As
águas fechando o verão. A noite vindo. A cama que o corpo quer. Tudo indica
outro domingo terminando tranquilo, mas...
É
óbvio que um mas tem que entrar ou não haveria história, haveria tédio; e
teríamos o cansaço de tanta sonolência entediada.
Mas
a garoa da tardinha não acha veias nostálgicas em mim, que o meu peito não
esquenta o sangue na minha cabeça. Sinto que estou gelado, mais frio que o
normal.
É
preciso passar um café, estourar pipoca, esperar que passe logo.
Mas
pensamentos modorrentos cansam, aborrecem um bocado. Só ficando em pé para não
cochilar. E já modorro o bastante para bocejos enfileirados, nem aguardo a água
ferver. Com ela borbulhando, passo o café que sirvo rápido.
Ponho
pressão em mim. Acelero. Queimo a boca. Firo a língua, mas não desisto de beber
o café quente passado agora, neste momento a que me obrigo não perder de vista
que é domingo.
Faz
este friozinho de fim de tarde. Está garoando como previsto.
Sinto
que devagar não irei longe, porque acabarei dormindo deitado no sofá, perdendo
de ver um filme, ler um livro, ouvir música. Tudo isso porque teria paciência
de esperar o café esfriar, para manter o costume de beber café frio.
Desta
vez, contudo, o beberei quente.
Eu
beberei quente porque não quero ler as borras. Não me deixarei frustrar com os
restos na xícara, porque não saber qual o futuro traçado pelas sobras no fundo me
fará atirar a xícara na parede.
Serei
estúpido pra agir como estúpido. Sabendo que a hora seguirá, agirei contra mim.
Contra a ideia de que tenho o dever de permanecer lúcido, raciocinando a favor
de um fim de tarde de domingo sem entrar pelo desespero de não ter mais o que fazer
comigo.
Mas
deitar no sofá não é o mesmo que atirar xícaras na parede.
Que
droga. Pus açúcar a mais.
Bebo
assim mesmo, porque, distraído por um sorriso nervoso, acho pouco engraçada a
ideia de que poderia estar aborrecido comigo. Não estou nem quero estar. Bebo,
vou bebericando, e fico forçando pousar a xícara no pires como se ela fosse uma
pena estragada pela ação da gravidade.
Sopro
o café. Queria me divertir com o vaporzinho do café, mas não consigo. Pressinto
que há pensamentos mórbidos que esperam minha distração, que perca o foco. Que
eu sopre o café sem notar que o vapor sobe e o ar da cozinha continua úmido e
gelado.
O
outono chegou de repente. Ele veio antes do combinado.
Não
quero correr pra sala. Não quero me apressar. Não tenho nada de ir furibundo me
sentar diante da TV.
Todavia
tenho TV. Vejo bombardeios. Contam-se os bebês mortos.
A
ansiedade não ensina a anestesiar a intuição.
Como
pular de paraquedas se não houver mais o amanhã? Puxaria o ar frio das alturas?
Prenderia a respiração no instante do salto? Teria como atingir o alvo com o
vento acima do calculado?
Não
me belisco, mordisco o nó do indicador.
Eu
não jogo sujo nem tento: bem cansado, eu adormeço.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 22 de março de 2022.