terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A caixa

 

A caixa

 

Por favor, um instante.

Quando a vida cobra de mim mais do que aguento oferecer, então, a um passo de chamar urubu de meu louro, o jeito é pedir água, ter um momento para desfrutar da paz.

Ninguém gosta de gente que sai dando patada e depois se desculpa com a cara de pau de sincerão. O honesto ousa chorar pela bezerra; e fica um amorzinho depois de ter tomado um café, chupado um sorvete, enfiado o bigode do chope no enfezado de tanta brabeza.

Só um segundo, por gentileza.

É que preciso espraiar um tanto, que não sou maledicente pra jogar nos ombros dos outros o sarrafo que tomo no lombo quando contrario quem não suporta ser confrontado.

Não barganho comigo alguma decência, escolho a firmeza que não aborreça. É, não escarro de volta quando cospem em mim.

Espelho, espelho meu, antes eu do que você.

Como não conheço a mágica de engolir a seco, pra não tripudiar na mesma moeda dos prepotentes, busco sentir no rosto a brisa das ruas, quero ouvir o burburinho dos sonhos ainda não atendidos ou opto pelos abraços que o acaso acabe por me presentear.

Quando faço conta de ser agraciado pela sorte, roo as unhas. É que a demora parece maior que a minha fibra de valente. É que a coragem que julgo expor nos dentes cerrados vira confissão.

Pra não acabar maluco, já que tento me equilibrar meio doido, meio são, vou ao léu dos passos, desacelerando a cabeça agitada.

E tem rolinhas zanzando na calçada, curto observá-las. Graciosas, não ficam irritadas com a cegueira de humanos azafamados.

E vejo vira-latas cheirando uns aos outros; aí, fico na minha.

Putisgrila! Qual é a minha?

Quando fico cheio de grilos, tiro a viola do saco e vou gastar sapato de loja em loja, salivando, calçando, vestindo e experimentando tudo o que não me serve, não me agrada, não me convence a ficar longe do sol, que a tarde é uma criança, criança que gosta da gente embalada.

Viva! Vida que me faz desarvorado. Viva! Minha vida de coqueiros, palmeiras e outras pupunhas, quero cantá-la à toa, destoando, errando letras e cifrões. Me permita, ó vida, que me perca a caminho de casa.

No entanto, peço licença pra lamentar os pares de tênis espalhados debaixo da cama.

Será sinal da ziquizira dos infernos?

Que o silêncio seja quebrado, que sua quebra me estimule a pensar fora da caixa, pois na caixinha guardo as receitas, as bulas e restos de remédios, os vencidos e os válidos.

De verdade, no centro da cachola rego a flor dos desejos dando-lhe um toque pra que não murche nem seque. E como preservá-la viçosa, potente e vigorosa que nem aspirina consiga atingi-la?

Como não finjo que sou idiota, não avivo o fogo nas tripas comendo o que sobra da calabresa quatro queijos.

Além disso, não preciso de mais uma caixa, até porque não traria outro tênis pra ficar pegando poeira com os quatro pares, todos pretos, do mesmo modelo, da mesma marca. Que troço mais doido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2021.

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