quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Uma gracinha

 

Uma gracinha

 

O bebê está botando coisas na boca. Tudo em que vai pondo a mão vira um treco passível de divertido abocanhamento. Tudo mesmo, sem exceção, seja um objeto delicioso como um biscoito ou uma bugiganga asquerosa como um pente.

A criaturinha, de repente, tira aquele som batuta do troço cheio de dentes. Um bocado batuta, tanto que ela ri dengosa.

Babando, e repetindo o achado daquele som. É conquista travessa que não dá sentido algum ao mundão ao seu redor, mas que dá motivo pra rir à beça, isso dá.

E esta fofurinha bebê ri, ri, ri. Escandalosamente ri, tão feliz da vida, uma pequena fonte de criatividade a experimentar-se inventora a fazer do pente de plástico uma harpa nas mãos de uma Godelieve Schrama tocando À l’espagnole de Andre Caplet.

Que diabo eu tô fazendo?

Era pra eu ter lido uma crônica, cuja leitura foi indicada por jornalista a quem levo a sério porque escreve em jornal impresso, e não vou ficar com picuinha com nenhum dos nossos profissionais de imprensa.

Como não faço biquinho sequer quando deixo de lado o que deveria ter feito por prazer, se não li o cronista sugerido, fiquei maravilhado ao ler uma resenha crítica musical; e mais ainda, ouvindo Divertissement!, disco gravado pela c/o chamber orchestra, assim em minúsculas, que dispensa maestro regente ou músico condutor.

Estou pisando em ovos. Melhor seria parar, todavia não paro. Ando selvagem de tanta alegria.

Anárquicos gozadores, meus neurônios acalantam a menininha em fraldas que faz uma música adorável com o pente de bolso achado no chão da sala empanturrada de adultos bem passados.

Putz. Quero mais é me divertir feito bebê.

Na vida ideal, a diversão impediria o mundo de produzir desgraças em série. Nada disso acontece; por obra do riso, só bem-estar.

Um bem-estar em minha cabeça, tão repleta de minhocas a adubar culpas, à espera do próximo salvador da pátria, que me tire os pecados endiabrados que me fabricam o andar ligeiro, seja devagar como quem lambe um pirulito, seja chupando sorvete sob sol a pino.

Ligeiramente imbecil, entendo que, indo morro abaixo, não estou na banguela, não vou em ponto morto e não quero puxar o freio. Prefiro ir na maciota, na corda bamba de galochas, tirando fina da tinta fresca e passando ao largo de bocomocos bocós.

À cabeceira, o poderoso paizão vai dizendo como a banda deveria tocar, mas a nora encrenqueira refuta-o, ponto por ponto.

Sem fazer careta, a mulher do pai vê-se forçada a abrir outro vinho, que não para de multiplicar-se.

Um dos genros, talvez o menos interesseiro, esse não diz nada que contrarie as concordâncias generalizadas que sua cabeça pontua. Ora a favor da guerra contra os mosquitos da dengue, ora a favor da venda das estatais que tiram o couro dos homens de bem deste país.

Santo! Santíssimo!

Sem nunca antes ter andado, a bebê dá a primeira engatinhada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário