O
bebê está botando coisas na boca. Tudo em que vai pondo a mão vira um treco
passível de divertido abocanhamento. Tudo mesmo, sem exceção, seja um objeto delicioso
como um biscoito ou uma bugiganga asquerosa como um pente.
A
criaturinha, de repente, tira aquele som batuta do troço cheio de dentes. Um
bocado batuta, tanto que ela ri dengosa.
Babando,
e repetindo o achado daquele som. É conquista travessa que não dá sentido algum
ao mundão ao seu redor, mas que dá motivo pra rir à beça, isso dá.
E
esta fofurinha bebê ri, ri, ri. Escandalosamente ri, tão feliz da vida, uma
pequena fonte de criatividade a experimentar-se inventora a fazer do pente de
plástico uma harpa nas mãos de uma Godelieve Schrama tocando À l’espagnole
de Andre Caplet.
Que
diabo eu tô fazendo?
Era
pra eu ter lido uma crônica, cuja leitura foi indicada por jornalista a quem
levo a sério porque escreve em jornal impresso, e não vou ficar com picuinha
com nenhum dos nossos profissionais de imprensa.
Como
não faço biquinho sequer quando deixo de lado o que deveria ter feito por
prazer, se não li o cronista sugerido, fiquei maravilhado ao ler uma resenha
crítica musical; e mais ainda, ouvindo Divertissement!, disco gravado pela c/o
chamber orchestra, assim em minúsculas, que dispensa maestro regente ou
músico condutor.
Estou
pisando em ovos. Melhor seria parar, todavia não paro. Ando selvagem de tanta
alegria.
Anárquicos
gozadores, meus neurônios acalantam a menininha em fraldas que faz uma música adorável
com o pente de bolso achado no chão da sala empanturrada de adultos bem
passados.
Putz.
Quero mais é me divertir feito bebê.
Na
vida ideal, a diversão impediria o mundo de produzir desgraças em série. Nada
disso acontece; por obra do riso, só bem-estar.
Um
bem-estar em minha cabeça, tão repleta de minhocas a adubar culpas, à espera do
próximo salvador da pátria, que me tire os pecados endiabrados que me fabricam o
andar ligeiro, seja devagar como quem lambe um pirulito, seja chupando sorvete
sob sol a pino.
Ligeiramente
imbecil, entendo que, indo morro abaixo, não estou na banguela, não vou em
ponto morto e não quero puxar o freio. Prefiro ir na maciota, na corda bamba de
galochas, tirando fina da tinta fresca e passando ao largo de bocomocos bocós.
À
cabeceira, o poderoso paizão vai dizendo como a banda deveria tocar, mas a nora
encrenqueira refuta-o, ponto por ponto.
Sem
fazer careta, a mulher do pai vê-se forçada a abrir outro vinho, que não para
de multiplicar-se.
Um
dos genros, talvez o menos interesseiro, esse não diz nada que contrarie as
concordâncias generalizadas que sua cabeça pontua. Ora a favor da guerra contra
os mosquitos da dengue, ora a favor da venda das estatais que tiram o couro dos
homens de bem deste país.
Santo!
Santíssimo!
Sem
nunca antes ter andado, a bebê dá a primeira engatinhada.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2021.
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