domingo, 12 de dezembro de 2021

A árvore

 

A árvore

 

Tenho que desmontar a árvore!

Caramba, carambola, difícil desmontar o nem montado.

Tem o lado bom, acordei cedo. Era madrugada, estava escuro, não porque nem tivesse amanhecido, era porque eu estava matutando de olhos fechados.

Nem sei se buscava algum alívio, apenas acordei de repente.

O curioso é que, no sonho interrompido, acontecia um encontro de pessoas que há um bom tempo não vejo reunidas. Na vida imaginária, então, bota um bruto de um tempão, já roçando o inalcançável.

A aurora deu-se por piados, grasnados, grunhidos. O suspiro triste, coube a mim soltá-lo.

Precipito-me, acho que a fantasia rola solta como taco solto produz ruídos numa sala vazia.

Peraí! Que não consigo me recordar de como foi a mudança, sequer lembro quem arrumou poltronas, sofás e os badulaques no novo lar.

Taco solto num piso novo, todavia, não bate direito com o desejado de uma casa recém-construída.

A cabeça assoreada de entulhos contraditórios ou confusos sugere que o vazio da sala soa como oco e o que está oco pode ser ocupado e ocupar é preencher e algo preenchido estimula e os estímulos fazem com que eu queira conviver, pois, convivendo, minha pessoa tem a sua cara refletida, entre a TV e a janela, no espelho falso de Magritte.

Formou-se a meia-lua com as poltronas por nós ocupadas.

Dona Marinalva, que foi a professora que me pôs no caminho suave do alfabeto, nem sei se segue assando a tentadora torta de atum que, ô encontro bom, eu ia comendo feito um morto de fome.

Como gostamos de ler crônicas, Luisinho e eu trocamos bombons: ganhei Vento Vadio; dei O espalhador de passarinhos.

Embora a cereja que não poderia faltar estivesse presente, ter Nina, a gata, lagarteando sobre Os sabiás da crônica no tampo da mesinha é o sinal de que a realidade se põe incômoda quando ilusória.

Porque fajuto de tão sedutor, o onírico do mundo polariza.

Tanto dou trela ao que se oferece como falso, algo tosco, farragem, miscelânea, uma mistureba de coisas banais com ostensivas raízes no extraordinário, que salivo.

Pode-se pensar que o sortido tem lá a sua gloriosa desimportância, certo sabor a marmelada de chuchu. Talvez facilite a compreensão do que vive, como se atropelamentos, acarretamentos e descarrilamentos armassem o chão, o corriqueiro do cotidiano.

Baixo a bola, e abro a janela.

Deixando de chupar a manga azeda do desespero, percebo: tenho que buscar oxigênio no instante em que vivo.

Entretanto, viver implica renovação.

Considerando este seis de dezembro como dia de são Nicolau: com pedaços de palha seca de milho, a cestinha é a manjedoura; a arvoreta de papel com uns dez centímetros de singeleza dá um toque artesanal; dois bumbinhos dourados estão desgarrados; comparada aos demais elementos, a bolona vermelhona fica bem sobranceira.

Neste cantinho redecorado do meu coração ateu, faz Natal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário