domingo, 13 de fevereiro de 2022

Folgado

 

Folgado

 

Não prestei atenção às horas quando vim me sentar. Vim pra tomar leite. Deu vontade, vim. Sem ficar encasquetando, bastou querer. Pois vim, me sentei e mais nada. Quis e vim, uma vez que vontade dá sem hora marcada. Parece febre durante a noite, vem sem impor condição; ou melhor, no momento que acha de pegar na gente. E que se dane o mundo. Danei-me que vim, e sem tempestade em copo d’água. Vim, e fui enchendo o copo devagar até deixá-lo pela metade.

Pois é, tomando leite me pego a pensar que posso fazer o que estou fazendo, porque tenho calma. Calmo nem percebo que ignoro por qual razão quis beber. Bebendo calmamente, ganho um tempo pra mim.

Sei, é coisa de estúpido ficar sentado sem fazer outra coisa que não ficar bebendo leite.

Talvez pensando na vida, sem querer.

Pensando na vida, porque a morte não me encanta. Por isso, prefiro não pensar nela nem por descuido. Quando sobra tempo, aí a tentação de matutar sobre abobrinhas aumenta um bocado. E eu prefiro.

Serei sincero. Costumo achar desconfortável pensar na morte, seja a minha ou a de outrem. Me dá uma angústia que desassossega. Bem agora que estou só, sentando as minhas nádegas na madeira dura de uma cadeira vagabunda, gostaria muito de estar conversando sobre o sol, a chuva e o casamento da viúva. E falar de casamento me diverte, pois nunca me casei.

Por querer, confesso a sinceridade, a vida é muito mais divertida quando se tem tempo pra casar o sol com a lua.

Portanto, concentro meus pensamentos em como é bom tomar leite sem sair correndo porque tenho um mundaréu de coisas esperando. E tento pensar positivamente, porém me ocorre a ideia de que tem gente, e muita gente, que não toma leite, por alergia ou falta de dinheiro.

Procuro não fazer drama. Vim tomar leitinho, porque deu vontade e pronto. Bebo sem pressa. E é com gosto que bebo meu leite gelado.

Gosto de leite fervido. Mas, não sei explicar a minha preferência por copo de vidro. Fervo o leite e esqueço o copo. Chego a fechar os olhos. Ponho o tanto que gosto, o copo pela metade, e espero. Se sei esperar, é porque gosto de leite. Bebê-lo quente, sei que a temperatura alta dá despistes na língua. E que o leite não perca o que tem de melhor.

O importante, portanto, é estar em paz consigo, é ir vivendo um dia de cada vez. Sem passar o carro à frente dos bois. Sem desculpas pra quando melancolias tomarem as rédeas. Já viver em desalinho consigo afeta tanto a alma que gera intolerâncias.

Sei que não estou pedindo muito. Não sou de pedir muito. Entendo, quero somente ir adiante. Não se espera que haja mágica: um copo de leite ajuda a ir em frente, porque sustenta bem, nem empanturra.

Ao léu de mim, a favor de curtir um instante de tranquilidade, a vida tem desses fluxos, umas ideias de querer viver à vontade. E fico numa boa, até quando estou tão à vontade.

E gozo de beber leite num copinho de requeijão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário