A
mesinha em que escrevo está rangendo. De uns dias para cá, as juntas também deram
de bambear, de parecer que estão folgando um tanto a cada dia. Tem bicho
comendo-a por dentro.
E
pelo jeito está roendo sem cessar. Pela sobrevivência a qualquer custo. Pelo
instinto de permanência da genética da espécie.
Digo
à guisa de explicação científica, uma vez que julgo apropriada e coerente a
ciência que divulgo. Sem medo do ridículo, pois a entendo lógica. Sem que
esteja conforme ao que o animal faminto possa trazer na fisiologia, está de
acordo com o que pondero.
Isso
é o óbvio, tão óbvio, como pensador aldrabão a defender ideias radicalmente
estapafúrdias, parece dispensável dizê-lo, todavia minha estupidez traça
tramoias com fala adocicada.
Não
sendo o porta-voz da consciência nem seu boneco ventríloquo, noto com felicidade
que um dedo de delírio me deixa fácil.
Por
impulso dramático, o louco vem dar uma espiadinha no mundo: a noite está
caminhando para a alvorada; constato que faz sol e tenho frio nos pés; me certifico
de que o cobertor dobrado ainda cobre minhas pernas, da canela para baixo.
Depois
que o meu vô morreu, descobri que ele tinha o hábito de pôr uma coberta dobrada
que nem esta minha mania de fazê-lo.
Descontraído,
observo: a mesinha deve estar achando graça, pois faz décadas que está no
batente.
Primeiro
foi bancada para a máquina de costura de pedal que vovó usava para os pequenos
consertos e a feitura de roupas novas a partir de moldes. E vários macacões
vieram ao mundo por sua indústria.
Com
vocação pra sorrisos, quando a elogiavam por seu talento pra luvas e cachecóis,
vovó abria o sorrisão caliente.
A
vida cortou o fio da meada, e a máquina restou calada.
Assim,
propenso a confundir linhas e agulhas com palavras, pus o laptop no tampo que
recobri com um tipo de papel colante, cujo padrão arremedava a madeira.
Não
vou recorrer à fadiga e ao estresse de insone como impeditivos da clareza, a
mesa é: real, objeto de quatro pernas com tampo pedindo outra demão de contact.
Nada
de inovar, querer pôr pele de oncinha, porque nem posando de secretária de
jacarandá ficaria mais linda, sexy, a miss mobília.
Entretanto,
estou aborrecido, querendo contar o sonho que me veio enquanto apoiava meus
cotovelos no tampo judiado.
Com
quatro cadeiras, a mesa é outra.
O
conjunto não se alinha com os polos terrestres. Em vão querê-las dispostas no
eixo norte/ sul; não satisfeitas, as cinco danadas dialogam com o noroeste/sudeste
e o nordeste/sudoeste.
Parece
que tem alguma coisa impelindo à mudança.
Tem
alguma coisa impelindo à mudança.
A
coisa impelindo à mudança parece um cacto.
Este
cacto que impele à mudança parece coisa fora do normal, algo muito sério: a anomalia
animal que porta gorro de motoqueiro.
Peste
de cacto?
Atesto
que não, pois a mesa está possuída por cupim.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 05 de dezembro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário