dar esperança a quem pede por pão, reclama por
casa, tem um cão que nem o chama de seu.
E digo que hoje é sábado e vem vindo um
menino mais um cão.
E acho bom dizer que o guri vem latindo
pro cachorro e o magricelo late de volta. Entendidos com a tarde mansa, estes
bichos brincalhões vêm festivos. Um com outro, ambos inventam de viver em paz.
Ainda que um binóculo desconfie da ordem
da calçada, o menino e o cão formam uma dupla bacana de ser acompanhada.
É notório: os olhos do décimo segundo
andar põem em dúvida que o cão e o menino têm fome.
Mas dou vivas à vida.
E conto que uma senhora dá pão ao menino
e a criança dá do pão àquele cãozinho.
E faço que é sábado e que o sábado não
se faz de outro qualquer, pois são ridentes os dentes antes do domingo.
É imperioso que se diga que estou
comovido, pois a vida, seguindo serena, dá de ser um riso solto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de setembro de 2022.