domingo, 27 de fevereiro de 2022

Contagiante

 

Contagiante

 

Falo por experiência, o que não quer dizer que a vivência tenha me equipado a lutar por minha paz, o bumerangue da vida funciona assim: mando meus problemas pro inferno, eles desaparecem um tempo, mas voltam. Com a força que usei pra descarregá-los no mundo, voltam.

Apegados a mim, os aborrecimentos me descobrem pelo faro, pois transpiro medo. Queria me ver livre das complicações, porém o danado do cão do mundo sabe do osso pelo cheiro e sua fidelidade é mais que um rabo abanando. E há latidos, latidos bem altos, latidos de tão grande contentamento que fico ansiado.

Só que não tiro a gravata quando afrouxo o nó. Então, a carga volta com tudo. A coisa toda vem como se estivesse mais intensa, com maior poder de afetar um espírito como o meu.

Não vou negar que relaxado, alegre, satisfeito, à vontade, este meu bem-estar é fagulha que assa o cru, azeda o coalho, torra a mandioca, e me põe perdido, pois, mal-assombrado, tenso e triste, quero água.

Neste mundo cheio de incertezas, tem algo que não muda de modo algum: bumerangue não é treco chegado a quebrar expectativas: uma vez arremessado, retorna ao ponto do arremesso.

Não tenho mesmo como negar, sou uma figura.

Como tenho frente e verso, os meus problemas seguem as regras. Eles vão e voltam, batem na nuca. Pego de surpresa, já que não tenho olhos na nuca, fico atordoado, me desequilibro e tento não cair.

Fecho os olhos. Não olho pra baixo. Faço o que posso.

Nem sempre abismo cabe em caixa de fósforo. Caixinha útil é a que marca o ritmo. Um momento asfixiante perde pressão quando tem um respiro. E o alívio vem com um samba.

Quero o samba leve, que faça bater palma, que ponha as cadeiras pra balançar, que fale das tristezas, do coração partido em cacos, das mazelas do dia a dia, do almoço apertado pro sanduba de mortadela, da formiga cortando folha, de beija-flor namorando cravo amarelo, que o samba cante o fogo que pega tão logo a água evapore do graveto, e que peça por Momo.

Os baluartes de Momo passam. Bebem, cantam. Mijam nos muros, canteiros, fuscas, jipes e conversíveis. Vomitam vinho, vodca, cerveja. Vão passando, fumando charuto, cachimbo, cigarros. Tragam cigarros caseiros. Vão bebendo, fumando, cantando.

E apertando campainhas, eles avançam. Casa a casa, vão tocando campainhas. Gritam pra que venha pra rua quem está no escuro. Para que se perca o medo, gritam. Que a gente fechada no quarto vista-se com a alegria. Que a folia momesca ilumine quem vive nas trevas.

Vestidos de Papai Noel, dividindo garrafas, vão passando, gritando, batendo nas portas e janelas, forçando os portões, xingando correntes e cadeados. Toda gente tem lugar no cordão da cangibrina. Todos têm vez neste bloco de barrigudos do gorro vermelho.

Com tantos Karl Marx, Pedro II e Walt Whitman na galhofa do caco cheio, o jeito, crânio, é sumir debaixo da cama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2022.

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