Folgado
Não prestei atenção às horas quando vim me
sentar. Vim pra tomar leite. Deu vontade, vim. Sem ficar encasquetando, bastou
querer. Pois vim, me sentei e mais nada. Quis e vim, uma vez que vontade dá sem
hora marcada. Parece febre durante a noite, vem sem impor condição; ou melhor,
no momento que acha de pegar na gente. E que se dane o mundo. Danei-me que vim,
e sem tempestade em copo d’água. Vim, e fui enchendo o copo devagar até deixá-lo
pela metade.
Pois é, tomando leite me pego a pensar
que posso fazer o que estou fazendo, porque tenho calma. Calmo nem percebo que
ignoro por qual razão quis beber. Bebendo calmamente, ganho um tempo pra mim.
Sei, é coisa de estúpido ficar sentado
sem fazer outra coisa que não ficar bebendo leite.
Talvez pensando na vida, sem querer.
Pensando na vida, porque a morte não me
encanta. Por isso, prefiro não pensar nela nem por descuido. Quando sobra
tempo, aí a tentação de matutar sobre abobrinhas aumenta um bocado. E eu
prefiro.
Serei sincero. Costumo achar
desconfortável pensar na morte, seja a minha ou a de outrem. Me dá uma angústia
que desassossega. Bem agora que estou só, sentando as minhas nádegas na madeira
dura de uma cadeira vagabunda, gostaria muito de estar conversando sobre o sol,
a chuva e o casamento da viúva. E falar de casamento me diverte, pois nunca me
casei.
Por querer, confesso a sinceridade, a
vida é muito mais divertida quando se tem tempo pra casar o sol com a lua.
Portanto, concentro meus pensamentos em
como é bom tomar leite sem sair correndo porque tenho um mundaréu de coisas
esperando. E tento pensar positivamente, porém me ocorre a ideia de que tem
gente, e muita gente, que não toma leite, por alergia ou falta de dinheiro.
Procuro não fazer drama. Vim tomar leitinho,
porque deu vontade e pronto. Bebo sem pressa. E é com gosto que bebo meu leite gelado.
Gosto de leite fervido. Mas, não sei
explicar a minha preferência por copo de vidro. Fervo o leite e esqueço o copo.
Chego a fechar os olhos. Ponho o tanto que gosto, o copo pela metade, e espero.
Se sei esperar, é porque gosto de leite. Bebê-lo quente, sei que a temperatura
alta dá despistes na língua. E que o leite não perca o que tem de melhor.
O importante, portanto, é estar em paz
consigo, é ir vivendo um dia de cada vez. Sem passar o carro à frente dos bois.
Sem desculpas pra quando melancolias tomarem as rédeas. Já viver em desalinho
consigo afeta tanto a alma que gera intolerâncias.
Sei que não estou pedindo muito. Não sou
de pedir muito. Entendo, quero somente ir adiante. Não se espera que haja
mágica: um copo de leite ajuda a ir em frente, porque sustenta bem, nem empanturra.
Ao léu de mim, a favor de curtir um
instante de tranquilidade, a vida tem desses fluxos, umas ideias de querer
viver à vontade. E fico numa boa, até quando estou tão à vontade.
E gozo de beber leite num copinho de
requeijão.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2022.
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