Pacote
completo
Na semana depois do Natal, não tendo
sido atendido o pedido bem simples ꟷ só quero relaxar um pouco esta pessoa
presa à consciência que gosta de tumultuar para seguir parada ꟷ, resolvi que me
mexeria.
Embora quisesse um dedinho de paciência
para comer sem pressa mais um pedaço de panetone, engoli depois de umas três
mastigadas, consegui enfiar na cabeça que nem valeria tanto assim exigir
respeito à lista de realizações inadiáveis.
Como não me preocupo com o funcionamento
do fígado, virei beber copos e copos de leite enriquecido com cálcio, que isso
era bom pros ossos, mas a quantidade exagerada atacou a vesícula.
Que vesícula? A minha foi retirada.
Pois é, vai entender como o organismo
humano trabalha...
Ajo e falho, gero frustrações; vitorioso,
crescem as expectativas de que eu possa virar especialista em conquistas
avassaladoras.
Avassaladora foi a minha impotência diante
do poder, pois o Papai Noel bem que poderia ter alguma simpatia por mim e ter valorizado
a predisposição a errar cálculos banais, até pra não ultrapassar os limites
recomendáveis ao trabalho normal das entranhas.
Sempre achei que poderia viver acreditando
que um mundo melhor depende de nossa barriga digerir numa boa o que tem pra
digerir, sem abrir o bico e pedir clemência à flora intestinal.
Peraí!
Uma ova que vou ficar chorando as
pitangas.
Com um mercado pela frente, fui convicto,
realmente esperançoso, pois ninguém agiria em nome deste cidadão.
Tenho direito a voto e exerço-o com
alegria.
E declaro de peito aberto, voz mansa e
sorriso sem nada de santo: estou certo de que depois do relâmpago vem o
estrondo.
Radiante de lúcido, fui às compras com
cinquenta reais.
Cinquenta?
Cinquenta, pois, ao vê-la tão curtinha
na carteira, deu um dó sentido da gaita, então, peguei a nota que gerasse o
maior número de notas.
Se dinheiro anda valendo o volume que
faz, queria estufado o bolso.
Acredite, fiz o certo. Levando a carteira,
as merrecas me deixariam incomodado. Atrás de algum compartimento secreto, iria
fuçar ansioso.
De ansioso pra furioso, adeus bonde da
felicidade.
E pior! Meu último amor me sorriria da
foto que o zíper da bolsinha de moedas faz bem em resguardar do meu rancor.
Não quero viver outra vez o que passei.
Aliás, fiquei sozinho, em paz, nem fui à
missa do galo. E, sem gente reclamando, fiz coro à Nara Leão, porque nasci
feliz, nasci para bailar, e bailei até cair bêbado no sofá.
Finalmente, acordei! E acordei querendo
sequilho.
No caixa, a mocinha sugeriu que trocasse
aquele pacote que estava uma farofinha que dava nojo.
Não só não troquei, como juntei outro
pacote. Porque não sou burro, não seria uma farofa que iria me impedir de constrangê-la
a me sugerir a esperada troca, e ela cobrou sem dizer um A.
Comi tudo de uma vez. Tive azia,
diarreia e vomitei.
Putz! Que olho gordo do caramba.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 06 de janeiro de 2022.