Uma
alma honesta
Devera, sei que não se lambe os dedos
com a criançada vivamente interessada no pote de gostosura, mas, como não estou
a fim de perder uma lambuzadinha, viro de costas.
De maneira alguma vou entrar nessa de
fingir que não gosto: enfio a mão no sorvete e mando ver. Lambo com entusiasmo que
pareço um cara amalucado. De tão delicioso, grunho de prazer.
Sei qual é o papel. Preciso ter cuidado,
pois não pretendo servir de exemplo. Seria um exemplo péssimo. Para quem lamber-se
diante de meninas e meninos é absurdo injustificável, agir assim não é coisa de
criança mimada, é palhaçada de adulto pirracento.
Quem se faz de infantilizado apenas pra
injuriar merece o desprezo de quem sabe se colocar na pele do outro. A essa
gente não deve ser fácil se travestir de indomável, ver-se condenada à piedade.
A maioria dos presentes na festinha não quer
o papel de vilão, fazer o quê. Se tem lição que precisa ser passada a quem carece
aprender, que a pirraça ensine o quanto a vilania pode ser vergonhosa.
Não contava com o desdém entrando no figurino?
Tudo certo, a carapuça cai bem em mim.
Porém, estar em cena não basta, é justo querer aproveitar. Por isso, uso meu
corpo para esconder o pote de sorvete que estou atacando sem pensar em remorso.
Lúcido, por brincar com dedos e língua,
não ignoro a revolta.
Estou para ser tocado porta fora. Só que
nem comi do bolo que tem cara de estar uma delícia. Seria decepcionante não
cantar parabéns.
Entendo a maldade, a deles e a minha.
Preciso disfarçar as demonstrações de
volúpia.
Compreendo, causo choques de indignação.
Acordar o lado menos resignado às boas
maneiras horroriza quem não se conforma comigo a lamber os dedos.
Todavia, não me peçam um real para
comprar mais sorvete, porque não darei nada. Não me chamaram pra festa? O fato
de ter dinheiro no bolso me permite agir da maneira que ajo.
Sem papas na língua, não tenho como
negar que gosto de sorvete e que me lambuzar não é coisa rara. Assim, não me
envergonha expor que sei viver satisfeito da vida com prazeres banais,
acessíveis a quem queira senti-los.
Se pretendo chocar? Não é pra causar dor
em quem deseja fazer o mesmo que estou fazendo. Muita gente, contudo, reprime o
que quer, porque ficar lambuzada é coisa feia.
Eu não fico sofrendo, uma vez que, na
realidade, não tem o que me faça gostar de sofrer. Também não penso que a dor motive
ninguém a mudar sua visão de mundo.
Em outras palavras: durmo cedo, porque não
sou de amanhecer na gafieira; acordo com o galo porque preciso suar a camisa; não
reclamo que o sol brilhe numa hora errada; devoro o pote de sorvete até lamber os
dedos, pois não sou de refugar o que eu gosto.
O resto é chororô.
Como gosto de coisa direita, não nego que
o mocinho está careca de saber que a criançada não tem que ficar chupando o dedo.
Acredite: honestidade implica mesmo que seja
dita a verdade.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2022.