Luta
livre
O zunido anuncia a presença, tem mosca
voando. Ter asas não faz o bicho invisível, dá-lhe rapidez. Quando os olhos
acham que estão no rastro, a danada está em outra rota. Ou seja, o zunido torna
frustrante o olhar que não é rápido o bastante para pegar o tal bicho insolente
na trajetória que o cérebro humano supõe traçar. Não adianta nada varrer a
cozinha de cima a baixo, a mosca não se orienta por previsões.
Pobre homem, cujos olhos míopes não têm disparadores
de gosma ácida que calcina bicho zombeteiro.
Em vão, a pessoa acha que tem como caçar
a mosca apenas com o olhar. Nem que soltasse faíscas.
A raiva pode produzir espuma, mas espuma
não vira rede de malha fina que pescador usa com agilidade nem fica armada no
ar feito teia que sintetiza o orvalho da alvorada em prisma à luz do sol.
E não se conhece inseto algum que não adore
badulaque reluzente que pareça saboroso?
Zumbido é mosca se coçando de rir de
algoz incompetente?
Não tem jeito. Uma vez irritado com o
barulho, tem que dar cabo do inseto ou o ruído amolador deixá-lo-á ainda mais amofinado.
Quisera a mente pudesse dar fim à barafunda,
parando-a milésimos de segundo antes de os dentes rangerem. Sem ligação com o
rangido excruciante, o voo é interrompido. Pelo lado bom, o silêncio adia a
fúria; pelo ruim, não significa que facilite a localização da mosca pousada.
E a coisa só piora.
Com o olho cheio de pressa, o homem
mostra que agir como se um terremoto fosse iminente só degringola o já
precário. Lento, ele nem vê por onde diabos a mosca passa; estabanado, roda que
roda que acaba suado e zureta em vez de frio senhor da razão.
Quanto mais demora matar a chata, mais o
homem desconfia de si.
Chistoso, o inseto zune sua audácia no
ouvido do néscio que já não está seguro do seu poder de cabeça comandante de
músculos.
A mão do homem sente a comichão de um
tapa se fortalecendo, se erguendo dos vazios da carne, se tornando um míssil
programado para liquidar asas, olhos e antenas.
Essa mosca tem antenas que só uma mente apurada
pode ver.
Esse bicho feio, que das borboletas
sequer tem a leveza das flores, esse ser horroroso tem mais é que levar um
murro bem dado na fuça.
Entretanto, engana-se o fustigado quando
pensa que tal exorcismo desproporcional mandará pro espaço essa criatura, pois
a endiabrada morrerá de fato com um tapa poderoso.
O poder do tapa não está na velocidade,
está na agilidade; não está na potência, na precisão; nem na insistência, está
na diligência.
Afrontado, que este bicho-homem tome
pulso da situação, não cicie nem ronrone, segure-se da afobação, que o ato supremo
leve ao êxito, à culminância, à derrota do asqueroso.
Por temer o próprio tapa, enfiar a mão em
quina, quebrar um copo, cortar-se num caco; ao ver-se, entretanto, livre da
inteligência turva dos parvos, abre a porta do quintal e um pardal fulmina aquele
mosquito.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 17 de fevereiro de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário