Pula,
caminha
Sempre que me vejo obrigado a realizar
uma tarefa, isto é, quando o direito de não fazê-la me é tirado, fico bastante
ranzinza. O suficiente pra ficar implicando com o mundo. Não que a implicância
faça parar a roda do mundo, ela consegue atrasar apenas o que tenho que fazer. E
ranzinza atrasado, vejo-me forçado a dobrar os esforços pra dar conta do que é
preciso ser feito.
Ao estúpido, a batatada: se ontem o bocó
não ficasse fazendo onda, a maré agora não seria lutar contra o relógio.
Subo e desço os degraus da escadinha.
Subindo e descendo, baixo os livros pras caixas. Livro mais livro, vou passando
a minha biblioteca pros volumes numerados. Apesar da mudança, pretendo
minimizar os transtornos. Eu não quero ter mais trabalho do que desencaixotar
tudo. Subindo e descendo, vou mentalizando, pedindo pra gastar somente a energia
necessária pra voltar tudo às prateleiras.
Como sou mesmo um espertinho, não
aprendo nunca com os erros. Já mudei muitas vezes e sempre fico torcendo pras
coisas tomarem os seus lugares sem que eu tenha que intervir. Mas o mundo
ignora meus mais nobres desejos, como se a voz da minha vontade fosse realmente
inaudível, ou desencantada. Em outras palavras, como o universo não sabe de mim
pelas virtudes que possuo, não alcançarei a redenção de uma jornada
paradisíaca, maravilhosa, jubilosa.
Todavia, o caminhão virá. De acordo com
o agendado, chegará. Por conseguinte, o futuro vai se fazer presente. Sem
palavras que instruam a manipular a máquina do mundo, o amanhã vai se tornar
hoje. De fato, sem a misericórdia da inércia, a realidade não conhecerá outro
destino que não a de ver as portas do baú abertas às caixas e caixas de livros,
que deverão ser ajeitadas considerando-se o estado de ruas, viadutos e rodovias,
ou a mudança vai ser traumática.
Olho o que já fiz. Dos braços do L
formado pelas estantes, só estão faltando um braço e meio pra encaixotar.
Trabalhei pra caramba.
Sem dúvida, trabalhar cansa. E o torso
suado pede pra parar.
Paro. Quero relaxar. Pego o violão.
Dedilho.
Como nunca tive quem me desse aulas, sei
que pressiono os dedos sem noção. Se as notas formam um acorde, é fortuito. Me
importa é o ritmo, o som no ritmo. Só por curtição, vou tirando o meu som.
Este instrumento tem história, pois me
acompanha de casa em casa faz tempo. Comprei-o quando eu fazia cursinho, nos
anos 80.
Àquela época, recordo que o Gilberto Gil
cantando Pula, Caminha me empolgou. Fiquei vidrado na música. De
imediato, ela fez a minha cabeça. Tinha que imitar o Gil. Tirei o espelho da
parede pra dispô-lo de tal maneira que me jogasse no palco assim que empunhasse
aquele trem que nem o meu ídolo. Seria o máximo.
Ó vida, ó azar, ó quimera. Não virei
nenhum cantor de rádio.
Pulo, caminho, não posso prosseguir
parado, uma vez que os livros não entram nas caixas por conta própria.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 24 de fevereiro de 2022.
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