Por
favor, um instante.
Quando
a vida cobra de mim mais do que aguento oferecer, então, a um passo de chamar
urubu de meu louro, o jeito é pedir água, ter um momento para desfrutar da paz.
Ninguém
gosta de gente que sai dando patada e depois se desculpa com a cara de pau de
sincerão. O honesto ousa chorar pela bezerra; e fica um amorzinho depois de ter
tomado um café, chupado um sorvete, enfiado o bigode do chope no enfezado de tanta
brabeza.
Só
um segundo, por gentileza.
É
que preciso espraiar um tanto, que não sou maledicente pra jogar nos ombros dos
outros o sarrafo que tomo no lombo quando contrario quem não suporta ser confrontado.
Não
barganho comigo alguma decência, escolho a firmeza que não aborreça. É, não
escarro de volta quando cospem em mim.
Espelho,
espelho meu, antes eu do que você.
Como
não conheço a mágica de engolir a seco, pra não tripudiar na mesma moeda dos prepotentes,
busco sentir no rosto a brisa das ruas, quero ouvir o burburinho dos sonhos ainda
não atendidos ou opto pelos abraços que o acaso acabe por me presentear.
Quando
faço conta de ser agraciado pela sorte, roo as unhas. É que a demora parece
maior que a minha fibra de valente. É que a coragem que julgo expor nos dentes
cerrados vira confissão.
Pra
não acabar maluco, já que tento me equilibrar meio doido, meio são, vou ao léu
dos passos, desacelerando a cabeça agitada.
E
tem rolinhas zanzando na calçada, curto observá-las. Graciosas, não ficam
irritadas com a cegueira de humanos azafamados.
E
vejo vira-latas cheirando uns aos outros; aí, fico na minha.
Putisgrila!
Qual é a minha?
Quando
fico cheio de grilos, tiro a viola do saco e vou gastar sapato de loja em loja,
salivando, calçando, vestindo e experimentando tudo o que não me serve, não me
agrada, não me convence a ficar longe do sol, que a tarde é uma criança,
criança que gosta da gente embalada.
Viva!
Vida que me faz desarvorado. Viva! Minha vida de coqueiros, palmeiras e outras pupunhas,
quero cantá-la à toa, destoando, errando letras e cifrões. Me permita, ó vida, que
me perca a caminho de casa.
No
entanto, peço licença pra lamentar os pares de tênis espalhados debaixo da cama.
Será
sinal da ziquizira dos infernos?
Que
o silêncio seja quebrado, que sua quebra me estimule a pensar fora da caixa, pois
na caixinha guardo as receitas, as bulas e restos de remédios, os vencidos e os
válidos.
De
verdade, no centro da cachola rego a flor dos desejos dando-lhe um toque pra que
não murche nem seque. E como preservá-la viçosa, potente e vigorosa que nem aspirina
consiga atingi-la?
Como
não finjo que sou idiota, não avivo o fogo nas tripas comendo o que sobra da
calabresa quatro queijos.
Além
disso, não preciso de mais uma caixa, até porque não traria outro tênis pra ficar
pegando poeira com os quatro pares, todos pretos, do mesmo modelo, da mesma
marca. Que troço mais doido.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 07 de dezembro de 2021.
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