quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Luta livre

 

Luta livre

 

O zunido anuncia a presença, tem mosca voando. Ter asas não faz o bicho invisível, dá-lhe rapidez. Quando os olhos acham que estão no rastro, a danada está em outra rota. Ou seja, o zunido torna frustrante o olhar que não é rápido o bastante para pegar o tal bicho insolente na trajetória que o cérebro humano supõe traçar. Não adianta nada varrer a cozinha de cima a baixo, a mosca não se orienta por previsões.

Pobre homem, cujos olhos míopes não têm disparadores de gosma ácida que calcina bicho zombeteiro.

Em vão, a pessoa acha que tem como caçar a mosca apenas com o olhar. Nem que soltasse faíscas.

A raiva pode produzir espuma, mas espuma não vira rede de malha fina que pescador usa com agilidade nem fica armada no ar feito teia que sintetiza o orvalho da alvorada em prisma à luz do sol.

E não se conhece inseto algum que não adore badulaque reluzente que pareça saboroso?

Zumbido é mosca se coçando de rir de algoz incompetente?

Não tem jeito. Uma vez irritado com o barulho, tem que dar cabo do inseto ou o ruído amolador deixá-lo-á ainda mais amofinado.

Quisera a mente pudesse dar fim à barafunda, parando-a milésimos de segundo antes de os dentes rangerem. Sem ligação com o rangido excruciante, o voo é interrompido. Pelo lado bom, o silêncio adia a fúria; pelo ruim, não significa que facilite a localização da mosca pousada.

E a coisa só piora.

Com o olho cheio de pressa, o homem mostra que agir como se um terremoto fosse iminente só degringola o já precário. Lento, ele nem vê por onde diabos a mosca passa; estabanado, roda que roda que acaba suado e zureta em vez de frio senhor da razão.

Quanto mais demora matar a chata, mais o homem desconfia de si.

Chistoso, o inseto zune sua audácia no ouvido do néscio que já não está seguro do seu poder de cabeça comandante de músculos.

A mão do homem sente a comichão de um tapa se fortalecendo, se erguendo dos vazios da carne, se tornando um míssil programado para liquidar asas, olhos e antenas.

Essa mosca tem antenas que só uma mente apurada pode ver.

Esse bicho feio, que das borboletas sequer tem a leveza das flores, esse ser horroroso tem mais é que levar um murro bem dado na fuça.

Entretanto, engana-se o fustigado quando pensa que tal exorcismo desproporcional mandará pro espaço essa criatura, pois a endiabrada morrerá de fato com um tapa poderoso.

O poder do tapa não está na velocidade, está na agilidade; não está na potência, na precisão; nem na insistência, está na diligência.

Afrontado, que este bicho-homem tome pulso da situação, não cicie nem ronrone, segure-se da afobação, que o ato supremo leve ao êxito, à culminância, à derrota do asqueroso.

Por temer o próprio tapa, enfiar a mão em quina, quebrar um copo, cortar-se num caco; ao ver-se, entretanto, livre da inteligência turva dos parvos, abre a porta do quintal e um pardal fulmina aquele mosquito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de fevereiro de 2022.

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