Contagiante
Falo por experiência, o que não quer
dizer que a vivência tenha me equipado a lutar por minha paz, o bumerangue da
vida funciona assim: mando meus problemas pro inferno, eles desaparecem um
tempo, mas voltam. Com a força que usei pra descarregá-los no mundo, voltam.
Apegados a mim, os aborrecimentos me
descobrem pelo faro, pois transpiro medo. Queria me ver livre das complicações,
porém o danado do cão do mundo sabe do osso pelo cheiro e sua fidelidade é mais
que um rabo abanando. E há latidos, latidos bem altos, latidos de tão grande
contentamento que fico ansiado.
Só que não tiro a gravata quando afrouxo
o nó. Então, a carga volta com tudo. A coisa toda vem como se estivesse mais
intensa, com maior poder de afetar um espírito como o meu.
Não vou negar que relaxado, alegre,
satisfeito, à vontade, este meu bem-estar é fagulha que assa o cru, azeda o
coalho, torra a mandioca, e me põe perdido, pois, mal-assombrado, tenso e
triste, quero água.
Neste mundo cheio de incertezas, tem
algo que não muda de modo algum: bumerangue não é treco chegado a quebrar
expectativas: uma vez arremessado, retorna ao ponto do arremesso.
Não tenho mesmo como negar, sou uma
figura.
Como tenho frente e verso, os meus problemas
seguem as regras. Eles vão e voltam, batem na nuca. Pego de surpresa, já que
não tenho olhos na nuca, fico atordoado, me desequilibro e tento não cair.
Fecho os olhos. Não olho pra baixo. Faço
o que posso.
Nem sempre abismo cabe em caixa de
fósforo. Caixinha útil é a que marca o ritmo. Um momento asfixiante perde
pressão quando tem um respiro. E o alívio vem com um samba.
Quero o samba leve, que faça bater
palma, que ponha as cadeiras pra balançar, que fale das tristezas, do coração
partido em cacos, das mazelas do dia a dia, do almoço apertado pro sanduba de
mortadela, da formiga cortando folha, de beija-flor namorando cravo amarelo, que
o samba cante o fogo que pega tão logo a água evapore do graveto, e que peça por
Momo.
Os baluartes de Momo passam. Bebem, cantam.
Mijam nos muros, canteiros, fuscas, jipes e conversíveis. Vomitam vinho, vodca,
cerveja. Vão passando, fumando charuto, cachimbo, cigarros. Tragam cigarros caseiros.
Vão bebendo, fumando, cantando.
E apertando campainhas, eles avançam.
Casa a casa, vão tocando campainhas. Gritam pra que venha pra rua quem está no
escuro. Para que se perca o medo, gritam. Que a gente fechada no quarto vista-se
com a alegria. Que a folia momesca ilumine quem vive nas trevas.
Vestidos de Papai Noel, dividindo
garrafas, vão passando, gritando, batendo nas portas e janelas, forçando os portões,
xingando correntes e cadeados. Toda gente tem lugar no cordão da cangibrina. Todos
têm vez neste bloco de barrigudos do gorro vermelho.
Com tantos Karl Marx, Pedro II e Walt
Whitman na galhofa do caco cheio, o jeito, crânio, é sumir debaixo da cama.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2022.
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