quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Pula, caminha

 

Pula, caminha

 

Sempre que me vejo obrigado a realizar uma tarefa, isto é, quando o direito de não fazê-la me é tirado, fico bastante ranzinza. O suficiente pra ficar implicando com o mundo. Não que a implicância faça parar a roda do mundo, ela consegue atrasar apenas o que tenho que fazer. E ranzinza atrasado, vejo-me forçado a dobrar os esforços pra dar conta do que é preciso ser feito.

Ao estúpido, a batatada: se ontem o bocó não ficasse fazendo onda, a maré agora não seria lutar contra o relógio.

Subo e desço os degraus da escadinha. Subindo e descendo, baixo os livros pras caixas. Livro mais livro, vou passando a minha biblioteca pros volumes numerados. Apesar da mudança, pretendo minimizar os transtornos. Eu não quero ter mais trabalho do que desencaixotar tudo. Subindo e descendo, vou mentalizando, pedindo pra gastar somente a energia necessária pra voltar tudo às prateleiras.

Como sou mesmo um espertinho, não aprendo nunca com os erros. Já mudei muitas vezes e sempre fico torcendo pras coisas tomarem os seus lugares sem que eu tenha que intervir. Mas o mundo ignora meus mais nobres desejos, como se a voz da minha vontade fosse realmente inaudível, ou desencantada. Em outras palavras, como o universo não sabe de mim pelas virtudes que possuo, não alcançarei a redenção de uma jornada paradisíaca, maravilhosa, jubilosa.

Todavia, o caminhão virá. De acordo com o agendado, chegará. Por conseguinte, o futuro vai se fazer presente. Sem palavras que instruam a manipular a máquina do mundo, o amanhã vai se tornar hoje. De fato, sem a misericórdia da inércia, a realidade não conhecerá outro destino que não a de ver as portas do baú abertas às caixas e caixas de livros, que deverão ser ajeitadas considerando-se o estado de ruas, viadutos e rodovias, ou a mudança vai ser traumática.

Olho o que já fiz. Dos braços do L formado pelas estantes, só estão faltando um braço e meio pra encaixotar. Trabalhei pra caramba.

Sem dúvida, trabalhar cansa. E o torso suado pede pra parar.

Paro. Quero relaxar. Pego o violão. Dedilho.

Como nunca tive quem me desse aulas, sei que pressiono os dedos sem noção. Se as notas formam um acorde, é fortuito. Me importa é o ritmo, o som no ritmo. Só por curtição, vou tirando o meu som.

Este instrumento tem história, pois me acompanha de casa em casa faz tempo. Comprei-o quando eu fazia cursinho, nos anos 80.

Àquela época, recordo que o Gilberto Gil cantando Pula, Caminha me empolgou. Fiquei vidrado na música. De imediato, ela fez a minha cabeça. Tinha que imitar o Gil. Tirei o espelho da parede pra dispô-lo de tal maneira que me jogasse no palco assim que empunhasse aquele trem que nem o meu ídolo. Seria o máximo.

Ó vida, ó azar, ó quimera. Não virei nenhum cantor de rádio.

Pulo, caminho, não posso prosseguir parado, uma vez que os livros não entram nas caixas por conta própria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de fevereiro de 2022.

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