domingo, 5 de dezembro de 2021

Objeto de consumo

 

Objeto de consumo

 

A mesinha em que escrevo está rangendo. De uns dias para cá, as juntas também deram de bambear, de parecer que estão folgando um tanto a cada dia. Tem bicho comendo-a por dentro.

E pelo jeito está roendo sem cessar. Pela sobrevivência a qualquer custo. Pelo instinto de permanência da genética da espécie.

Digo à guisa de explicação científica, uma vez que julgo apropriada e coerente a ciência que divulgo. Sem medo do ridículo, pois a entendo lógica. Sem que esteja conforme ao que o animal faminto possa trazer na fisiologia, está de acordo com o que pondero.

Isso é o óbvio, tão óbvio, como pensador aldrabão a defender ideias radicalmente estapafúrdias, parece dispensável dizê-lo, todavia minha estupidez traça tramoias com fala adocicada.

Não sendo o porta-voz da consciência nem seu boneco ventríloquo, noto com felicidade que um dedo de delírio me deixa fácil.

Por impulso dramático, o louco vem dar uma espiadinha no mundo: a noite está caminhando para a alvorada; constato que faz sol e tenho frio nos pés; me certifico de que o cobertor dobrado ainda cobre minhas pernas, da canela para baixo.

Depois que o meu vô morreu, descobri que ele tinha o hábito de pôr uma coberta dobrada que nem esta minha mania de fazê-lo.

Descontraído, observo: a mesinha deve estar achando graça, pois faz décadas que está no batente.

Primeiro foi bancada para a máquina de costura de pedal que vovó usava para os pequenos consertos e a feitura de roupas novas a partir de moldes. E vários macacões vieram ao mundo por sua indústria.

Com vocação pra sorrisos, quando a elogiavam por seu talento pra luvas e cachecóis, vovó abria o sorrisão caliente.

A vida cortou o fio da meada, e a máquina restou calada.

Assim, propenso a confundir linhas e agulhas com palavras, pus o laptop no tampo que recobri com um tipo de papel colante, cujo padrão arremedava a madeira.

Não vou recorrer à fadiga e ao estresse de insone como impeditivos da clareza, a mesa é: real, objeto de quatro pernas com tampo pedindo outra demão de contact.

Nada de inovar, querer pôr pele de oncinha, porque nem posando de secretária de jacarandá ficaria mais linda, sexy, a miss mobília.

Entretanto, estou aborrecido, querendo contar o sonho que me veio enquanto apoiava meus cotovelos no tampo judiado.

Com quatro cadeiras, a mesa é outra.

O conjunto não se alinha com os polos terrestres. Em vão querê-las dispostas no eixo norte/ sul; não satisfeitas, as cinco danadas dialogam com o noroeste/sudeste e o nordeste/sudoeste.

Parece que tem alguma coisa impelindo à mudança.

Tem alguma coisa impelindo à mudança.

A coisa impelindo à mudança parece um cacto.

Este cacto que impele à mudança parece coisa fora do normal, algo muito sério: a anomalia animal que porta gorro de motoqueiro.

Peste de cacto?

Atesto que não, pois a mesa está possuída por cupim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de dezembro de 2021.

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