terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Uma alma honesta

 

Uma alma honesta

 

Devera, sei que não se lambe os dedos com a criançada vivamente interessada no pote de gostosura, mas, como não estou a fim de perder uma lambuzadinha, viro de costas.

De maneira alguma vou entrar nessa de fingir que não gosto: enfio a mão no sorvete e mando ver. Lambo com entusiasmo que pareço um cara amalucado. De tão delicioso, grunho de prazer.

Sei qual é o papel. Preciso ter cuidado, pois não pretendo servir de exemplo. Seria um exemplo péssimo. Para quem lamber-se diante de meninas e meninos é absurdo injustificável, agir assim não é coisa de criança mimada, é palhaçada de adulto pirracento.

Quem se faz de infantilizado apenas pra injuriar merece o desprezo de quem sabe se colocar na pele do outro. A essa gente não deve ser fácil se travestir de indomável, ver-se condenada à piedade.

A maioria dos presentes na festinha não quer o papel de vilão, fazer o quê. Se tem lição que precisa ser passada a quem carece aprender, que a pirraça ensine o quanto a vilania pode ser vergonhosa.

Não contava com o desdém entrando no figurino?

Tudo certo, a carapuça cai bem em mim. Porém, estar em cena não basta, é justo querer aproveitar. Por isso, uso meu corpo para esconder o pote de sorvete que estou atacando sem pensar em remorso.

Lúcido, por brincar com dedos e língua, não ignoro a revolta.

Estou para ser tocado porta fora. Só que nem comi do bolo que tem cara de estar uma delícia. Seria decepcionante não cantar parabéns.

Entendo a maldade, a deles e a minha.

Preciso disfarçar as demonstrações de volúpia.

Compreendo, causo choques de indignação.

Acordar o lado menos resignado às boas maneiras horroriza quem não se conforma comigo a lamber os dedos.

Todavia, não me peçam um real para comprar mais sorvete, porque não darei nada. Não me chamaram pra festa? O fato de ter dinheiro no bolso me permite agir da maneira que ajo.

Sem papas na língua, não tenho como negar que gosto de sorvete e que me lambuzar não é coisa rara. Assim, não me envergonha expor que sei viver satisfeito da vida com prazeres banais, acessíveis a quem queira senti-los.

Se pretendo chocar? Não é pra causar dor em quem deseja fazer o mesmo que estou fazendo. Muita gente, contudo, reprime o que quer, porque ficar lambuzada é coisa feia.

Eu não fico sofrendo, uma vez que, na realidade, não tem o que me faça gostar de sofrer. Também não penso que a dor motive ninguém a mudar sua visão de mundo.

Em outras palavras: durmo cedo, porque não sou de amanhecer na gafieira; acordo com o galo porque preciso suar a camisa; não reclamo que o sol brilhe numa hora errada; devoro o pote de sorvete até lamber os dedos, pois não sou de refugar o que eu gosto.

O resto é chororô.

Como gosto de coisa direita, não nego que o mocinho está careca de saber que a criançada não tem que ficar chupando o dedo.

Acredite: honestidade implica mesmo que seja dita a verdade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2022.

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